Artigo publicado originalmente na 6ª edição da Revista Vila Nova, em março de 2013

Deus dá a roupa conforme o frio. Modificando ligeiramente o dito popular, temos uma razão para o surgimento de certas exceções tão opostas a seus contextos que só resta associá-las à inteligência providencial que rege as coisas. Pois, uma vez à tona, a exceção improvável, embora destoando de tudo que lhe cerca, pode mostrar-se de vital importância ao ambiente em que brotou por acaso.

O Brasil precisava de um poeta como Bruno Tolentino; não o mereceu, não o produziu, mas ganhou-o de presente como uma região arrasada por uma catástrofe natural recebe mantimentos. Levando adiante a imagem: Tolentino não é mero feijão com arroz, não é improvisada cesta básica, é, sim, um poderoso composto vital, feito de quanto há de melhor e mais refinado nas letras do ocidente e cujo surgimento na difícil segunda metade do século XX brasileiro prova que Deus ama e ajuda mesmo seus povos mais desastrados.

O carioca Bruno Tolentino foi um espírito cosmopolita. Sua infância e juventude no Brasil foram marcadas pelo convívio com a nata artística e intelectual do país. Nascido em 1940, numa tradicional família do Rio de Janeiro, “teve como primeiros mestres Cecília Meirelles e Manuel Bandeira, este último fundamental para a sua formação como poeta. Também teve contato próximo com José Guilherme Merquior, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.”[1] Deixou o Brasil em 1964, com o estopim do governo militar, para embarcar num exílio europeu que duraria 30 anos e o colocaria em contato ativo com a efervescência cultural da Europa.

Foi assim que, ao retornar a seu país em 1993, Tolentino desconhecia o que não fossem sociedades culturalmente saudáveis e produtivas. Sua noção de Brasil correspondia à terra que dera à luz Bandeira, Meireles e incontáveis outros. Mas agora, 30 anos depois, o panorama estava mudado; o poeta, que trazia na bagagem sua obra praticamente pronta e vinha sedento por diálogo, por interação, enfim por dar continuidade àquilo que sempre fizera – alta cultura –, estava só.

Na antológica entrevista que deu à Revista Veja, em 1996, ele desabafa: “Na República das Letras ainda estamos à espera das diretas já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se matando o diálogo, o debate e a polêmica”[2].

Ao deparar tal cenário, Tolentino fez o que lhe cabia fazer: polemizou, criticou, falou em alto e bom som tudo que o decoro acadêmico, cioso de suas costas quentes, não tinha interesse em dizer. Foi antipatizado e combatido. Mas o boicote principal foi, e continua sendo, aquele feito à sua poesia. Malgrado alguns prêmios, quiçá mais para efeito de cala-boca do que em sinal reconhecimento da dimensão de sua obra[3], nas universidades e entre a dita classe letrada brasileira até hoje se continua a fazer um silêncio de túmulo em torno de Tolentino.

Aqui cabe um depoimento pessoal. Sou graduada em Letras pela USP. Durante os cinco anos de curso, não reclamo nem de não ter tido uma disciplina inteira dedicada à poesia de Bruno Tolentino –  o fato é que nunca sequer ouvi falar seu nome ali dentro, nem mesmo para criticá-lo. Ao serem lembradas da existência de Tolentino, as pessoas do meio acadêmico dão de ombros e o descartam sob a classificação pejorativa de “arcaizante” ou “tradicionalista”.

De fato, mal se pode supor que o establishment o ponha de escanteio por reconhecer o significado – perigoso para a cultura da preguiça intelectual em que vivemos – de suas idéias. O mais provável é que, à parte alguns dinossauros restantes da época em que intelectuais liam livros, a maioria dos que hoje desdenham de Tolentino o faça por pura e simples ignorância ou incapacidade de entendê-lo, quando se dá ao trabalho de enfrentar um livro seu. Na verdade, o establishment das letras brasileiras, capitaneado pela nave-mãe uspiana, pouco ou nenhum interesse tem em averiguar o que se passa fora dos temas e poéticas de que se ocupa há décadas, numa obsessão que vai da vanguarda modernista de 22 à poesia marginal como quem já não tivesse, há muito tempo, cessado de ter o que destruir.

Dizer que Bruno Tolentino é um poeta maior que um Carlos Drummond, embora seja a enunciação de um fato, é o mesmo que assinar, em tal meio, um atestado de “sectarismo” ou “exagero”. Afinal, todo mundo sabe que “endeusar” Tolentino é coisa desses católicos reacionários – é pura ideologia. Não, leitor: não se trata nem de “endeusamento”, nem de ideologia. Não é fácil comparar autores qualitativamente; os critérios acabam sempre variando de pessoa para pessoa ou de grupo para grupo. Mas uma noção útil com que se trabalhar nesse sentido, e especialmente em poesia, é a de abrangência, correspondendo a quanto da realidade um autor consegue abarcar com sua obra, ou quanto seus problemas são fundamentais. Isto diz respeito às tais “idéias dos náufragos”, de Ortega y Gasset (bastante conhecidas pelos alunos do filósofo Olavo de Carvalho): aquilo que importa ao náufrago à beira da morte seria o sumo do que realmente importa a um ser humano.

Agora imaginemos que o náufrago conseguiu nadar e chegou à praia, onde viverá isolado, entregue a seus próprios recursos, dispondo apenas de um livro que lhe servirá de interlocutor pelos próximos anos. Ora, qualquer livro de Bruno Tolentino seria capaz de levar esse ser humano em circunstâncias extremas a encontrar um sentido para sua vida. Por outro lado, é questionável se se pode dizer o mesmo – com tamanha excelência, com tamanha abundância de recursos humanos e literários – de alguns dos mais celebrados poetas brasileiros do século XX, por maiores que tenham sido.

E contudo a abrangência de Tolentino não está apenas em sua profundidade temático-filosófica, útil ao homem enquanto homem. Sobretudo, ele é o poeta que veio para fecundar outros poetas. Em geral, o que uma geração de poetas lega às que vêm depois é a somatória das conquistas dos seus maiores talentos. Por exemplo: do alto modernismo brasileiro nós sorvemos de João Cabral o rigor da técnica, de Cecília Meireles o cuidado – a vida como paciente da delicadeza –, de Drummond o olhar apurado que capta o cotidiano em seus insuspeitados mistérios, ao passo que a reflexão metafísica temos de catar um pouco em Murilo Mendes, um pouco em Jorge de Lima, e assim por diante. Ocorre que, após o momento privilegiado que originou todos esses poetas, seguiu-se uma inaudita escassez. Por isso, quando Bruno Tolentino retorna ao Brasil, nos anos 90, ele é praticamente uma solução deus ex machina: ele é o antídoto que, milagrosamente, sintetiza tudo o que perdêramos durante o período de sua ausência; nele se encontram de uma só vez os múltiplos elementos que, na ordem natural das coisas, tomaríamos a vários poetas. Ele é o respeito pela linguagem, o rigor técnico, o conhecimento da tradição, a voracidade intelectual, o anti-relativismo, o anti-niilismo, o olhar cirúrgico, a delicadeza, o amor da arte enquanto arte, isto é, enquanto busca do sobre-humano no humano. E ele não só nos legou sua obra poética, como se engajou no trabalho de garimpar país afora a genuína poesia que, esquecida pelos cantos, se ousava fazer a despeito da esbórnia geral – trazendo a público, por exemplo, a joia que é Alberto da Cunha Melo.

Tolentino foi todos os poetas num só. Não é à toa que ele gostava de se dizer o Fernando Pessoa brasileiro. Donde se compreende (embora se lamente) sua própria conclusão: “o meu martírio é agüentar esse povo que não entende do que estou falando com a minha poesia.”[4]

In passim

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era; é tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.

(In: O mundo como Ideia. Editora Globo: 2002)
***
Amei Alexandria apaixonadamente.
Foi naquela cidade que amei como ninguém,
como se ama a verdade e a ilusão quando vêm
a dar quase no mesmo: um coração consente
qualquer ambigüidade à alma quando tem,
como se diz, a vida toda pela frente…
À mais notória condição inconseqüente
que um jovem coração cultiva, eu dei também
como o barco à deriva, a quilha sempre pronta
ao naufrágio ideal… Mas não foi à cidade
que eu aportei um dia, a jovem alma tonta,
o corpo amado ao lado: foi àquela metade
do eterno compartido, a jóia da vaidade,
doce como um colar de dois, conta por conta…
 
(In: A Imitação do Amanhecer)
***

Descobertas

Descobre-se que a paixão,
a paixão e a primavera,
se são paralelas são
dois termos da mesma espera.

Espera encantada ou não,
ambas não passam de mera,
febril aproximação
da jaula aberta da fera,

tremor contínuo da mão
que agarra o gradil e enterra
as unhas na solidão
que força mas não descerra.

Mordida de comunhão,
no tronco o dente da serra,
no dente o grito do grão,
e a boca aberta da terra

recebe e fecunda o chão
com os pedaços que a pantera
desmembrou na confusão
com o corpo que já não era

sequer a gazela e em vão
se debate e dilacera
de tanta sofreguidão.
A véspera desespera.

Texto de Lorena Miranda, graduada em Letras, mestranda do Departamento de Literatura e Cultura Russa da USP e colaboradora do site adhominem.com.br


[1] Martim Vasques da Cunha e Guilherme Malzoni Rabello. “Obituário do poeta Bruno Tolentino”. In: Mídia Sem Máscara, 27/06/2007. http://www.midiasemmascara.org/arquivos/6150-obituario-do-poeta-bruno-tolentino.html

[2] Entrevista a Geraldo Mayrink. Revista Veja, 20 de março de 1996.

[3] Cf. Olavo de Carvalho: “Vendo que não poderiam derrotar o poeta, resolveram assimilá-lo, digeri-lo, diluí-lo e neutralizá-lo. Nos anos que se seguiram, cumularam-no de prêmios, de homenagens, de agrados, de festinhas, de prazeres, – tudo sempre entremeado, é claro, de sussurros venenosos –, ao mesmo tempo em que lhe sonegavam todos os meios de ação. Ao homem que deveria no mínimo dirigir um suplemento cultural, uma revista, uma instituição de ensino, não se deu sequer uma miserável coluna de jornal.” In: “Bruno Tolentino (1940-2007)”. Diário do Comércio, 04/07/07.

[4] Entrevista a Vando Valentini. Revista Passos, n. 40, junho/2003.