TEXTO DE BERNARDO SOUTO

O filósofo germânico Wilhelm Dilthey,  ainda no séc. 19, percebeu que a poesia é uma forma privilegiada de conhecimento acerca da existência humana, complementar às ciências e até mesmo às religiões:

“A poesia foi levada a reconhecer as seguintes verdades fundamentais: ela não é imitação da realidade que a preexiste; não é o adorno de verdades ou significados espirituais que podem ser expressados de maneira autônoma; a potencialidade estética é o poder criativo para a produção de uma significação que transcende a realidade, e que jamais poderá ser encontrada no pensamento abstrato. Efetivamente, a poesia é um tipo ou uma maneira de Weltanschauung (‘cosmovisão’). Desta forma, a poesia foi reconhecida como uma poderosa maneira de intuição a respeito do mundo e da vida. Foi elevada a um ‘organum’ para a compreensão do mundo, juntamente com a filosofia, a religião e a ciência”. [i]

Não fosse assim, Heidegger[ii] não teria alicerçado boa parte de seu sistema filosófico no conhecimento-experiência [iii] de Hölderlin e de Rilke. Não fosse assim, Freud, malgrado seus inúmeros equívocos, não teria recorrido a personagens da poesia trágica grega para fundamentar as suas teorias psicanalíticas. Não fosse assim, o esteta tcheco Jan Mukařovský não teria chegado à conclusão de que “a arte superior deve propor respostas às questões fundamentais da vida humana, ajudando a orientar o pensamento e o comportamento do homem, a sua maneira de agir perante a realidade”.[iv]

Daí a enorme responsabilidade do poeta. Daí a necessidade de o artista do verso possuir uma cosmovisão (Weltanschauung) densa e matizada a ponto de não distorcer e falsear a realidade, sob pena de transmitir aos leitores impressões e idéias toscas e superficiais a respeito do tempo e da vida na terra, caso queiramos fazer uso da feliz expressão do saudoso poeta César Leal.

Ocorre que vivemos numa época dominada pelo relativismo estético e ético. E, como bem observou T.S. Eliot, uma arte enferma é fruto de uma época enferma. A cada dia que passa, os nossos poetas vão perdendo, devido à apeirokalia artistas contemporâneos se rebelaram contra a Beleza.

Assim como o artista plástico Fontana, que golpeava a tela, abrindo cortes no tecido, assim o faz boa parte dos poetas brasileiros contemporâneos, que, em sua revolta irracionalista e bestial contra a Língua que produziu alguns dos maiores poetas de todos os tempos, como Camões e Fernando Pessoa, acabam por forjar cancerosos monstrinhos de linguagem. É que, ao voltarem as costas à transcendência, os tais versejadoresem sua maioria – começam a cultuar tudo quanto é sórdido, bestial, pedestre, comezinho e vulgar. É uma verdadeira ode – muito tosca, diga-se de passagem – à decadência. Como os porcos, eles não conseguem olhar para o alto; como os porcos, sentem um estranho prazer em se nutrir do lixo que os rodeia.

A poesia brasileira contemporânea – pelo menos uma parcela bastante significativa dela – tornou-se, destarte, uma mera expressão do vazio interior dos versejadores. E estes, por não suportarem a idéia de afundar sozinhos no charco de rãs que eles próprios tão obstinadamente buscaram, fazem de tudo para arrastar o máximo possível de leitores incautos – muitos deles também versejadores – para o sítio infernal em que se encontram, pois nutrem a estúpida ilusão de que, acompanhados, podem atenuar a infinita desolação e o profundo niilismo que se apossou de suas almas.


[i] Cf. DILTHEY, Wilhelm. Poetry and Experience.  New Jersey, Princeton University Press, 1997, p. 117.

[ii] Para tentar entender o abominável flerte de Heidegger com o Nazismo, ler o artigo Pode um assassino escrever um bom poema?, de Otto Maria Carpeaux. Cf. CARPEAUX, Otto Maria. Organização, introdução e notas Olavo de Carvalho. Ensaios reunidos, 1942-1978. Rio de Janeiro: UniverCidade: Editora Topbooks, 1999. A confusão mental de Heidegger, bastante visível em obras como Ser e Tempo, não desabona o seu grande mérito como hermeneuta do texto poético, como bem percebeu o  crítico literário George Steiner (ensaísta de orientação visivelmente conservadora, no melhor sentido do termo).

[iii] Cf. MARITAIN, dans «Illuminations et sécheresses »,Études carmélitaines, 22e année,vol. II, octobre 1937.

[iv]  Cf. The Word and Verbal Art: Selected Essays by Jan Mukarovsky. Ed. and  trans. John Burbank and Peter Steiner. Foreword by René Wellek. New Haven: Yale UP, 1977.

[v] Cf. http://www.olavodecarvalho.org/livros/apeirokalia.htm

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