TEXTO DE BERNARDO SOUTO

Vivêssemos num país em que os poemas de Francisco de Quevedo ou de Luis de Góngora e os sermões do Padre António Vieira, e não letras de canções de Caetano Veloso, fossem utilizados para ilustrar a estética barroca na Literatura, por certo seria completamente desnecessário escrever este artigo. Mas, lamentavelmente, a alta cultura — graças, sobretudo, à nefasta influência do marxismo cultural e do gramscismo em nossas escolas[i] — foi como que alijada do conteúdo programático do hoje nomeado Ensino médio. Daí a triste realidade dos nossos estudantes universitários, que, em sua esmagadora maioria, desconhecem por completo obras fundamentais como Hamlet e Dom Quixote, tomando conhecimento da existência destas apenas através de alusões toscas e superficiais pescadas ao acaso em filmecos de décima categoria. Mas, como bem observou o poeta e filósofo da arte Ângelo Monteiro, “o que se pode esperar senão isso da experiência de pobres estudantes colhidos numa armadilha criada por seus desorientados mestres, que fizeram introduzir, com critérios meramente mercadológicos, nos livros didáticos do curso médio letras de músicas geralmente desqualificadas, em vez de textos dos nossos prosadores e poetas como em passado mais recente”?  Posto o quê, discorrerei a respeito da indagação central deste artigo.

Afinal de contas, por que ler os clássicos? Como não pretendo (e nem posso) ser o reinventor da roda— incubência que, prazerosamente, repasso aos mui doutos críticos modernosos e pós-modernosos — pedirei o auxílio de três escritores-críticos que, a despeito de pertencerem ao séc. 20, davam o devido valor à Tradição: Italo Calvino, Ezra Pound e T.S. Eliot.

Para Calvino, há pelo menos quatorze motivos para lermos as obras literárias clássicas (canônicas):

1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo…” e nunca “Estou lendo…”.

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem se tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições de apreciá-los.

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

10. Chama-se clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

11. O “seu” clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.[ii]

Para o poeta e crítico Ezra Pound, as obras clássicas são aquelas que guardam uma “juventude eterna e irreprimível”[iii], independentemente da época em que foram produzidas, uma vez que a “grande literatura [sendo atemporal] é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”[iv].  Eis porque os grandes livros da Literatura Universal são inesgotáveis.

Já T.S. Eliot, ele próprio um poeta e ensaísta canônico, acrescenta que uma das principais funções dos clássicos é a de nutrir os escritores subsequentes da Língua:

Um autor – notadamente Shakespeare e Virgílio – pode contribuir muito para desenvolver a sua língua, mas não pode levar essa língua à maturidade, a menos que o trabalho de seus predecessores a tenha preparado para o seu retoque final. Uma literatura madura, portanto, tem por detrás de si uma história: uma história que não é simplesmente uma crônica, um acúmulo de manuscritos e de obras de todas as espécies, mas um processo organizado, embora inconsciente, de uma língua para concretizar suas próprias potencialidades dentro de seus próprios limites. [i]

O mesmo Eliot, em seus ensaios, afirma que a aferição do valor estético de uma obra de arte literária depende do que chama de filtro do tempo. Tal idéia, em linhas gerais, nos remete à teoria schopenhaueriana, segundo a qual não conseguimos enxergar com nitidez aquilo que se localiza muito próximo de nós. Daí a importância decisiva do filtro do tempo. 

Eu poderia discorrer ad infinitum sobre a relevância dos clássicos. Poderia recorrer ao conceito goetheano, segundo o qual a obra de arte universal (Weltliteratur) é depositária dos valores comuns da humanidade, poderia demonstrar a importância dos clássicos na formação literária de alguns gigantes da Literatura, como Dostoiévski e Jorge Luis Borges, poderia, enfim, quadruplicar o tamanho deste artigo, que não pretende ser mais que uma breve introdução ao tema. Creio, no entanto, que essas sucintas considerações já são suficientes para que o leitor comece a compreender o fundamental papel dos escritores clássicos, seja para o alargamento de nossa visão de mundo, seja para a educação e o enriquecimento de nosso imaginário (imaginário hoje tão contaminado pelo lixo cultural que nos rodeia).


[i] Cf. ELIOT, T. S. A essência da poesia: estudos e ensaios..Rio de Janeiro: Artenova, 1972, p. 84.


[i] Cf. BERNARDIN, Pascal. Maquiavel Pedagogo: ou o ministério da reforma psicológica. 1ª edição. Ecclesiae e Vide Editorial, 2013.

[ii] Cf. CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 9-16.

[iii] Cf. POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo: Cultrix, 2007, p. 22.

[iv] Cf. POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo: Cultrix, 2007, p. 32.