Artigo publicado originalmente na 8ª edição da Revista Vila Nova, em setembro de 2013

TEXTO DE GUILHERME FREIRE

Com o empobrecimento da nossa educação, ouvimos nas aulas de história sobre um conflito entre ciência e fé. Esse conflito pode existir na cabeça de ideólogos modernistas, ou em determinados seguimentos religiosos, mas felizmente nunca teve espaço na Doutrina Católica. Para os Escolásticos, a fé e a razão sempre andaram juntas, e o mesmo Deus que criou nossas almas, ordenou o cosmos.

Ao contrário do que se divulga na maior parte dos livros de história, a Igreja Católica nunca achou que a terra fosse quadrada (os globos medievais nas mãos de Santos deixam isso claro), nem duvidava da possibilidade de se tomar o Sol como centro de um mapa astronômico. O famoso caso do católico Galileu foi bastante distorcido, afinal, ele foi condenado por xingar o Papa (parente dele), e não em nome das ciências. Acabou tendo apenas que rezar algumas Ave-Marias (com a cômica possibilidade de delegar elas para sua filha freira). São Roberto Bellarmino, inquisidor na época de Galileo, longe de ser um obscuro ignorante, era um profundo conhecedor da astronomia.

Aliás, para os Santos Padres a beleza e complexidade do Universo nos lembram de seu Deus criador. Isso sempre foi uma realidade para a Igreja Católica não só no campo doutrinal, como também no campo prático: estamos chegando a 800 anos do nascimento do frade franciscano Roger Bacon, sem ele a ciência experimental não seria o que é hoje. Além de Bacon, é impossível pensar no estado atual das ciências sem as descobertas do Monsenhor Gregor Mendel na área da Genética, do monge Georges Lemaître na Teoria do Big Bang, de Jérôme Lejeune na descoberta da causa genética da Síndrome de Down, de Santo Alberto Magno, de Pascal e etc.

Georges Lemaître, padre, astrônomo e físico belga que propôs a teoria de origem do universo conhecida como Big Bang.

Georges Lemaître, padre, astrônomo e físico belga que propôs a teoria de origem do universo conhecida como Big Bang.

Não à toa, o Papa Pio XII disse que a “A verdadeira ciência descobre Deus à espera atrás de cada porta.”. Tendo isso tudo em vista, fica claro que os problemas dos religiosos não são com as ciências naturais, mas com o Cientificismo.

Por cientificismo não se entende um apreço pelo estudo científico, mas um falso senso de proporções e de delimitação das ciências, nas palavras do pensador Gustavo Corção:

“Hoje eu não diria que o cientificismo, isto é, a falsíssima idéia que espera da ciência inferior a solução para os problemas superiores, difundiu-se depois da desmoralização e do destronar da Sabedoria; antes diria que essa tentação foi um dos fatores que contribuiu para a rejeição da Sabedoria. E, assim dizendo, estarei apontando o “cientificismo” (e não a legítima glória das ciências) como um dos fatores do revolucionarismo evacuador da civilização.”

“Se os tivesse, ouviria a censura clara […]: a ciência dos elementos exteriores dilata o campo do domínio do homem sobre as coisas exteriores e inferiores, mas nada acrescenta ao domínio do homem sobre si mesmo. Uma civilização […] não pode ser governada pelas ciências da natureza, que é cega, surda e conseqüentemente muda para os problemas mais comuns e mais profundos de nossa vida. Como já disse em outra obra, a ciência pode-nos dizer que nossos pulmões estão anormais e devem ser tratados desta ou daquela maneira, mas é inteira­mente incapaz de nos dizer, de nos sugerir o que podemos ou devemos fazer de nossos pulmões normais.”

Nesse trecho, Gustavo Corção está condenando a tendência, verdadeiramente absurda, de animalização do homem que resulta da idolatria das ciências. Claro, como podemos tentar trocar filosofia, teologia, ética, literatura, poesia e etc. por considerações de laboratório (que muitas vezes lidam com puras suposições)?

Não obstante, muitas pessoas pensam em termos de eficiência ou utilidade ao tratar de seres humanos. Como se a vida humana fosse a mesma que a de um computador ou de uma TV.

Longe de ser mecânica, a vida humana é constituída em primeiro lugar de coisas simples: amizades, família, emprego, religião, criatividade, criar animais, ter e cuidar dos filhos, etc. Um pequeno insight sobre uma dessas coisas pode ajudar infinitamente mais do que a construção de mil Tractatus Logico-Philosophicus (e inclusive pode estar mais próximo da realidade).

Deus muitas vezes escolhe os fracos e pecadores como profetas, para mostrar que é a Graça Divina que sustenta o mundo no final das contas, não o nosso orgulho. Como disse Chesterton: “Toda a ciência, mesmo a divina ciência, é uma sublime história de detetive. Mas ela não é para detectar porque o homem está morto; mas o obscuro segredo do porquê ele está vivo.”

No ambiente cientificista aparece sempre um professor para empinar o nariz e tentar impor ideologias em nome das ciências: H.G. Wells fez isso de maneira astuta, Dawkins o faz de maneira infantil. Agora, justamente por ser mais astuto, Wells causou mais dano, suas idéias fomentaram todo tipo de atrocidade moral em nome de utopias vazias.

O cientificismo é danoso não porque complica as coisas, mas ao contrário, porque reduz monstruosamente o ser humano e finge que a complexidade da vida é a mesma de uma proveta. A saída é fazer como Aristóteles, fugir do desejo de dominar a realidade e voltar a aceitá-la com a docilidade contemplativa. Dessa forma, as ciências vão ser verdadeiramente livres para prosperar.