Entrevista publicada originalmente na 8ª edição da Revista Vila Nova, em setembro de 2013

Diferente de um passado não tão distante, o ensino no Brasil de hoje distancia cada vez mais alunos e mestres da busca pela verdade, oferecendo em troca chavões e conceitos vazios de sentido. Ao invés de sabedoria, ideologia. Ao invés de um desconforto inicial que gera um conhecimento futuro, um conforto burro que cria indivíduos inertes e satisfeitos com a mediocridade.

Nesse cenário, se torna raro encontrar quem “ouse” discordar do mainstream acadêmico e caminhe na direção contrária. Dentro do grupo das exceções à infeliz “regra” que reina no ensino nacional, está o crítico literário Rodrigo Gurgel. Em seus textos do Jornal Rascunho e no seu recente livro “Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)”, Rodrigo demonstra que é possível fugir da obviedade e tomar posicionamentos firmes e sérios, baseados não em achismos ou chavões, mas sim no estudo. Para falar um pouco sobre literatura e educação, o convidamos para uma entrevista que foi por ele prontamente aceita. O resultado você confere abaixo.

O que é literatura?

Como toda forma de arte, a literatura é a criação de um mundo novo. A expressão é de Vladimir Nabokov. Cada obra literária nos remete a um dos mais primitivos hábitos do homem: narrar. Narrar o passado longínquo ou imediato, narrar também sua expectativa, seu sonho, seu desejo. Essa mesma obra, contudo, se for bem escrita, ultrapassa a própria narrativa e instaura um mundo novo. Repete o exercício milenar de discorrer, de descrever, mas de uma forma nova, inesperada, que arranca o leitor da banalidade.

O que uma obra literária precisa ter para ser boa?

Não há receitas. Estilos completamente díspares, como os de Proust e Hemingway, por exemplo, criaram obras geniais. Por que lemos Homero até hoje? Todo grande autor revela nossa humanidade de uma forma característica, particular. E creio que aí está a chave: no fundo, buscamos a expressão verbal que nos espelhe. Os autores que conseguiram fazê-lo, são esses que amamos.

O ofício de crítico literário, convenhamos, não é um sonho de carreira comum entre crianças e adolescentes. Dito isto, o que o levou a ser um crítico literário?

Eu gostaria de saber a resposta. Há um conjunto de fatos, de circunstâncias: os livros de minha avó, fechados numa pequena estante de madeira, entre eles a edição ilustrada de As mil e uma noites; um amigo da família que me fez ler Vinte mil léguas submarinas quando eu era menino; a bibliotecária de minha cidade, que me deixava escolher os livros andando pelos corredores do acervo; a discordância, desde jovem, em relação ao que éramos obrigados a ler no colégio – jamais suportei Alencar; certo texto elogiado por uma professora admirável. Vamos formando nosso “eu” assim, em camadas.

Na edição passada do Prêmio Jabuti, maior prêmio da literatura nacional, você causou certa polêmica ao dar nota zero a favoritos na categoria Romance. Na sua visão, porque a análise causou tanta indignação entre escritores e críticos?

Se o zero causa desespero até mesmo naquele aluno medíocre, perdido numa escolinha rural no meio do sertão, por que não provocaria a cólera de uma dúzia de medalhões? No mais, o Dr. Samuel Johnson estava certo: “É difícil contentar aqueles que desconhecem o que exigem ou aqueles que exigem propositalmente o que julgam impossível obter”.

Fala-se muito do crescimento do mercado editorial brasileiro nos últimos anos. Esse aumento quantitativo veio acompanhado da melhora na qualidade dos lançamentos?

O mercado editorial brasileiro tem crescido graças às compras milionárias do governo. É um crescimento artificial, portanto. As últimas pesquisas mostram que, quando o governo compra menos, os números despencam. Um país que não tem leitores funciona assim. À parte essa questão, é normal que 95% do que se publica caia rapidamente no esquecimento. Dentro de um século teremos, mais ou menos, idéia daquilo que, publicado hoje, realmente merece ser lembrado.

Na década de 1950 tínhamos dezenas de bons escritores produzindo obras literárias de alto nível – Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Otto Maria Carpeaux, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Álvaro Lins, Mário Ferreira dos Santos, Gustavo Corção, entre outros. Passados 60 anos, quem são hoje os grandes escritores brasileiros?

É difícil encontrar um escritor digno de entrar nesse time. Talvez ele exista e, neste exato momento, esteja colocando o ponto final num grande romance. Mas não o conheço.

Recentemente, livros distribuídos pelo MEC ensinavam aos alunos que frases como “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” estavam corretas. De acordo com uma dessas publicações, o uso da norma culta possui caráter elitista e pode gerar um certo “preconceito lingüístico”. Qual a sua opinião sobre isso?

A demagogia e o populismo tornaram-se regra neste país, desgraçadamente. É uma pena que, em nome de teorias lingüísticas erradas, aceite-se enganar e comprometer o futuro de uma geração. Os autores desses livros continuarão refestelados em seus carguinhos acadêmicos ou usufruindo dos polpudos direitos autorais enquanto crianças e jovens passam a vida sem conseguir ler uma legenda de filme, expressar-se, por escrito, de forma compreensível ou, pior, sem conseguir ascender socialmente – tudo por desconhecerem a própria língua.

Qual a análise que você faz do ensino da literatura nas escolas?

Os professores seguem repetindo mentiras, como dizer que Canaã é uma obra-prima. Nada mudou desde o meu tempo de escola.

Pesquisas recentes mostram que considerável parcela dos alunos brasileiros são analfabetos funcionais, isto é, embora consigam ler, são incapazes de compreender o sentido do que está escrito. Você crê que este tipo de problema tem raiz no método de alfabetização ou na falta investimento?

O velho método do beabá permanece infalível. Não precisamos de novos métodos. Precisamos, isso sim, de professores apaixonados por seu nobre ofício, dispostos a alfabetizar, se necessário, à sombra de uma árvore. E precisamos que esses abnegados – porque ainda há heróis no magistério, que não ensinam apenas a ler e escrever, mas principalmente formam consciências éticas, virtuosas – sejam reconhecidos, valorizados.

Qual a sua opinião sobre a reforma ortográfica?

Uma bobagem fenomenal. Não se muda uma língua por decreto. No Brasil, como era de se esperar, foi aceita, até agora, de maneira servil. Em Portugal, ao contrário, há ferrenha, lúcida oposição.

Algumas de suas declarações recentes criticam a forma como as faculdades de Letras trabalham as obras literárias. Em que elas erram e qual postura deveriam adotar?

Nossos acadêmicos continuam, em sua maioria, de joelhos diante do estruturalismo. O mesmo estruturalismo que Todorov superou há quase trinta anos, em 1984, quando publica Critique de la critique. Mas nossos professores de Letras forçam seus alunos a estudarem o Todorov de Poétique de la prose, que foi publicado em 1971… Isso é apenas um exemplo de como funciona parcela significativa da academia: estabelece-se um modelo – e a maioria só consegue papagueá-lo. À parte essas teorias – que não passam de “verniz onírico”, como bem definiu Thomas Pavel em A miragem lingüística, infelizmente pouco estudado no Brasil –, nossos estudiosos pretendem desvincular a literatura da vida real, como se a obra literária fosse uma espécie de geração espontânea. Perdoem-me por repetir o nome de Todorov, mas ele está à mão, nas livrarias nacionais, num livrinho traduzido em 2009; leiam A literatura em perigo, pois a lição que precisamos urgentemente reaprender encontra-se ali: “Assassinamos a literatura quando fazemos das obras simples ilustrações de uma visão formalista, ou niilista, ou solipsista”.

Você promove cursos de literatura pela internet que atraem não apenas profissionais da área, mas também autodidatas que desejam solidificar sua formação intelectual. Em sua opinião, existe atualmente um florescimento cultural longe da universidade?

Sempre existiu e sempre existirá, com maior ou menor força, esse florescimento. É ele que nos salva do mainstream acadêmico, das lições repetidas ad aeternum, sem nenhum compromisso com a verdade, mas com o único objetivo de garantir a própria ascensão na carreira acadêmica. É ele que nos liberta do conhecimento burocrático, do conhecimento reconhecido não por seu valor ou sua verdade, mas por obedecer ao senso comum, por repetir os jargões herméticos e vazios das panelinhas.

Pesquisas recentes mostram que expressiva parte do mercado editorial nacional depende de recursos públicos para sobreviver. Como essa presença do Estado influencia a produção literária?

O que ocorre é uma espécie de censura silenciosa. Refiro-me à produção da chamada literatura paradidática. O governo só compra o que repetir ou afiançar os parâmetros pedagógicos – que, na verdade, são parâmetros ideológicos – do próprio governo. Como as compras governamentais são milionárias, os editores encomendam livros que façam a alegria esquerdista; ou pressionam, com diplomacia, os escritores a seguirem o que o governo estabelece. Isso quando o próprio escritor não se encarrega de transformar o seu livrinho num catecismo do politicamente correto. Todos querem ganhar com as compras governamentais: editores e escritores. É muito justa a sede de lucro, mas, na ponta do sistema, crianças e jovens tornam-se vítimas dessa mecânica viciosa: são condicionados pela subliteratura esquerdista; e, pior, crescem acreditando que tal subliteratura representa o que há de melhor na produção literária nacional.

Você já foi militante do PT e colaborador de publicações da CUT. O que o fez deixar a militância?

O primeiro momento de desconfiança em relação ao PT e à CUT foi muito interessante. O local em que eu trabalhava pertencia a essas duas associações beneméritas. Os salários atrasavam, os fornecedores não eram pagos, o INSS dos funcionários era arrecadado com atraso. Quando alguém reclamava, o discurso era sempre o mesmo: o militante se sacrifica, o militante luta pela causa, o militante… blablablá… Muito bem. Um belo dia, quando chego de manhã, descubro que, na noite anterior, havia acontecido ali uma festa de dirigentes partidários e sindicais. Só figuras graúdas, do alto escalão. Em volta das churrasqueiras, vi um mar de restos de charutos importados; nas lixeiras, amontoavam-se garrafas de uísque estrangeiro; eram centenas de engradados de cerveja; pilhas de sobras de carne estavam cobertas pelos mosquitos. Olhei para aquilo e comecei a perceber: tudo, absolutamente tudo, era uma enganação – e eu fazia parte daquela grandiosa mentira.

Qual a real influência do marxismo cultural no cenário literário brasileiro?

O marxismo encontra-se disseminado, não apenas na literatura. É como uma bactéria, uma infecção que trazemos conosco e vai nos destruindo lentamente, sem que percebamos. É uma escola de cinismo, ódio e mentira. Ele destrói nossa consciência moral, aniquila nossa percepção da realidade e nos transforma em marionetes. Hoje, repetimos conceitos marxistas sem perceber; agimos como papagaios. Um aluno, professor numa universidade do Centro-Oeste, perguntou-me, faz poucos meses, como romper com esse pensamento viciado. Disse a ele que só há uma forma: recusar os modelos que nos ensinam na universidade e voltar a Platão e Aristóteles – ou seja, estudar o início da filosofia, o início da estética, o que poucos, pouquíssimos fizeram no Brasil.

Quais autores você elegeria como cânones da literatura universal?

Escolho três nomes de língua inglesa – Shakespeare, Henry James, Joseph Conrad – e dois russos: Tolstói e Dostoiévski.

E da literatura brasileira?

Manuel Antônio de Almeida e Manuel Bandeira.

Se todas as obras literárias estivessem em perigo iminente de destruição e você tivesse que salvar uma só, qual seria?

Escolheria o livro que fundou o imaginário ocidental: a Bíblia.