TEXTO DE BERNARDO SOUTO

Fato deveras estranho: ao todo, passei seis anos na universidade – quatro cursando a graduação em Letras (habilitação em Crítica Literária) e dois cursando a pós-graduação em Literatura–, mas nunca ouvi o nome de Georges Bernanos ser mencionado sequer uma vez.  Alguns podem objetar que Bernanos, apesar de grande escritor, é francês, e que nossas universidades costumam prestigiar os chamados autores da terra. Mas tal objeção é infundada, visto que escritores como Gustavo Corção e José Geraldo Vieira, certamente dois dos maiores romancistas brasileiros de século 20,  são completamente ignorados. Explicar o porquê de tal direcionamento foge ao escopo desde artigo, que não pretende ser senão um convite à leitura do magnífico autor do Diário de um Pároco de Aldeia – mas não há dúvida de que a profundidade ontológica das narrativas de Vieira e Corção contribui muito para que suas obras sejam relegadas a décimo plano, uma vez que vivemos numa época em que a finalidade maior da Literatura passou a ser o  entretenimento e a panfletagem ideológica.

Nascido em Paris no final do séc. 19, Georges Bernanos se tornou uma espécie de  Dostoiévski do séc. 20. Nenhum outro ficcionista de nossa época conseguiu nos transmitir com tanta nitidez o que é o verdadeiro cristianismo;  nenhum outro, nem mesmo Chesterton, Mauriac ou Graham Greene, logrou construir personagens tão humanas, tão naturais (no sentido de anti-artificiais, pulsantes), tão fidedignas quanto o Pároco de Ambricourt ou o Santo de Lumbres. É que as personagens de Bernanos – todas, mas sobretudo os clérigos – são seres de carne e osso, seres que pecam e praguejam, porém, quando trilham com perseverança la diritta via, que é a Via Crucis, alcançam a Glória.

O poeta irlandês W.B Yeats dizia que “da luta do homem com outros surge a retórica; da luta do homem consigo mesmo nasce a poesia.”[i] Mas Bernanos mostrou que Yeats estava errado. Para o romancista francês, da luta do homem consigo mesmo nasce a Fé. A verdadeira Fé.  Fé como a do Padre de Ambricourt, que, no Diário de um Pároco de Aldeia,  a despeito de sua precária saúde, de seu vício alcoólico e de sua baixa auto-estima, consegue salvar a alma da Condessa Omer, mãe da ardilosa Chantal, fazendo-a perdoar o seu infiel marido (o Conde Omer) e a sua egocêntrica filha, além de reconciliá-la com Deus, de quem se afastou desde a morte do seu bebê.  Fé como a do Cura Donissan – personagem central do romance Sol de Satã[ii], que, durante caminhada através de uma estrada rural (estrada que bem pode simbolizar a nossa jornada na Terra, este vale de lágrimas) trava duríssima batalha com o demônio, subjugando-o. Como São Miguel Arcanjo, embora infinitamente menos poderoso, Donissan consegue realizar o mais difícil dos milagres, que é o de derrotar o “príncipe deste mundo” (João 16:11). Eis por que, mesmo não tendo conseguido ressuscitar a pequena criança do vilarejo, Donissan foi considerado santo pelos habitantes de Lumbres.

O cristianismo de Bernanos não é cor-de-rosa, mas cinzento. Embora seja de um cinza luminoso, como o das nuvens que encobrem o sol durante a aurora. É obra atemporal, embora nos faça mergulhar num “tempo de homens partidos”[iii]. É uma espécie de Profissão de Fé dirigida a uma humanidade que, por depositar muita fé em si mesma, fez do séc. 20 o período mais sangrento da História. Tempo em que os homens, por virarem as costas para Deus, cometeram a mais terrível das atrocidades, pois que “o pecado contra a esperança – [escreve Bernanos[iv]] é o mais mortal de todos, e talvez o mais bem acolhido, o mais acariciado. (…) É o mais rico dos elixires do demônio, sua ambrósia”. Sendo assim, como bem observou o ensaísta Alceu Amoroso Lima, a obra de Bernanos é uma “cruzada espiritual para restaurar o sentido da honra no homem moderno”, honra que só será restaurada com o soerguimento das grandes religiões.


[i] Cf. YEATS, W.B. Per amica silentia lunae. New York: The Macmillan Company, 1918, p. 30.

[ii] Cf. BERNANOS, Georges. Sol de Satã. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editôra, 1947.

[iii] Cf. ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 160.

[iv] Cf. BERNANOS, Georges. Diário de um Pároco de Aldeia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editôra, 1946, p. 109.