TEXTO DE BERNARDO SOUTO

Ao longo de toda a História, seja na Grécia pré-cristã, na Inglaterra elisabetana ou na Europa continental, a grande arte sempre propôs respostas às questões fundamentais da existência — a título de exemplo, basta lembrarmos do papel dos poetas trágicos gregos, do inigualável Shakespeare e do gigante russo Fiódor Dostoiévski na formação do imaginário das mais diversas camadas da sociedade. “Antes do século 20 — assevera o filósofo espanhol José Ortega y Gasset — a arte era impregnada de ‘humanidade’, e repercutia o caráter grave inerente à vida; era uma coisa muito séria, quase hierática. Às vezes pretendia não menos que salvar a espécie humana – como em Schopenhauer ou em Wagner”(i) , e um pouco mais adiante, remata: “poesia ou música eram então atividades de enorme calibre: se esperava delas pouco menos que a salvação da espécie humana sobre a ruína das religiões e o relativismo inevitável das ciências. A arte era transcendente em duplo sentido: o era por seus temas, que costumavam girar em torno dos mais graves problemas da humanidade, e o era por si mesma, como potência humana que dava justificação e dignidade à espécie”(ii). No entanto, sobretudo a partir da eclosão dos movimentos de vanguarda, o artista “nos convida a contemplar uma arte do chiste, que é, essencialmente, uma burla de si própria, pois que o principal objetivo dela é ridicularizar a Arte.”iii

É evidente que cada época possui uma sensibilidade bastante peculiar, e não menos evidente, como admite o próprio Gasset, que a mera repetição de um estilo embota a fruição estética(iv). Ocorre que a revolta em relação aos parâmetros da arte antiga acaba sendo uma revolta em relação à História da Arte e, por conseguinte, uma revolta direcionada à própria Arte. Isso nos ajuda a diagnosticar, embora não a compreender, atitudes tresloucadas e pueris como a do “artista plástico” Lucio Fontana — que golpeava as telas de pintura, abrindo cortes no tecido — ou do “pintor” americano Jackson Pollock, que muitas vezes, misturava gotas de sangue às tintas. O século 20, aliás, é pródigo em perversões pseudo-artísticas, por vezes quase satânicas (ver nota de rodapé nº v). Tal revolta nasce da idéia de que a arte precisa ser revolucionária, a fim de responder aos anseios de uma época que menospreza enfaticamente a valiosa contribuição estético-estilística dos autores canônicos. Nada mais equivocado e infantilóide, porquanto sabemos que “o novo na arte não tem de ser um escândalo ou uma ruptura; pode ser – e na maioria das vezes é – o resultado de sutil exploração e aprofundamento temático e estilístico”(vi). Infelizmente, apenas meia dúzia de artistas do século passado, como Auguste Rodin, Edward Hopper, T.S. Eliot e Heitor Villa-Lobos, foram sensatos o suficiente para perceber que a grande arte se constrói a partir do saudável movimento dialético entre o legado dos antigos e as conquistas — ainda que escassas — dos contemporâneos.

No decurso do ensaio La deshumanización del arte, José Ortega y Gasset – tido como um dos maiores filósofos espanhóis de todos os tempos — enumera os principais motivos da decadência da arte de nossa época:

1º – A incompreensibilidade/obscuridade das obras;

2º – O excesso de esteticismo, que conduz à arte pela (e sobre a) arte;

3º – O menosprezo por parte do artista de suas experiências vivenciadas;

4º – A desumanização da arte, que consiste em deformar a realidade a ponto de torná-la irreconhecível, estéril, inerte e inumana;

5º – A iconoclastia, entendida como revolta irracional ao legado dos artistas canônicos;

6º – A estreiteza na interpretação do legado da arte clássica;

7º – A negação completa da transcendência.

Segundo o ensaísta espanhol, todas as características da arte nova derivam deste último item, pois que o velho mundo resolveu se comportar de forma pueril, privilegiando o que há de mais superficial na existência: “O novo estilo (escreveu Gasset, em 1925, como que profetizando) se coaduna ao atual triunfo dos jogos e dos esportes. São duas manifestações irmãs, possuem a mesma origem. Em poucos anos veremos crescer a maré dos esportes nas páginas dos jornais, fazendo naufragar quase todas as caravelas da seriedade. O triunfo dos esportes significa a vitória dos valores da adolescência sobre os valores da terceira idade. (…) Não resta dúvida: a Europa entra numa etapa de infantilismo.”(vii). Felizmente, Gasset morreu antes de a barbárie cultural se instalar em definitivo não apenas no Velho Mundo, mas nos quatro cantos do planeta.

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i – ORTEGA Y GASSET, José. La deshumanización del arte y otros ensayos estéticos. 4ª edición.Madrid: Revista de Occidente, 1956, p. 46

ii – idem, Ibidem, p. 49

iii – idem, Ibidem, p. 47

iv – idem, Ibidem, p. 45

v – Pierre Pinoncelli cortou a falange de um dedo da mão esquerda. O artista austríaco Rudolf Schwarzkogler anunciou amputar o pênis, polegada por polegada. Cris Burden pede que lhe dêem um tiro de espingarda no braço, passando a exibir as marcas como lembrança da “obra”. Orlan, artista performática francesa, se especializou em ser operada e filmada, e em transformar todas as cirurgias em obra de arte. A performática Marina Abramovic, em sua obra “Ritmo 0”, se colocou junto a uma mesa sobre a qual havia uma arma, um machado, mel, tinta, perfume, batom, azeite, etc. Ela ficou ali exposta e à disposição dos expectadores, virando “objeto-obra-de-arte” : seis horas depois suas roupas estão rasgadas e a arma apontada para sua cabeça. Antes já tinha passado 12 dias na Sean Kelly Galery, totalmente exposta à curiosidade do público, enquanto passantes, bêbados, operários curiosos viam todas as suas intimidades. Richard Gibeson faz brincos com ossos de fetos humanos de três meses. Günther von Hagens e seus assistentes retalham cadáveres, os plastificam e realizam exposições de arte com estes mortos. Duchamp se masturbou e o esperma que caiu num chinelo virou obra de arte, hoje num museu. Vito Aconti, ex-marido de Marina Abramovic, montou numa galeria uma instalação chamada “Seedbed”, que consistia em que ele ficasse sobre um estrado se masturbando durante oito horas por dia, durante duas semanas, dizendo em voz alta todas as fantasias que os assistentes lhe despertavam. Marc Quinn fez a escultura de uma cabeça humana com sangue humano. Artistas mulheres usaram o sangue menstrual em suas obras. Michel Journiac fez uma hóstia com seu próprio sangue. Herman Nitsch fez uma série de missas negras. Resultado: no dia seguinte ainda havia 2 cm de sangue sobre os 250 metros da galeria. Kurt Schwitters, nos anos 20 do século passado, na sua obra chamada de Merz, acumulava refugos com urina e fezes. Ele chegou a declarar: ”Sabem vocês o que é a arte? Um pavilhão de merda, isto é que é a arte”. Andy Warhol declarava, para efeito de marketing, que usava a própria urina como fixador de seus trabalho. Manzoni produziu 30 latinhas contendo a intitulada “Merda do artista”. Ofili usou cocô de elefante numa pintura da Virgem Maria. André Serrano apresentou um Cristo imerso em urina. Damien Hirst fatiou uma vaca e a expôs em acrílico. (Cf. Affonso Romano de Sant’Anna – In: A POLIMORFIA DA PERVERSÂO, revista do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro – Cadernos de Psicanálise- nº 16)

vi – GULLAR, Ferreira. Sobre arte, Sobre poesia (uma luz do chão). Rio de Janeiro: José Olimpio, 2006, p. 13

vii – ORTEGA Y GASSET, José. La deshumanización del arte y otros ensayos estéticos. 4ª edición. Madrid: Revista de Occidente, 1956, pp. 50-51

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Imagem: “obra de arte” de Piero Manzoni.