Artigo publicado originalmente na 5ª edição da Revista Vila Nova, em dezembro de 2012

Ronald Robson

É jornalista e tradutor. 

Quem tiver estudado em uma universidade brasileira, pelo menos nos últimos vinte ou trinta anos, pode ter se deparado com uma situação curiosa, paradoxal só em aparência. Em cursos de ciências humanas e sociais, sobretudo, é comum reservar uma cadeira de Filosofia aos “primeiro-anistas”. Estudantes de Comunicação Social ou Biblioteconomia, por exemplo, talvez não estejam muito interessados no que Platão disse ou deixou de dizer. Tendem a sair de fininho.

Alguns, contudo, mesmo querendo bater em retirada, compenetram-se, olham sofregamente para o quadro e, aos poucos, começam a captar o ritmo em que a banda toca. Algo se sintoniza em suas mentes, que começam a se valer de muletas: contrato social, luta de classes, biopoder, sociedade do controle, ser em si, dúvida cartersiana, indústria cultural e mais uma penca de conceitos tirados da filosofia moderna. A matéria, afinal, não era tão inútil: os neófitos já conseguem até lascar um véu ideológico no meio de uma conversa sobre reportagem do Jornal Nacional ou em um comentário no Facebook.

A situação é sugestiva e, de fato, sugere uma pergunta: como pessoas sem nenhum interesse verdadeiro pela filosofia podem, após meia dúzia de aulas, mostrar até alguma desenvoltura no uso de conceitos ditos filosóficos? Talvez o problema esteja menos nos estudantes do que em um determinado tipo de filosofia.

Idéia contra realidade

O filósofo tcheco Vilém Flusser, que viveu cerca de trinta anos no Brasil, dizia que a filosofia praticada nas universidades – o que, aqui, se pode estender à filosofia moderna de um modo geral – combina “uma seriedade intelectual com uma inseriedade existencial”. Ao falar em “inseriedade existencial”, ele não pensava em padrões de conduta, em quem é “bom” ou “mau”. Pensava na coerência entre o que o filósofo dizia e aquilo que ele vivia, na correspondência entre uma ideia e a percepção de um fato. Ou: pensava se o filósofo estava “de brincadeira” ou se o que fazia era “pra valer”.

Grosso modo, na filosofia dos últimos quatro séculos encontramos dois tipos de “brincadeiras”. O primeiro consiste em um rebuscamento desnecessário na expressão de ideias bastante simples. O francês Michel Foucault estudou o fenômeno do controle crescente que o Estado moderno exercia sobre a vida de cada cidadão. Definiu esse controle como um dos traços fundamentais da política moderna, no que não estava errado. Como, todavia, expressou isso? Falando não em poder, mas em “biopoder” (“o poder de gerir a vida”) e em “domesticação dos corpos dóceis”. Para bom entendedor, muita palavra atrapalha.

Mas há um segundo artifício, bem pior. Pode vir ou não acompanhado do adorno palavroso, mas consiste basicamente em sacrificar a realidade às idéias. Em um texto seu não muito lido, o alemão Immanuel Kant quer, banindo a “vontade de Deus” da história humana, demonstrar que cada ato individual dos homens é, se visto em si mesmo, sem sentido. Mas que é, se visto a partir da totalidade dos atos de todos os homens, cheio de sentido. Haveria assim um propósito geral na existência, mas não propriamente em cada ser existente. Daí que, conclui ele, as faculdades racionais só podem se desenvolver no conjunto da espécie humana, mas não em cada homem em particular. A idéia, tão logo exposta com clareza, mostra seu absurdo total: para que um bebê ficasse um pouquinho mais inteligente, todos os demais seres humanos do mundo teriam de juntos ficar um pouquinho mais inteligentes. Evidentemente, isso não corresponde à realidade, que Kant, neste ponto, trocou por uma bela idéia, ou nem tão bela assim.

Que é a filosofia

O estudante desinteressado – pior: muitas vezes o mais interessado, o mestre, o doutor – brinca de filosofia porque lhe deram a faca e o queijo: a faca, a possibilidade de manipular discursos que quase não têm relação com a realidade e por isso não pedem responsabilidade pessoal alguma; o queijo, um conjunto de discursos, mais ou menos refinados, embalados a vácuo em jargões prêt-à-porter¹.

Até chegar a esse ponto, contudo, um longo caminho foi percorrido. A concepção antiga de filosofia – a medieval também, até certo ponto – está mais ou menos expressa na descrição do hábito correto do pensar apresentado por Platão no diálogo Teeteto, no qual se fala de “um discurso que a alma mantém consigo mesma, acerca daquilo que ela quer examinar”. Nessa prática, articulam-se a totalidade do ser humano que a exerce (“a alma”) e a totalidade daquilo que ele se dedica a conhecer (“aquilo que ela analisa”). A cada ato de inspeção interior corresponde, assim, um ato de compreensão exterior.

Claro: é necessário precisar as ferramentas com que o filósofo empreende esse diálogo consigo mesmo, mas nem por isso se há de trocar alhos por bugalhos. Dominar um vocabulário técnico e utilizá-lo com alguma habilidade, por exemplo, pode ser coisa da maior importância, mas não se identifica com o exercício filosófico propriamente dito. Mesmo o próprio Kant, de que falamos há pouco, ainda sabia que “não se ensina filosofia; ensina-se a filosofar”.

Mas ponto de chegada de uma filosofia como a de Kant foi o livro O que é a filosofia? (1991), dos pensadores franceses Gilles Deleuze e Félix Guatarri. Aí, a filosofia é declaradamente reduzida  a uma atividade que lida com “conceitos” e mais nada: “a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos”, com o agravante de que em momento algum é oferecida uma definição clara de “conceito”. De “amigo da sabedoria” o filósofo passa a “amigo do conceito”, o que é passagem da prática objetiva de uma busca simultânea do conhecimento e do autoconhecimento a um exercício subjetivo – ou pouco rigoroso – de apenas uma das ferramentas do pensamento: o conceito.

Daí que, se há uma característica distintiva de grande parte da filosofia moderna (o que não significa que ela deva ser inteiramente jogada fora), é o fato de que podemos praticá-la como esporte. Podemos, nela, até nos tornar grandes esportistas; podemos até torná-la um esporte esteticamente muito atraente, unindo “seriedade intelectual” (alguma habilidade para mediar conceitos) e “inseriedade existencial” (a indiferença frente àquele diálogo interior de que fala Platão), para utilizar as expressões de Vilém Flusser. Mas permaneceremos, enfim, esportistas. O mais curioso é que a modalidade esportiva da filosofia é geralmente a mais profissional hoje, ou seja, a que é ensinada nas academias. Como se o ginásio tivesse invadido a sala de aula.

O filósofo alemão Eugen Rosenstock-Huessy afirmou que “mesmo o homem que não acredita em nada precisa de uma namorada que acredite nele”. Nietzsche, ao escrever que não existem “verdades absolutas” e que todos os “fatos” são só “interpretações”, sem contudo esclarecer se está fornecendo um fato ou só mais uma interpretação, talvez tenha esquecido, de tão enamorado de suas idéias, de dar a devida atenção à sua outra namorada – você, leitor.

  • A expressãoPrêt-à-porter vem do francês “prêt” (Pronto) e “à-porter” (para levar), nos termos da moda se traduz por “pronto para vestir”