Artigo publicado originalmente na 1ª edição da Revista Vila Nova, em dezembro de 2011

Por Carlos Ramalhete 

Está na moda tentar fugir das consequências: para quem quer comer demais, inventou-se os produtos dietéticos; para quem quer beber sem ficar bêbado, a cerveja sem álcool; para quem quer tomar sol sem se queimar, os protetores solares. E por aí vai. Mas é impossível fugir eternamente de toda consequência. O que se faz, então, é fingir que elas não existem.

Por exemplo, a coisa mais comum hoje em dia é ver crianças que simplesmente não são educadas. Não estou falando de crianças mal-educadas, mas de crianças que os pais nem tentam educar. Quando a criança chora fazem-lhe a vontade, ensinando-lhe que para conseguir algo basta fazer escândalo. Os pais mentem para ela o tempo todo, mostrando que mentir é algo normal. Há até mesmo pais que ficam andando atrás das crianças, transformadas em pequenos tiranos, fazendo-lhes as vontades!

Ora, as crianças não tentam fingir que consequências não existem. Ao contrário: como elas estão aprendendo como o mundo funciona, não há nada mais importante para uma criança que entender de quais causas vêm quais consequências. Do choro, da manha, da birra, elas aprendem assim que vêm prêmios. Da mentira, elas aprendem que não vem nada. Da preguiça, elas aprendem que vem o descanso. Da bagunça, a arrumação feita pelos escravos, quer dizer, pelos pais.

Os pais, ocupados demais em fingir que negar uma educação aos filhos não terá consequências, têm muito mais trabalho que se quisessem educá-los. E isso enquanto são pequenos; quando crescerem, depois de uma infância dedicada a aprender que são pequenos reis a quem é proibido dizer “não”, o trabalho será muito maior. Uma hora há de chegar em que os pais não poderão dar ao tiraninho aquilo que ele deseja. Neste momento, ele ficará indignado; afinal, ele aprendeu que querer e merecer são a mesma coisa, no caso dele! É aí que ele vai roubar, mentir ou arrancar o que quer de alguém à força.

E aos pais restará ir à delegacia soltar o filho que não educaram. Desta consequência vai ser difícil fugir, mas, acreditem, eles vão continuar tentando: “são as más companhias”, “meu filho é tão carinhoso, não entendo como isso foi acontecer”, “a polícia deveria correr atrás de criminosos de verdade”…

Poucas coisas são mais simples que educar uma criança. Basta incentivar os bons hábitos e cortar pela raiz os maus. Na prática, isso significa que os maus hábitos – a manha, a birra, a preguiça, a falta de respeito com os mais velhos… – devem ser sempre castigados imediatamente. O castigo pode muitas vezes ser um simples olhar; se a criança sempre foi educada, ver que o que ela fez desagrada aos pais em geral já basta. Do mesmo modo, os bons hábitos devem ser incentivados. A criança deve considerar um fato da vida que ela deva largar o que está fazendo imediatamente para ir buscar o que o pai ou a mãe estão pedindo, deve achar natural fazer a própria cama assim que se torna capaz disso, deve saber que pessoas normais sempre pedem “por favor” e agradecem.

A única coisa que não pode nunca faltar é a coerência. A criança, repito, está tentando entender como o mundo funciona. Ela precisa, tem necessidade psicológica, de coerência e de repetição. O que foi punido ontem deve ser punido hoje, o que é obrigatório hoje deve continuar a ser obrigatório amanhã. Cada ato deve ter sempre a mesma consequência.

Só assim se pode dar aos filhos o que é um direito deles: a educação.

Sobre o Autor

Carlos Ramalhete

Carlos Ramalhete é escritor e professor. Atualmente é colunista na Gazeta do Povo (PR). Cidade: Petrópolis-RJ.

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