Artigo publicado originalmente na 3ª edição da Revista Vila Nova, em julho de 2012

Carlos Ramalhete

Uma pessoa já é algo muito complexo. Há quem passe a vida tentando entender a si mesmo em consultórios de psicanalistas, mas ninguém consegue conhecer-se por inteiro. Uma sociedade, que é composta por pessoas, é infinitamente mais complexa. A complexidade de cada pessoa se multiplica exponencialmente pela do próximo nas interações amorosas, sociais e profissionais, até atingir um nível de complexidade maior que o de qualquer outro sistema.

Há pouco mais de duzentos anos, surgiu a moda de tentar simplificar, de reduzir tudo a um ou outro dado, e a partir desta visão reducionista tentar construir uma sociedade ideal. Os resultados foram mais que previsíveis: onde quer que se tenha tentado construir uma sociedade ideal, o resultado foi um pesadelo.

Esta tendência à simplificação transformou a percepção trazida pelo cristianismo de uma dignidade humana, comum a todos nós, na busca de uma igualdade extrema, que nega as diferenças reais e existentes entre as pessoas. É fácil perceber esta visão simplificadora representada até mesmo nas obras de arte e edificações do século passado, quando ela atingiu o seu auge. Espelhando esta busca de uma sociedade com membros intercambiáveis, negando-se a riqueza e diversidade dos talentos de cada um e fingindo que não existiam os laços pessoais, a arquitetura do século passado procurou criar edificações em que o humano não estivesse presente. Gigantescas torres, sem os detalhes que humanizavam os edifícios anteriores e os faziam mais próximos das pessoas que os habitavam; áreas abertas sem árvores, sem adornos, sem vida. Uma escala monumental, em que as pessoas parecem formigas.

Os habitantes dos edifícios construídos segundo estes padrões sempre se revoltaram, ainda que inconscientemente, contra esta tentativa de criar um mundo em que o concreto vale mais que a carne. Para horror dos arquitetos, a primeira coisa que um novo habitante sempre fez foi instalar cortinas, vasos de plantas, detalhes, em suma, que dessem alguma vida àquela edificação desumana.

Nas tentativas de construção de sociedades ideais, de certa forma, o mesmo aconteceu. A União Soviética só durou tanto tempo devido à existência de um vasto mercado negro, garantindo que alguma comida chegasse à mesa de cada um através das mesmas interações pessoais que o Estado proibia. A “construção de um mundo melhor” – apelido quase irônico dado à simplificação exagerada da existência e à redução das pessoas a máquinas de comer pouco e trabalhar muito – pôde persistir por um tempinho justamente por não ser tão eficiente.

É como os edifícios-caixotes, em que é possível viver quando se colore as paredes com fotografias, quando se decora os apartamentos de forma a esquecer que se está em um caixote, numa caixa mais própria para abelhas que para seres humanos. Quando, em suma, se toma em mãos a tarefa de negar a visão do arquiteto para fazer de um cubo de concreto desumano um lar. Quando se percebe a necessidade humana de complexidade, de beleza, de algo que a matemática é incapaz de entender ou expressar.

Persiste, contudo, a mania de eliminar 99% da realidade e tentar rearranjar o restante para construir um mundo supostamente melhor. Persiste a mania de ignorar as reais necessidades das pessoas, deixadas de lado em prol de uma fixação numa utopia inatingível e, em última instância, desumana. Devemos sempre lembrar que nada é tão simples quanto querem que pareça, que os problemas da sociedade não podem ser resolvidos com cortes retos. As pessoas, afinal, não são formigas, e é na interação pessoal que realmente existe sociedade.