Artigo publicado originalmente na 8ª edição da Revista Vila Nova, em setembro de 2013

TEXTO DE CARLOS RAMALHETE

Hoje em dia, quando falamos de escola, pensamos logo em crianças sentadas, brigando com cadernos e lápis, aprendendo a ler, escrever e fazer contas. Em suma, a escola é o trabalho infantil que a sociedade tolera ou incentiva.

Na Grécia antiga, contudo, o termo “scholê”, que foi dar origem à moderna palavra “escola”, significava “ócio”, não trabalho. O ócio – ou, mais exatamente, a ausência de necessidade de trabalhar; “estar com a vida ganha” – era justamente percebido como um pré-requisito indispensável à cultura. Quem precisa trabalhar oito horas por dia dificilmente terá tempo para dedicar-se aos estudos.

O interesse maior atual é fazer algo que dê dinheiro: as universidades, em consequência disto, tornaram-se na prática cursos técnicos, em que são transmitidas técnicas de um campo restrito do conhecimento, e nada mais. Nada poderia ser mais diferente do que eram as universidades, surgidas da união de várias pequenas “escolas” – hoje diríamos “faculdades” –, na Idade Média européia.

O que movia o aprendizado era o oposto da ganância material; pelo contrário, esperava-se que todos os que adentrassem os estudos superiores – os chamados “escolásticos” – fizessem votos monásticos! Isto não significa que o estudo fosse o apanágio de um pequeno grupo, muito menos que apenas os ricos pudessem estudar, como infelizmente prega a lenda negra. Todo mosteiro tinha uma escola primária, para as crianças da vizinhança, principalmente os filhos dos agricultores. Os nobres, ao contrário, raramente dispunham-se a estudar; afinal, o ofício das armas tomava-lhes o tempo livre, e sempre haveria um clérigo letrado por perto se fosse necessário ler ou escrever algo.

Quando alguém demonstrava talento e interesse por estudos superiores, normalmente entrava para uma congregação monástica para desenvolvê-los sem se preocupar com o sustento de uma família. Evidentemente, houve alguns tristes casos em que havia vocação para os estudos mas não vocação monástica, como na célebre história de Abelardo, o monge professor que se apaixona por sua aluna Heloísa.

O objetivo dos estudos era o aprofundamento na verdade, não o ganho material. Mesmo assim, dos estudos desenvolvidos nas escolas medievais surgiu a ciência moderna, tornada possível pela percepção cristã do mundo como obra de um Deus criador, indiretamente conhecido pela ordem do universo.

Ao contrário do que ocorre hoje em dia, contudo, os escolásticos tinham regras rigorosíssimas para evitar o erro. Afinal, o objetivo era encontrar a verdade, não jeitinhos. Dentre as regras de raciocínio por eles seguidas, a que mais difere do modo de operação das ciências modernas é a proibição de generalizar. Enquanto um cientista moderno considera perfeitamente natural que se extrapole a regra universal o resultado de uma experiência realizada com um universo minúsculo de objetos (se 50 pessoas emagrecem com o remédio tal, estaria provado que qualquer um emagrece ao tomá-lo), o escolástico só admitia fazer o percurso contrário, do maior ao menor (se todos os seres humanos precisam respirar para viver, pode-se deduzir que aquele ser humano também precisa).

Carlos Magno

Carlos Magno

As escolas, já presentes nos mosteiros desde o Século VI, foram tremendamente auxiliadas por Carlos Magno, que mandou vir da Irlanda professores capacitados e tornou obrigatória a existência de uma escola anexa a cada abadia. Com o fim do Império Romano, a confusão predominante havia provocado a perda de enorme parcela do conhecimento acumulado até então. A Irlanda, contudo, por não ter sido jamais parte do Império, foi preservada da desordem e pôde manter intactas, sendo permanentemente estudadas e copiadas, obras antigas que não mais eram encontradas no resto da Europa. Podemos comparar a situação da Irlanda de então com a do Brasil de hoje: uma guerra ou convulsão social que venha a destruir os centros da civilização ocidental na Europa e na América do Norte dificilmente atingiria as bibliotecas instaladas em Campina Grande ou Carmo de Minas.

Aos autores preservados pelos monges irlandeses, somam-se os que chegaram ao conhecimento e ao estudo dos escolásticos por intermédio da intelectualidade judia. São Tomás de Aquino, por exemplo, estudou e citou frequentemente o filósofo aristotélico judeu Maimônides.

A preocupação com a busca da verdade fazia também com que nada fosse considerado incogitável. Ao contrário do que ocorre hoje, quando os estudos superiores consistem na apresentação sistemática de uma série de “vacas sagradas”, cujos ensinamentos frequentemente contraditórios são o objeto dos estudos, para os escolásticos tudo deveria ser examinado, em busca de fraquezas, inconsistências e pontos falhos.

O estudo dos textos era extremamente aprofundado, tomando-se não apenas o sentido geral, mas também a etimologia de cada palavra, a escolha terminológica, etc., de modo a alcançar a compreensão mais perfeita possível. Em seguida, cada texto era submetido a uma busca de contradições lógicas, em que se procurava evidenciar qualquer inconsistência em relação não só ao próprio texto, como às obras de outros autores que no texto teoricamente seriam aceitas como verdadeiras. Quando se pensa que em nossas universidades, hoje em dia, os alunos mal leem cópias de um ou dois capítulos de um livro, vemos o quanto decaiu o ensino.

O ambiente era de discussão e debate; os professores colocavam-se regularmente à disposição dos alunos para debater qualquer tema e responder qualquer pergunta, em público, em um palco montado em espaço aberto na própria universidade. Este espetáculo, inimaginável em nossos dias, era não apenas comum como fielmente registrado por taquígrafos, de tal forma que temos hoje ainda acesso às respostas dadas por São Tomás de Aquino a perguntas como “Seria a verdade mais forte que o vinho, o rei ou a mulher?” (Quodlibet XII,14,1). Afinal, o aluno podia brincar, mas o professor estava obrigado a responder como se a questão fosse séria.

Cada resposta levava em consideração os argumentos contrários, dando-lhes uma tal importância que para o leitor moderno é até difícil entender, quando apresentado a um texto escolástico, o que o autor está realmente defendendo. A forma padrão destes textos é a seguinte:

Primeiro, na forma de uma pergunta, a opinião errada. Em seguida, cada um dos argumentos passíveis de emprego na defesa do erro, apresentados da melhor forma possível. Depois, uma citação de autoridade apresentando a posição correta, seguida de uma resposta em que ela é explicitada e explicada minuciosamente, vindo então a resposta ponto a ponto dos argumentos em prol da opinião errônea apresentados no início do texto.

Quando se compara esta prática à atual, em que qualquer argumento contrário à tese avançada pelo autor é cuidadosamente escondido, é fácil perceber qual prática é mais intelectualmente honesta.

O currículo inicial de estudos consistia no chamado Trívio: gramática, lógica e retórica. Por estes instrumentos o aluno ganhava domínio do discurso, tornando-se capaz não apenas de entender o que lhe fosse apresentado, mas também de expressar de forma clara e distinta as conclusões a que chegasse. A gramática, evidentemente, era a latina. O uso do latim, língua universal dos estudantes, fazia com que qualquer pessoa pudesse estudar em qualquer lugar, sem os inúmeros problemas causados hoje em dia pelo uso das línguas locais nas instituições de ensino. Italianos estudavam lado a lado com alemães, ingleses e espanhóis na Universidade de Paris, comunicando-se sem problema algum em latim.

O estudo da lógica fazia com que qualquer raciocínio que lhes fosse apresentado pudesse ser levado às últimas consequências e testado em busca de erros e inconsistências. A retórica, finalmente, tornava o estudante capaz de transmitir o seu conhecimento de forma agradável e eficiente.

Como continuação dos estudos fundamentais, equivalendo aproximadamente ao nosso ensino médio, encontrava-se o Quadrívio: aritmética, geometria, música e astronomia. Note-se que, enquanto os objetos de estudo do Trívio dizem respeito às palavras, o Quadrívio gira em torno dos números. A aritmética é a relação dos números uns com os outros; a geometria é a aplicação primeira destas relações numéricas ao mundo real, ao nosso entorno. Dado o triste estado do ensino no Brasil de hoje, cabe lembrar que não se trata de decorar fórmulas, mas sim de relacionar os números às formas que percebemos no nosso entorno. Destes estudos geométricos e aritméticos surgiu a arquitetura medieval, até hoje nunca ultrapassada. Catedrais como Notre Dame de Paris, construídas em pedra pesadíssima, sem recurso aos cimentos e colas de hoje, são um testemunho eloquente da importância destes estudos.

Mas os números vão ainda além: a música é uma forma ainda mais alta de aplicação prática da matemática, em que as frequências da vibração do ar causada pelos instrumentos criam beleza em estado bruto. O estudo da harmonia musical é um estudo não apenas matemático, mas também diretamente ligado à própria percepção do Belo.

A partir destes estudos, chega-se, finalmente, ao que era chamado “a música das esferas”: o estudo da astronomia, dos movimentos dos corpos celestes, que, em ordem perfeita, traçam formas de luz no firmamento.

Tendo concluído estes estudos iniciais, estava o aluno pronto para adentrar o estudo da filosofia, o estudo das coisas, da própria realidade.

São Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino

Hoje, quando se fala da escolástica, em geral é à filosofia escolástica que nos referimos. Ela era, no entanto, uma ferramenta, não um objetivo final. As descobertas da filosofia escolástica em muitas áreas até hoje não foram ultrapassadas; em outras, o que foi descoberto há oitocentos anos está agora sendo comprovado. É o caso, por exemplo, do estudo da percepção e compreensão humanas, em que a medicina, graças às técnicas não invasivas modernas (ressonância, tomografia, etc.), pela primeira vez consegue discernir visualmente o funcionamento do cérebro humano, confirmando as descobertas feitas por São Tomás há 800 anos.

O estudo da natureza, da fisiologia, dos processos mentais e de tudo o mais que hoje é dividido em miríades de ciências isoladas era compreendido na chamada Filosofia Natural, parte integrante da filosofia. Devido ao modo como estes estudos eram encetados, todavia, não se corria o risco atual de isolar tão completamente uma ciência da próxima que não seja possível a um praticante ter acesso aos dados de outra; ao contrário, a visão que se tinha delas era necessariamente sistêmica, unindo a todas num mesmo corpus de conhecimento.

Hoje ainda se tem uma vaga lembrança deste processo nos países de língua inglesa, em que o doutorado é dito “PhD”, abreviação de “doutorado em filosofia”. Isto ocorre porque se esperava que um escolástico que se entregasse ao estudo de uma área específica (médica, física, biológica, psicológica, legal, etc.) passasse depois a traçar a ligação e a união do discernido em seus estudos com todas as outras áreas de conhecimento, fazendo a filosofia da medicina, da física, da biologia, da psicologia, do direito…

A formação escolástica inicial em filosofia, assim, era o passo inicial para um aprofundamento dentro de algum campo dela. Estudava-se filosofia para que se tivesse uma base de conhecimento e uma ferramenta adequada para que qualquer outro estudo fosse feito com proveito, somando-se a verdade encontrada nestes estudos a todo o corpus de conhecimento adquirido pelos outros estudiosos anteriores e contemporâneos.

Este processo de estudos fez com que a escolástica provocasse um aumento do conhecimento humano não apenas quantitativo, mas também em qualidade. Nenhuma hipótese deixava de ser examinada, e nenhum erro deixava de ser apontado, erigindo-se um edifício de conhecimento e compreensão da criação que jamais teve igual.

O único problema, todavia, é que sempre houve e sempre haverá quem se interesse mais pela mentira confortável que pela verdade que incomoda. A escolástica jamais foi diretamente atacada; os conhecimentos obtidos nos estudos escolásticos jamais foram provados errados. Ao contrário: a sociedade do dito Renascimento, procurando livrar-se daquelas verdades incômodas, procurou negá-las em bloco e ridicularizá-las.

Um tesouro inimaginável foi deixado de lado em prol de besteiras e mentiras da moda. Os estudos de São Tomás sobre como se processa o conhecimento humano foram substituídos por teorias farsescas (cartesiana, kantiana), hoje atacadas duramente, com razão, pela neurologia moderna. Os estudos de economia da Escola de Salamanca deram lugar às mentiras e às simplificações ideológicas posteriores, até que no Século XX o que fora discernido pelos escolásticos fosse novamente percebido pelos estudiosos da economia.

Este divórcio entre as ciências, causado pelo abandono do método escolástico, levou-nos à absurda situação atual, em que os gigantescos avanços da tecnologia convivem com os erros mais delirantes na compreensão do mais básico no ser humano, como os delírios da teoria de gênero. Para tornar ainda mais insustentável a negação da escolástica, as mentiras e distorções criadas para servir de desculpa para a negação em bloco do conhecimento escolástico continuam em circulação. Por exemplo, os estudos escolásticos sobre os efeitos da atenção focada sobre o seu objeto – tema redescoberto pela física moderna apenas no final do século passado – na versão farsesca que busca ridicularizá-los, virou “quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete”.

Nem tudo, contudo, está perdido. Estes conhecimentos, tão verdadeiros hoje quanto quando foram pela primeira vez discernidos, ainda estão à nossa disposição. Não são objetos de estudo nas universidades – que se transformaram em cursos técnicos, ensinando algum ofício a artesãos em busca de uns trocados – mas podem ser estudados por quem quer que tenha acesso à internet. A filosofia escolástica, bem como as matérias do Trívio e do Quadrívio, continuam a ser a mais perfeita preparação para qualquer estudo superior, e graças às técnicas modernas de comunicação é hoje possível a qualquer um, em qualquer lugar, ter acesso a estas disciplinas.

A escolástica não morreu; apenas foi ocultada de nossos olhos por uma loucura passageira. Redescubramo-la.