Artigo publicado originalmente na 7ª edição da Revista Vila Nova, em junho de 2013

TEXTO DE CARLOS RAMALHETE

Toda arte é ao mesmo tempo atemporal e datada. A música imortal de um autor clássico é tão eterna na sua beleza quanto é um fruto inconfundível de sua época. Na literatura, este fenômeno é ainda mais forte; o que é, afinal, o universo de uma obra literária se não uma releitura autoral da realidade?

O que está presente ou ausente numa obra de ficção frequentemente diz mais que um livro de História sobre o tempo em que ela foi escrita, sobre os problemas da sociedade em que vivia seu autor, sobre sua visão da sociedade como um todo. Paradoxalmente, quanto mais fantástica a obra – ou seja, quanto menos próxima da realidade ela se propõe a ser – mais ela é capaz de mostrar a realidade que nega. O autor de um romance policial tende a simplificar a realidade, pintando um mundo de preto e branco. Quem narra uma história de amor deixa de lado enormes parcelas da realidade ao focar apenas aqueles limitadíssimos aspectos que conduzem a história que quer contar.

Já em um livro de fantasia, as questões realmente prementes – por vezes tão prementes que tratá-las como não ficção se torna impossível – estão ali, com uma leve maquiagem. Na ficção científica americana clássica (do entre-guerras à década de 1960), por exemplo, a tensão racial presente naquela sociedade se manifesta por toda parte, seja nas relações entre “espécies” interplanetárias, seja na fixação com robôs antropomórficos.

O grande conflito do século passado, especialmente para um europeu, foi a Segunda Guerra Mundial. Mais exatamente, foi a ação dos Estados totalitários – nazista e comunistas – e os genocídios por eles perpetrados. O nazismo apoiava-se abertamente numa leitura heterodoxa de Nietzsche, fazendo da “vontade de poder” um “poder da vontade” alemã, a ser expresso pelas armas na conquista de território e na destruição ou submissão do que percebia como “raças subumanas”. O comunismo, negando a individualidade e o âmbito pessoal, negava a família e a própria possibilidade do amor.

Este surgimento apavorante do Mal em forma social coletivista assustou o cultíssimo filólogo J. R. R. Tolkien, que o retratou de forma simbólica no que com justiça é por muitos considerado a maior obra-prima da ficção fantástica: o universo do Senhor dos Anéis. Em milhares de páginas, distribuídas por cinco livros, Tolkien criou um universo ordeiro e pacífico, habitado por vários tipos de seres (dentre os quais os caseiros e sossegados hobbits) que se vê ameaçado por um anel mágico que dá poder absoluto e com isso conduz à loucura. Os hobbits, explicou o próprio autor, representam a domesticidade britânica, a civilização na sua base mais sólida, que é a estrutura familiar e a civilidade. Um hobbit, acompanhado por outros seres – cada espécie representando um aspecto da humanidade ordenada – leva o anel para a destruição em uma montanha distante.

Este processo de salvamento de uma sociedade, lembrando o aforisma chertertoniano segundo o qual o soldado não luta por ódio ao que se lhe defronta, mas por amor ao que está atrás dele, lembra a luta da Grã-Bretanha contra a agressão nazista. É um mal, é o Mal!, que surge e ataca, e compete àqueles que sequer se percebem como guerreiros, movidos pelo amor à paz, levar este mal a um fim.

No século passado, assim foi percebida esta luta. Mal se sabia, contudo, que em pouco tempo desmoronaria o que parecia ter sido salvo, parte por ação do comunismo remanescente, parte por problemas estruturais da própria sociedade burguesa.

A revolução cultural de maio de 1968, elevando os estandartes do niilismo e do sensualismo, levou ao desmanche das grandes narrativas da modernidade. Os discursos ideológicos que orientaram a sociedade dos séculos XIX e XX viram-se subitamente virados de ponta-cabeça; o rei estava nu.

A primeira etapa desta revolução cultural, ainda utópica e prenhe de boas intenções, orientada em torno de um vago desejo de “paz e amor”, foi rapidamente substituída pela ganância crua, pelo utilitarismo mais amoral. O “cachimbo da paz” do hippie deu lugar à cocaína do yuppie, que se democratizou na pedra de crack do assaltante.

E é nesta sociedade desordenada que surge outra obra de ficção fantástica: a série das Crônicas de Gelo e Fogo, de G. R. R. Martin.

Ned Stark

Ned Stark

As semelhanças entre ambas as obras – um certo apelo ao Medievo, a presença do fantástico aliada a uma espécie de normalidade… – já foram apontadas por muitos. Da diferença maior, contudo, pouco se fala. Enquanto o mundo de Tolkien é um mundo estável e ordenado que se busca proteger da desordem e da instabilidade, o de Martin é seu oposto diametral.

Este autor declarou haver estudado muitos aspectos do Medievo para escrever sua obra. Falta, contudo, o mais essencial no Medievo: o sentido da sociedade, a percepção por todos da ordem do mundo como ideal e prática. Enquanto a sociedade medieval era profundamente ordenada, a sociedade das Crônicas apresenta a anomia e o imanentismo da sociedade atual, recobertos por uma diáfana roupagem medieval – o que explica a comparação que por vezes é feita da sua versão televisiva com seriados políticos atuais. Paradoxalmente, ainda, esta anomia e este imanentismo persistiriam, no mundo das Crônicas, por séculos ou milênios.

A única estabilidade no mundo das Crônicas seria a própria instabilidade, desprovida de passado ou de futuro: é uma instabilidade essencial, uma instabilidade que é a sua própria essência. É oposto tanto do Medievo quanto do mundo de Tolkien, em que a instabilidade é percebida como não apenas necessariamente passageira, mas ameaçadora. O que os personagens do mundo do Senhor dos Anéis buscam é, antes de tudo, a preservação de uma ordem que, como toda ordem real, é baseada nas instâncias mais básicas da sociedade. É uma ordem que vem da família para a aldeia, da aldeia para a região, da região para o reino, do reino para o mundo.

Ao contrário, no mundo das Crônicas, esta ordem é liminarmente negada. O que há é um “Game of Thrones”, um “jogo de tronos”: o que está em jogo é um trono, tão cobiçado quanto – literalmente – perigoso para seus sempre temporários ocupantes. A instabilidade essencial do universo das Crônicas – em que nem mesmo a ordem das estações é previsível – está aumentando: tudo o que é sólido se desmancha no ar, pois o inverno está chegando. E o inverno traz demônios ignotos, cuja alteridade é tamanha que lhes serve de nome: são os Outros. Contra estes demônios, contudo, não há resistência possível. Não há uma ordem à qual se possa apelar contra a desordem demoníaca, pois a própria sociedade ameaçada por eles é, ela também, essencialmente desordenada. Assim como no tempo da Guerra Fria era comum que a literatura fantástica expressasse o temor de uma horda de soldados robóticos e impessoais – versão fantástica do medo do comunismo – as Crônicas trazem Outros desordenados, niilistas, incompreensíveis. Não são, contudo, as hordas organizadas da Guerra Fria, sim os ataques súbitos e irracionais do Onze de Setembro ou da Maratona de Boston. É o imprevisível, irracional, que só pode ser combatido com algo tão ou mais irracional quanto, pelo “amuleto” da negra obsidiana ou pelo fogo, tão raro em meio ao gelo. E o inverno está chegando.

Os ataques, contudo, não vêm apenas dos Outros; ao contrário, sua participação maior parece estar ainda por vir no sexto e sétimo livros, já prometidos pelo autor. A maior parte das causas da dissolução da parca e instável ordem vem de dentro. O previsível e ordenado é ativamente combatido; quando a ordem é o incesto, como nos Targaryen, vende-se a noiva/irmã; quando é a preservação da família, como nos Lannister, os irmãos são amantes e o filho mata o patriarca. Jon Snow salva sua corporação ao traí-la.

Não há valores, não há sequer a semelhança de uma ordem a preservar; a cobiça e o orgulho fazem as vezes deles. Paradoxalmente, o surgimento de “valores” na narrativa ocorre de maneira igualmente desordenada, recaindo em imperativos morais categóricos que soam evidentes para um americano do século XXI, mas que dificilmente fariam algum sentido no mundo das Crônicas. É o caso, por exemplo, do puritanismo de Ned Stark em King’s Landing ou da ideologia abolicionista que subitamente inspira Daenerys Targaryen.

Esta instabilidade essencial se reflete de modo ainda mais forte na própria estrutura do romance; os personagens ponto-de-vista, acompanhados pelo leitor, revelam-se igualmente instáveis. Ned Stark, o primeiro deles e aparentemente o mais importante, morre ainda no primeiro livro. Sua filha Arya parece sofrer o mesmo fim no segundo livro, já estando o leitor preparado para a morte súbita de personagens importantes, apenas para revelar-se viva mais tarde. Jaime Lannister sofre uma estranha conversão ao ver-se incapacitado de ganhar a vida pela espada.  As seguidas reviravoltas parecem indicar mais uma ausência de essência nos personagens e no próprio universo das Crônicas que uma deriva literária das suas trajetórias. A essência é não haver essência; a instabilidade é a única coisa estável.

Para quem tenha estudado História, esta instabilidade essencial chama ainda mais atenção por ser, nos livros, revestida de aparência medieval. O ideal de cavalaria medieval só pôde existir como serviço ao Cristo Rei dos Reis. O cavaleiro medieval, por definição, é agente de uma ordem infinitamente maior que ele mesmo e que toda a sociedade, de uma Lei de origem e manutenção divinas. A sociedade medieval organizou-se primordialmente em torno da religião, e apenas secundariamente em torno do estado de vida (guerreiro, clérigo ou camponês).

No universo das Crônicas, contudo, não há religião. O que passa por religião é um misto de conveniência social e emocionalismo, semelhante ao que forma a prática diária da religião de Estado norte-americana, mas perfeitamente incapaz de servir de estrutura organizacional de toda uma sociedade, como o fez o catolicismo medieval. É curioso perceber, aliás, como o catolicismo de Tolkien se faz perfeitamente presente no universo do Senhor dos Anéis, não sendo contudo jamais abertamente expresso; não há Missa, mas são todos católicos. Já nas Crônicas, tem-se o cavaleiro medieval, sem que se tenha a religião que o tornou possível.

Nas adaptações cinematográficas (do Senhor dos Anéis) e televisivas (das Crônicas) é possível perceber com ainda maior clareza esta distinção entre a ordem preservada em um e a instabilidade essencial no outro. Enquanto a produção do Senhor dos Anéis procurou salientar a beleza da ordem a preservar, filmando nas locações mais belas da Nova Zelândia, o que salta aos olhos na série “Game of Thrones” é a feiura e a sujeira.  Locais que nos livros são descritos como nobres e dignos são retratados na série como soturnos e malcuidados; a beleza que existe é das personagens, e mesmo esta beleza não é reconhecida de forma digna.

O sexo, presente de forma natural nas Crônicas, torna-se na série ao mesmo tempo animalesco e puritano. Por um lado, cenas de sexo gratuitas e violentas chegam ao ponto de substituir cenas quase românticas narradas nos livros; o primeiro encontro conjugal de Daenerys e Drogo, por exemplo, em que no livro a princesa domina seu bárbaro, como naturalmente a feminilidade da mulher “domestica” a agressividade do homem que ela ama, na série faz crer que a produção estivesse buscando diminuir a humanidade dos personagens.

Ao mesmo tempo, talvez para eludir-se à caça às bruxas atual, a idade das personagens é puritanicamente modificada, para que o sexo animalesco e gratuito ocorra apenas entre maiores de dezoito anos. Sansa Stark e a própria Daenerys parecem ganhar dez anos na série, em prejuízo da própria dramaturgia.

O Senhor dos Anéis e as Crônicas de Gelo e Fogo são obras maiores que seus autores e que o tempo em que foram escritas. Esta última, contudo, provavelmente será no futuro apontada como eloquente testemunha da decadência de uma era, enquanto aquela permanecerá como incentivo à preservação da ordem que constrói a paz verdadeira e duradoura.