Artigo publicado originalmente na 9ª edição da Revista Vila Nova, em dezembro de 2013

TEXTO DE CARLOS RAMALHETE

Toda criatura é hierárquica. Diante de minha janela cresce uma árvore, que como qualquer outro ser vivo, tem uma constituição fortemente hierárquica: um tronco grosso cravado no chão pelas raízes, com galhos proporcionalmente mais finos, dos quais saem galhinhos ainda mais finos, que por sua vez dão folhas, com o formato definido pelas nervuras, que desenham uma árvore miniaturizada…

Num galho desta árvore, pousa um pássaro. Seu corpo rechonchudo – na verdade musculoso! – apresenta asas que se afinam para as bordas, e pezinhos com unhas na ponta garantem que ele se segure no galho. Ele, como a árvore onde pousou, tem uma estrutura corpórea hierárquica.

O contato com o mundo é feito sempre pelos menores elementos da hierarquia – a folha da árvore, a ponta da pena do pássaro –, que transmitem hierarquia acima algo do que discerniram ou captaram, para o bem de todo o organismo. É assim que funciona uma hierarquia natural e orgânica.

No nosso corpo, que nos é mais familiar, quando sentimos na pele o vento frio ocorre imediatamente um fenômeno de defesa local (arrepio), seguido por uma defesa vinda de uma instância hierárquica mais alta (cruzar os braços), enquanto decidimos na mais alta das instâncias envolvidas, a intelectual, se vestiremos um casaco ou iremos para um lugar mais aquecido. Do mesmo modo, ao caminharmos descalços, nossos dedos do pé percebem as irregularidades do solo e encaminham ao cérebro as informações, com as articulações da perna respondendo, em harmonia com os braços e a própria coluna vertebral, de modo a preservarmos esta espantosa condição humana da locomoção ereta. Cada célula do corpo, incluindo a imensidão de células que não partilham o mesmo código genético (fauna e flora intestinais, etc.), trabalha em conjunto, dentro da mesma lógica, com uma feliz combinação de ação de iniciativa própria, ação inconsciente do cérebro e ação consciente do ser humano.

Esta combinação é o que faz a saúde. Um corpo em que cada célula operasse individualmente, sem harmonia com as demais, seria na verdade um cadáver em decomposição, não um organismo. Um organismo em que tudo ocorresse por ação inconsciente do cérebro teria um metabolismo tão espantosamente lento que não seria capaz de alimentar-se e sobreviver. Um organismo em que tudo fosse consciente seria o paroxismo do mesmo problema. Podemos perceber isto claramente na nossa respiração, por exemplo: se não prestarmos atenção nela, temos uma ação inconsciente. Quando começamos a prestar atenção na respiração, precisamos de um certo tempo até conseguirmos fazê-la voltar ao automático, e a consciência da velocidade das inspirações e expirações chega a atrapalhar os demais processos mentais. E se houvéssemos ganhado consciência não apenas das inspirações e expirações, mas de cada ação de cada fibra de cada músculo que usamos para inspirar e expirar? De cada troca de oxigênio por gás carbônico em cada alvéolo do pulmão? O simples ato de respirar consumiria mais capacidade intelectiva que o mais árduo estudo!

O mesmo ocorre com a sociedade.

Toda sociedade ordenada é hierárquica, com uma hierarquia orgânica extremamente semelhante às hierarquias em que se organiza a vida das criaturas. É possível, contudo, tentar instaurar uma sociedade não-orgânica, em que a hierarquia natural é substituída por uma falsa hierarquia ou por um falso igualitarismo. O sucesso do empreendimento, contudo, é paradoxalmente correspondente ao seu próprio fracasso: uma sociedade artificial só sobrevive enquanto existirem dentro dela os elementos que ela mesma tenta combater, por não perceber que são eles que possibilitam sua sobrevivência.

Para tomarmos um exemplo drástico, podemos perceber facilmente como a ação dos mercados negros nos países comunistas evitam a morte das multidões que não conseguiriam de outra forma obter alimentos. Num país comunista, as trocas (com ou sem intermediação monetária) entre as pessoas são proibidas; todo produto deve, obrigatoriamente, ser encaminhado pelo Estado de quem o produz para quem dele necessita. Diz o adágio marxista: “de cada um de acordo com sua capacidade; para cada um de acordo com sua necessidade”.

Na prática, contudo, o que isto faz é impedir que se possa saber quanto vale cada produto, logo quanto dele seria necessário produzir. Cria-se, assim, uma situação de caos completo no abastecimento. Podemos ver um exemplo claríssimo deste mecanismo em ação na patética tentativa de implantação do comunismo na Venezuela, onde quando o papel higiênico – previsivelmente – desapareceu dos mercados, o Estado ocupou militarmente as fábricas(!).

A própria falta de um produto, contudo, faz com que seu valor real de mercado aumente proporcionalmente. Assim, passa a valer a pena dedicar-se à venda daquele produto no mercado negro. Ninguém se interessa por vender papel higiênico ilegalmente no Brasil, por se tratar de um produto barato e de farta oferta. Quando, contudo, o Estado brasileiro aumenta tresloucadamente os impostos sobre o tabaco, passa a valer a pena trazer ilegalmente cigarros dos países vizinhos, criando-se um mercado negro que garante o abastecimento a preços menos absurdos.

O mesmo mecanismo agiu e age ainda nos países comunistas para evitar a fome generalizada, com um ativíssimo mercado negro de alimentos e demais bens necessários à sobrevivência.

Este mercado é orgânico. Poderíamos compará-lo à seiva que ainda circula na madeira de uma árvore cortada, que faz com que por vezes uma folha brote inesperadamente de uma tábua já aparelhada.

Em uma árvore sadia, a circulação de seiva é o mecanismo de leva-e-traz que permite a sobrevivência do organismo. É o meio pelo qual a árvore leva às folhas os nutrientes arrancados do chão pelas raízes e leva a todo o resto do organismo o que as folhas tenham produzido por fotossíntese. É um meio de comunicação indispensável entre as partes fixas, produtivas, do organismo. Estas partes são, muitas vezes, só o que vemos: o tronco, as raízes, as folhas – vivas pela ação da seiva ou secas quando, no tempo frio, a seiva não chega à elas. A seiva está lá e é necessária, mas dificilmente entraria num desenho esquemático da árvore, a não ser que estivéssemos desenhando alguma árvore cuja seiva extraímos, como a seringueira. Normalmente, a circulação da seiva é na prática ignorada.

E aqui voltamos ao início deste texto, quando dissemos que um corpo em que cada célula operasse individualmente, sem harmonia com as demais, seria um cadáver em decomposição. A borracha – seiva – extraída de uma seringueira não deixa de ser o cadáver de uma parte da seringueira. Naquela borracha não há vida, porque as células não têm um princípio de organização, um objetivo; falta-lhes o que em filosofia chamamos de “alma”, ou “forma”. Cada célula, a princípio, está viva, pronta para exercer sua função de levar e trazer nutrientes e excreções seringueira afora. Logo, contudo, elas perdem até mesmo esta capacidade, tornando-se mortíssima borracha, boa para fazer pneus e solas de sapato e absolutamente inútil para alimentar folhinhas de seringueira.

A tentativa capitalista (ou liberal, como preferirem) de fazer do mercado o princípio civilizatório é, de uma certa forma, uma tentativa de construir uma seringueira de borracha: toma-se o meio pelo fim, a seiva pela árvore, a moção pela vida. É o engano diametralmente oposto ao do comunismo; enquanto este tenta fazer com que cada ação microscópica do corpo que é a sociedade seja uma ação consciente, aquele nega que haja um corpo. Confunde-se, e vê no fervilhar dos vermes no cadáver prova suficiente de vida da sociedade.

Isto decorre do que já foi discernido por Max Weber pouco mais de cem anos atrás: a mentalidade individualista, decorrente da negação protestante da salvação como participação na Comunhão dos Santos. Ao substituir a participação na Comunhão dos Santos da teologia cristã clássica por uma relação individual e pessoal de cada protestante com a Divindade, criou-se uma mentalidade que nega a própria existência da comunidade senão como aglomeração quantitativa de indivíduos.

A ideologia capitalista, assim, nega a existência objetiva e a necessidade desta ordem maior, considerando-a apenas um subproduto das interações contratuais individuais de cada célula do corpo social. Há nisso dois problemas gravíssimos de percepção da realidade.

supermercadoO primeiro deles é a redução do ser humano à sua dimensão imanente, ao menos para todo efeito prático. O homem – exatamente como no erro oposto, o coletivismo comunista – torna-se nada mais que um homo oeconomicus, uma espécie de maquininha em que a comida entra por uma ponta e os excrementos saem pela outra, necessitada apenas de bens materiais para alcançar a mais plena felicidade. Afinal, o mercado serve justamente para assegurar a circulação destes bens materiais necessários à sobrevivência humana; ele é realmente livre enquanto a sociedade como um todo dá-lhe os veios por onde correr, como as paredes celulares da árvore contém a seiva e assim possibilitam que ela se mova e vá onde é necessária.

Se o mercado é tomado por sinônimo da sociedade (exatamente como o Estado é tomado por sinônimo do “Povo” no comunismo, aliás), o objetivo dela passa a ser a mera produção e distribuição de bens de consumo. Toda a vida do espírito passa a ser uma mera questão de gosto; os escritos de Aristóteles, Cícero ou Santo Agostinho disputam mercado com o requebrar da peladona do momento, e quem quer um ou outro o compra. Mozart e Miley Cyrus competem em pé de igualdade. E no fim ela ganha.

O segundo problema de percepção da realidade é que – exatamente como nos regimes comunistas o mercado permanece presente em forma clandestina – a sociedade capitalista depende, para sua subsistência, da presença de uma ordem interna que ela mesma não reconhece. Esta ordem, multiforme e hierárquica, consiste de uma ordenação no mais das vezes inconsciente do imanente ao transcendente, pela adoção de códigos de conduta pré-capitalistas. Em outras palavras: a negação individualista de toda e qualquer ordenação social que não por relações contratuais esconde a persistência de uma ordenação não-contratual. O amor dos casais e dos filhos, por exemplo, não é contratual; ainda que ele seja refletido num contrato de casamento, o contrato e o fato são coisas distintas.

Do mesmo modo, a adesão social a determinados princípios herdados das sociedades pré-modernas anteriores – ainda que ocorrendo de maneira desordenada e arbitrária – garantem a sua sobrevivência por algum tempo, ao evitar temporariamente que a substituição do transcendente pelo imanente leve à mais horrenda escravidão ao sensível. A venda de revistas pornográficas ginecológicas nos primórdios das sociedades capitalistas, por exemplo, seria certamente unanimemente considerada criminosa. Já hoje, para horror dos descendentes de Adam Smith, ela é percebida como exercício da liberdade de mercado.

Ora, isto não é liberdade! A liberdade do mercado – que é um meio – depende, na verdade, de sua inserção em uma sociedade ordenada, onde ele possa operar o que lhe compete da melhor maneira. Ao negar-lhe a inserção orgânica que lhe é de direito, o mercado perde totalmente sua liberdade no senso mais estrito. Daí a proliferação de sucedâneos (em última instância anômicos) de inserção orgânica no discurso liberal: alguns vão dizer que os limites do mercado estão na agressão sem causa, outros na escravidão, sempre com algum outro a negar, dentro da mesma lógica capitalista, este ou aquele pseudo-limite. Afinal, sem esta inserção não há, no fim das contas, nada que impeça racionalmente a extração industrial de fetos para a produção de cremes, a escravidão por dívidas, o uso de pés-rapados como cobaias em experiências científicas, etc.; o que acaba ocorrendo é simplesmente a ereção como limite daquilo que fere os valores pré-capitalistas que o ideólogo em questão tenha ainda mantido como preconceitos irracionais e irrefletidos. Se o sujeito se choca com a escravidão, vê-a como negação da liberdade capitalista de escolha; se não se choca, vê-a como exercício desta mesma liberdade. E por aí vai.

O que poderia ordenar estes juízos de valor é infelizmente negado liminarmente, ainda que persista de forma irrefletida. E é na negação liminar da ordem orgânica que se unem os dois problemas que apontamos acima: por tratar o homem como mero homo oeconomicus, a sociedade capitalista vê-se incapaz de perceber tanto a sua dimensão espiritual, que necessariamente só pode florescer quando visa o transcendente que ela desconsidera, quanto as tentações que o escravizam à carne. O que está acima ou abaixo do mero meio que é o mercado não pode ser percebido por quem se recusa a perceber que ele não é um princípio civilizatório, que é incapaz de fazer de um corpo um organismo. Vermes não são um sinal de vida do cadáver.

Ao mesmo tempo, por não perceber que sua própria sobrevivência depende da manutenção desta série de formas ordenadas que herdou como preconceitos irracionais, sem defesa possível, a sociedade capitalista tende a desprezá-las, levando-as a ser substituídas por sucedâneos anômicos que apressam a dissolução social. Quando estes sucedâneos orientam-se às tentações escravizantes do indivíduo, então, a desordem só pode aumentar.

As tentações mais comuns são as mesmas que em qualquer outra sociedade; a natureza humana, afinal, não muda. O problema da sociedade capitalista é que nela, por se erigir a ganância – motor do mercado – a princípio civilizatório, o “atendimento à demanda” destas tentações é premiado, por ser um sucesso de mercado, e não é coibido a não ser pelos mecanismos herdados irracionalmente de sociedades pré-modernas anteriores. O resultado é facilmente previsível: uma sociedade de obesos mórbidos, masturbadores compulsivos impotentes e estéreis, plenamente convencidos de sua superioridade moral e intelectual em relação a qualquer outra sociedade, agressivos e, fundamentalmente, dedicados apenas àquilo que, no individualismo capitalista, passa por sucesso: o “consumo”.

Quando acusada, contudo, a ideologia capitalista procura abrigar-se no mesmo engano que repudia quando empregado pelos comunistas, que chamam de capitalismo tudo o que não é comunismo: a confusão entre capitalismo e mercado.

Ora, como vimos acima, o mercado é um meio. Em uma sociedade ordenada, ele nada mais faz que atender às demandas da ordem hierárquica orgânica que a orienta. Se, contudo, ele é erigido em princípio civilizatório, como ocorre na ideologia capitalista, de meio de manutenção da ordem social ele passa a meio de destruição. O que pode ter tido alguma eficiência em outros tempos, quando era mais forte a sobrevivência – ainda que em forma de preconceito irracional – de valores que mantinham uma certa hierarquia orgânica na sociedade, passa a agir com sinal contrário assim que ganha domínio suficiente.

Em outras palavras, assim como o comunismo poderia ser alegorizado como a substituição de uma árvore por uma folha de compensado, o capitalismo poderia sê-lo como a extração total da seiva de uma seringueira: ao ver a borracha crua espalhando-se pelo chão, gritam animados seus defensores: “quanta vivacidade, quanta velocidade!”, sem perceber que o que assistem é apenas o esvair-se da vida.