Artigo publicado originalmente na 5ª edição da Revista Vila Nova, em dezembro de 2012

Carlos Ramalhete

Quando se fala de matemática, raros são os que pensam em beleza. A beleza, contudo, é matemática: proporções, ordens de magnitude, escalas, tudo isso ordena o que é captado pelos sentidos e o faz realmente belo.

Na música, estas proporções são ainda mais importantes. Poucos se dão conta de que quando se diminui uma corda do violão exatamente pela metade, tem-se a mesma nota que com a corda solta; por um terço, tem-se um intervalo de quinta, a base da harmonia.

É possível apreciar a música sem se dar conta destas relações, quer numéricas quer, simplesmente, harmônicas. Conhecê-las, no entanto, faz com que o que soava como um agradável feixe de sons se torne uma complexa dança de notas, fugindo e voltando, afastando-se e aproximando-se, em relações harmônicas cuja beleza pode chegar ao sublime.

Dentre todos os compositores, Johann Sebastian Bach (1685-1750) é sem dúvida o que mais deixou clara a beleza da matemática musical. Suas obras tecem contrapontos em que as vozes dialogam em perfeita harmonia, repetindo em outros tempos, invertendo, construindo juntas um edifício complexo de vibrações sonoras cuja ordem e beleza são perceptíveis mesmo às formas de vida que não são capazes de razão.

Cerca de 60 anos atrás, Eugene Canby descobriu que o trigo cresce mais rápido quando se toca Bach na plantação. De lá para cá, várias outras experiências comprovaram este efeito, assim como o efeito contrário de ruídos desordenados. Esta percepção da ordem na música mesmo por seres irracionais indica, portanto, que esta ordem seja verdadeira. Não se trata de uma ordem atribuída externamente, de uma invenção humana, mas de um reflexo da mesma ordem que orienta o crescimento das plantas, a fisiologia dos animais ou a alternância das estações.

A música é, fisicamente, a vibração controlada do ar. Captamos esta vibração pelo ouvido – ou no corpo todo, se o volume for alto o suficiente – e o que é captado nos afeta profundamente. O corpo reflete a música que ouve; o batimento cardíaco procura aproximar-se do ritmo da música – o que explica a excitação causada pela música eletrônica e pelo rock –, a respiração toma, sem que conscientemente se perceba, uma profundidade semelhante à da tessitura harmônica, e o próprio estado de espírito se modifica de acordo com o tom e a escala da música.

A música é, assim, uma forma de reordenar o funcionamento do próprio homem. A diferença qualitativa entre uma música cujo único propósito seja o de causar excitação e a complexidade extremamente ordenada da música de Bach não é algo atribuído, sim algo percebido, reconhecido. É uma diferença que existe realmente.

A maior diferença entre a música de Bach e as formas musicais atuais, contudo, não é apenas a maior complexidade da ordem daquela, mas a forma que toma esta complexidade. Na música atual, especialmente a popular – tendo a música erudita se perdido nas complexidades artificiais da dodecafonia –, a harmonia é concebida na forma de acordes. Enfileiram-se “cachos” de notas, ao ponto de ser comum que haja músicos que saibam apenas ler a notação cifrada dos acordes, sendo incapazes de ler uma partitura.

Na música de Bach, contudo, a harmonia é feita por linhas melódicas distintas e superpostas, como no nosso corpo se superpõem a “melodia” da respiração e a do coração ou da fisiologia. Cada linha melódica combina-se perfeitamente com as demais, citando-as, completando-as, invertendo-as, na dança riquíssima do contraponto, que jamais poderia ser reduzida às sucessões de acordes com que se pode resumir uma harmonia moderna.

De todos os músicos conhecidos, nenhum outro chegou à perfeição de Johann Sebastian Bach na expressão da mais pura ordem, sumamente bela e matematicamente precisa.