Artigo publicado originalmente na 9ª edição da Revista Vila Nova, em dezembro de 2013

TEXTO DE BERNARDO SOUTO

Há um sem-número de razões para ler (ou reler) William Shakespeare, mas todas podem ser resumidas em apenas três: 1) Shakespeare é verdadeiramente um clássico; 2) Shakespeare é universal; 3) Shakespeare é atemporal. Para o brilhante ensaísta austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux, o autor de Hamlet é, muito possivelmente, ao lado de Dante,  o maior poeta de todos os tempos[i]. Já o consagrado crítico norte-americano Harold Bloom acredita que o bardo inglês foi o inventor do humano, e que sua obra equivale a uma espécie de Escritura Secular, ou mitologia[ii]. Exageros à parte, não resta dúvida de que o dramaturgo britânico  é um dos gigantes da Literatura Universal.

Para o grande escritor e ensaísta Italo Calvino, “os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual”[iii]. Afinal de contas, quem nunca ouviu o hamletiano adágio, segundo o qual “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa filosofia”[iv]? Mas não é só isso, o bardo de Stratford-upon-Avon exerceu forte influência sobre autores do quilate de Dostoiévski, Edgar Allan Poe e T.S. Eliot, escritores cujo valor estético, mesmo em nossa decadente época, é inquestionável.

Sendo um clássico por excelência, Shakespeare é universal. Não fosse assim, o aclamado cineasta Akira Kurosawa não teria adaptado e reambientado peças como Macbeth e Rei Lear para o contexto japonês. Daí a pertinência da afirmação de Goethe, segundo o qual a obra de arte universal (Weltliteratur) é “depositária dos valores comuns da humanidade” (e, sendo depositária dos valores comuns da humanidade, é atemporal, uma vez que transcende os acidentes e as contingências temporais, voltando-se para as questões verdadeiramente fundamentais da existência humana). É que a obra de arte autêntica, segundo T.S. Eliot, cria uma espécie de sensibilidade suplementar, que alarga nossa a percepção da realidade e a nossa visão de mundo.

William-ShakespeareMas não é só isso. O vate inglês, além de ser dotado de invulgar talento literário e de possuir uma rara aptidão para a sondagem psicológica, criou uma galeria de personagens como que arquetípicos, sendo Iago a personificação da inveja; Hamlet, da dúvida existencial; Lear, do orgulho desmedido; Edmundo, da maldade astuciosa; Lady Macbeth, da cobiça desenfreada, dentre muitos outros. A crítica, salvo algumas raras e esporádicas objeções,  tende a considerar Hamlet, Otelo, Rei Lear e Macbeth (1606 ou 1607) como as quatro obras fundamentais do dramaturgo britânico.

Em Hamlet (tragédia escrita entre 1599 e 1601), o tema central é o drama ontológico frente ao sofrimento inerente à condição humana. Como todos sabem, o jovem príncipe da Dinamarca põe em xeque o sentido da vida após saber que seu tio (Cláudio) assassinou o próprio irmão (o Rei Hamlet), a fim de ocupar o trono. Como se não bastasse, a mãe do príncipe (Gertrudes), casa-se com o criminoso cunhado, tornando-se partícipe da macabra trama. Ao fim, Hamlet consegue vingar a morte do pai, obrigando Cláudio, que envenenara o próprio irmão, a ingerir veneno.

Otelo, o Mouro de Veneza (1603) – brilhantemente adaptada para o cinema por Orson Welles – gira em torno, sobretudo, dos males causados pela inveja e pelo ciúme. Porém, como bem observa o ensaísta Otto Maria Carpeaux, “Otelo é uma tragédia sofocliana, de encobrimento e revelação da verdade[v]“. É que, na história do mouro de Veneza, a inteligência diabólica (lembrando que a palavra diabo vem do grego διάβολος, que quer dizer aquele que separa) de Iago é a mola propulsora da tragédia.

Rei Lear (1605),  em que pese ser “a mais contundente e inescapável das obras literárias[vi]”, e,  apesar de recair naquilo que Goethe chamou de “contradição inconciliável[vii]”, atinge uma dimensão que transcende o niilismo, seja na comovente cena em que Lear, após ter vencido a tempestade e a loucura, re-conhece sua filha Cordélia (anagnorisis), seja pela esperança nascida devido à sobrevivência do nobilíssimo Edgar, que, com a recusa do Duque de Albany, assume o trono da Bretanha. Ademais, o enorme enriquecimento espiritual de Lear após os duríssimos golpes contra ele desferidos durante a “sua longa e dolorosa caminhada de rei a homem[viii]”, como tão bem expressou Bárbara Heliodora (que, por sinal, é a melhor tradutora brasileira do bardo inglês), demonstram que William Shakespeare, a despeito de enfatizar em sua tragédia o lado sombrio da natureza humana, acreditava que a transcendência poderia sim ser atingida, concepção que o distancia sobremaneira da descrença absoluta nos valores terrenos (niilismo). Mais sombria, no entanto, é Macbeth  (1606 ou 1607).

Macbeth é, seguramente, a mais noturna e misteriosa das tragédias shekespeareanas. Sua linguagem é barroca e bastante complexa, o que realça ainda mais o seu caráter enigmático: “As palavras enigmáticas das bruxas (‘O belo é podre e o podre, belo sabe ser‘), de modo bestial e demoníaco, transcendem a razão do homens[ix]“. A peça é, do ponto de vista estritamente estético, possivelmente a mais bem-sucedida das tragédias de Shakespeare. Não conheço obra literária em que haja tanto derramamento de sangue, tampouco conheço trama ficcional que nos mostre de maneira mais exuberante as consequências nefastas da ambição humana.

Numa época tomada pelas trevas da vulgaridade, época em que a busca hedonística de prazeres efêmeros e o culto irracional ao relativismo estético imperam, a obra de William Shakespeare surge como um farol que, a um só tempo, ilumina e norteia a nossa difícil jornada. Shakespeare é um dos poucos escritores que, antecipando em três  séculos a claudicante Psicanálise, consegue lançar luz sobre os arcanos mais nebulosos do nosso eu profundo. Leiamos, portanto, Shakespeare!


[i] Cf. CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental.Vol. 2. São Paulo: Leya, 2012,  p.729.

[ii] Cf. BLOOM, Harold. Shakespeare: a invenção do humano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 588.

[iii] Cf. CALVINO, Ítalo. “Por que ler os clássicos”. In:_____. Por que ler os clássicos. Trad. de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.10.

[iv] There are more things in heaven and earth, Horatio,/ Than are dreamt of in your philosophy.

Hamlet (1.5.166-7).

[v]  Cf. CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental.Vol. 2. São Paulo: Leya, 2012,  p. 733.

[vi]   Cf. BLOOM, Harold. Shakespeare: a invenção do humano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 611.

[vii] Cf. LESKY, Albin. A tragédia grega. Trad. J. Guinsburg, Geraldo Souza, Alberto Guzik. São Paulo, Editora Perpectiva, 2006, p. 31.

[viii] HELIODORA, Barbara. Falando de Shakespeare. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 174.

[ix] BORGES, Jorge Luis. “William Shakespeare”. In:______. Jorge Luis Borges: Obras completas (vol. IV). . São Paulo : Globo, 1999, p.   156.