Artigo publicado originalmente na 5ª edição da Revista Vila Nova, em dezembro de 2012

TEXTO DE CARLOS RAMALHETE

Os estrangeiros que vêm ao Brasil costumam se espantar com algumas das nossas características. Para nós, contudo, é tudo muito normal.

Uma das características culturais brasileiras que mais provocam espanto é a nossa aversão ao conflito aberto. O brasileiro dá um boi para não entrar numa briga e uma boiada para sair. Na nossa cultura, qualquer conflito deve ser resolvido “por bem”, sem ofensas e sem discussões veementes.

Alguns dos corolários desta busca de tranquilidade são enlouquecedores para os estrangeiros. O tabu que cerca a palavra “não”, por exemplo, faz com que qualquer americano ou europeu arranque os cabelos. Pergunta-se a um prestador de serviço se ele pode vir amanhã; a resposta pode ser “claro, doutor!” ou “está difícil”, mas “não” é algo que ele jamais vai dizer.

O estrangeiro, então, acha que “está difícil” é o início de uma negociação de preço, e oferece um bônus em dinheiro. Como na nossa cultura dinheiro é outro tabu (ninguém diz quanto ganha…), o prestador de serviço se sente humilhado e diz qualquer coisa para sumir da frente daquele gringo louco e nunca mais voltar. No dia seguinte, o estrangeiro passa o dia sentado esperando a vinda, que ele tinha certeza de ter combinado.

Isso se deve a um componente da moral tradicional que ainda perdura em várias expressões populares: o respeito, ou consideração. Todo mundo conhece alguém que quando bebe faz babosas demonstrações de carinho, afirmando “considerar muito” os amigos. Etimologicamente, a “consideração” é o exame dos astros (no “espaço sideral”), é estar alinhado com eles. A idéia por trás deste conceito é que não adianta bater de frente, que tudo o que se faz deve estar inserido dentro de uma ordem (“sideral”) maior. Quando se “considera” alguém, o que se faz na verdade é tratar esta pessoa como alguém que não pode ser manipulado, como alguém que deve ser respeitado em suas vontades.

O próprio “respeito” também tem, na origem da palavra, um sentido de não-intervenção. Quem “respeita” é quem é repetidas vezes um espectador; é um re-espectador: um respeitador, não um manipulador.

Este respeito e esta consideração do próximo, que fazem com que se fuja ao confronto, pressupõem uma ordem maior que deve ser mantida, uma convivência que deve ser preservada. Uma hierarquia social, em que o mais fraco respeita o mais forte ao se recusar a negar-lhe serviço (ele nunca vai dizer “não”), mas preserva ao mesmo tempo a sua autonomia, explicando que “está difícil” – ou seja: não é a vontade dele que se levanta contra a do patrão, mas o momento –  “os astros siderais” – que não é propício. O empregador, por sua vez, respeitando a autonomia do outro, deve propor outra data. Assim a amizade é preservada, assim os laços sociais, muito mais valiosos que o dinheiro, são nutridos e fortalecidos. Ao ditado americano “money talks, bullshit walks” (“quando o dinheiro fala, o papo-furado se cala”), corresponde o ditado brasileiro “é melhor ter amigos na praça que dinheiro em caixa”.

Esta teia de amizades, de respeito e consideração, é o que forma a ordem social real no Brasil. Mesmo um ladrão profissional não rouba quem ele “respeita”, e uma pessoa honesta ajuda quem ela “considera”. Cada pessoa é diferente da outra, mas todos estão inseridos na mesma teia complexíssima de relações sociais, formada por respeito e consideração.

Uma visão míope desta teia leva a alguns mecanismos de dissolução da ordem social, que variam da CLT à lei da palmada. Mesmo estes mecanismos, contudo, são apenas entraves provisórios. Nenhuma relação de trabalho é regida apenas pela CLT, ou seria uma relação de desconfiança, de falta de respeito e de consideração; ao contrário, a legislação trabalhista só vai realmente entrar em jogo quando o respeito e a consideração houverem acabado. Quando aquele fio da teia social houver sido rompido.