O burro adora a simplificação. Basta escolher uma palavra e tudo está resolvido. Fascista, comunista ou fabiano: o cardápio é curto e direto, para agradar o cliente. A realidade é complexa, mas o burro quer respostas simples, arrebatadoras. É por isso que todo burro tem a resposta errada na ponta língua. Para quê titubear se podemos errar com tanta ênfase e contundência?

Esse tipo de comportamento é muito comum nas discussões políticas, terrenos férteis para os palpites descompromissados. Num país em que os partidos políticos significam muito pouco ideologicamente, tentam igualar João Dória a Fernando Henrique Cardoso, apenas por serem do PSDB. Ciro Gomes é igualado a Maria do Rosário por defender o ex-presidente Lula, e Jair Bolsonaro se transforma em Costa e Silva apenas por defender a intervenção militar de 1964.

Tudo bem que numa discussão às vezes seja necessário usar certos rótulos para facilitar a explicação do panorama político, mas o problema é quando as pessoas se convencem que os rótulos são a realidade inteira e não apenas simplificações imperfeitas. Ao trocarem as personagens e situações reais por estereótipos e chavões fáceis, elas acabam se envolvendo em intermináveis discussões sobre políticos fictícios, com conclusões igualmente ilusórias.

Todo político – embora não pareça muito – é um ser humano, com personalidade e trajetória distintas de todos os outros. Quando você apoia ou vota num político, você está votando na pessoa real, com ações concretas, não na figura idealizada.

O PSDB atual é muito diferente do PSDB do início dos anos 90. Aécio Neves e Geraldo Alckmin (mesmo com todos os defeitos) são tucanos mais mansos, mais moderados do que a velha guarda. E João Dória talvez esteja inaugurando uma terceira fase psedebista, com discursos e ações mais liberais economicamente. Isso não quer dizer, evidentemente, que o PSDB tenha abandonado de vez a agenda cultural da esquerda (até porque Dória já disse ser contra a liberação do porte de armas e à favor do aborto em casos de estupro), mas precisamos ficar atentos aos movimentos reais dos psdebistas, para não corrermos o risco de analisar um partido que não existe mais.

Ciro Gomes é um político incomum, com muitas mudanças de opinião e de partido. Já foi mais à direita e já foi mais à esquerda. Combateu ferozmente Lula em outros tempos, hoje esbraveja que vai defender o ex-presidente até na bala, se necessário. Maria do Rosário é uma petista típica, histérica e fiel ao partido em tudo. Defende a “Pátria Grande”, enquanto Ciro baseia seu discurso numa ferrenha defesa nacionalista. São duas péssimas opções para qualquer cargo no país, mas muito diferentes para serem definidos apenas pelo termo “socialista”.

Jair Bolsonaro é um partido de um homem só, um dos poucos políticos verdadeiramente independentes do país. Também é um dos poucos a defender quase todas as posições e idéias conservadoras. Entretanto, a retórica não é o seu forte e, vez por outra, não consegue se expressar bem. É o que acontece quando ele vai defender a intervenção militar de 1964. Bolsonaro tem uma posição razoável, que considera o “golpe de 64” como necessário para barrar o avanço do comunismo na época e argumenta que os anos de regime militar foram de paz nas ruas e prosperidade econômica (verdades incontestáveis). Porém, apesar dos elogios constantes, Bolsonaro jamais defendeu a volta do regime militar e possui uma vasta carreira em defesa da nossa atual democracia. Dizer que ele trabalha pela implantação de um ditadura não tem o menor cabimento e é apenas uma arma utilizada por seus adversários para desmerecê-lo.

A política não é algo simples, que possa ser definido por esqueminhas mentais ou respostas fáceis. Também não pode ser baseada em idealismos, mas nas possibilidades reais ao nosso redor. Portanto, quem quiser entender verdadeiramente o que se passa na política brasileira e mundial precisará deixar de lado as respostas prontas, abrindo-se para o estudo sério das questões.