A lorota tem poder e ninguém pode negar. Num país em que as pessoas analisam tudo por empatia, uma lorota bem contada tem efeito decisivo, se transforma em verdade e é defendida como se fosse a coisa mais importante do mundo. Nesse cenário, Ciro Gomes – também conhecido como Ciro Lorota – ganha destaque no debate político e no coraçãozinho de milhões de brasileiros que aguardam ansiosamente por alguém que represente a tradicional arte brasílica da aparência.

Ciro Gomes entende perfeitamente que não interessa o assunto abordado ou se faz sentido aquilo que foi dito, mas apenas a forma. É por isso que ele manda um “competitividade sistêmica” no meio de uma de suas respostas – enfáticas e recheadas de estatísticas malucas – sobre economia. O brasileiro médio, que não entende nada de macroeconomia, assiste isso e sai pensando que ele sabe mesmo sobre o assunto, afinal de contas, um cara que grita as supostas soluções e tem na ponta da língua todos os dados estatísticos só pode estar certo.

O ex-ministro também sabe que a lorota tem mais força quando está ladeada de verdades, numa mistura que faz álcool etílico parecer cachaça (é aí que o povo se embriaga). Ciro então começa a disparar. Chama Temer de “frouxo” e “canalha”, Dilma de “inexperiente” e “sem traquejo político”, o PMDB ele define como “quadrilha” e a Fernando Henrique Cardoso chama de mentiroso. Ao Lula ele passa sermão ao vivo, o culpando pelo impeachment: “Lula é o responsável por isso (Impeachment) […] quando loucamente, irresponsavelmente, brincando de deus, botou um sem-voto como Michel Temer […] na vice (presidência) […] O Lula é o responsável pela crise”.

Ele já passou por uma dezena de partidos e não se identifica com nenhum deles. Confortavelmente, se coloca como um outsider, alguém que está em posição de criticar todos os figurões da política nacional, apontando os erros das gestões federais recentes. Gozando dessa imagem de independência, Ciro pode então se desvincular dos esquemas de corrupção da lava-jato e se vender como uma alternativa “de fora” para uma população que está de saco cheio dos políticos de Brasília.

Ciro Lorota tem resposta para tudo. Reforma da previdência, inteligência militar, comércio internacional, soluções para a agropecuária e a indústria. Não existe nada que ele não saiba responder com uma teoria, estatística tirada sabe-se lá de onde ou relatos pessoais e históricos. Sem titubear, responde tudo o que os jornalistas lhe perguntam e, aos desavisados, passa a impressão de alguém seguro e preparado.

Outra arte que Ciro domina é a dos debates, momento em que o poder da lorota funciona melhor. Num confronto com um adversário político, ele aumenta o tom da voz e sabe manipular bem a discussão, ora pautando o que está sendo discutido, ora minando o oponente com perguntas impossíveis de responder. Sempre que a coisa ameaça sair do controle, ele fala por cima do adversário e dispara sua metralhadora de lorotas (Rodrigo Constantino que o diga). Só alguém com grande inteligência emocional e traquejo político é capaz de enfrentá-lo num ocasião com esta.

Seu jeito direto e incisivo de falar, sem papas na língua, atinge em cheio o público, cansado das tradicionais embromações dos políticos. Essa mistura de sinceridade quase constrangedora e lorotas bem elaboradas conquista uma parcela importante do país, que costuma agir da mesma forma (brasileiro é palpiteiro por natureza: bravata é a sua especialidade). Ciro é “gente da gente”, no pior sentido do termo, pois carrega alguns dos mais relevantes defeitos do brasileiro típico. E, obviamente, o brasileiro tende a votar no candidato mais brasileiro, naquele candidato que mais se aproxima dele (eleitor).

Além disso, no atual cenário de “terra arrasada” da esquerda nacional, Ciro surge como uma opção com imagem relativamente limpa, longe dos escândalos recentes do Congresso e do Governo Federal. Tal qual Marina Silva, ele propositadamente se manteve distante da política nacional nos últimos anos, para se vender melhor como solução em 2018, uma eleição que promete privilegiar os outsiders (falsos ou verdadeiros) e os “não-políticos”.

Antes que me acusem de supervalorizar o ex-marido da Patrícia Pillar, devo ressaltar que Ciro Gomes tem evidentes problemas temperamentais, vários episódios conturbados em sua carreira política e sustenta nas costas (se confirmado como candidato das esquerdas) todo o ônus da gestão Lula/Dilma, mas tratá-lo como um “louco despreparado” é negligência que pode custar caro numa eleição presidencial. As chances de vitória de um candidato de esquerda (PT, PSOL, PDT e afins) em 2018 é quase nula, entretanto, o inegável talento político de Ciro Lorota pode fazer estragos durante a campanha. Convém não subestimá-lo.

Sobre o Autor

Sávio Mota

Sávio Mota é Diretor de Comunicação do Instituto Borborema, editor do Homem Eterno, jornalista e assessor de marketing. Cidade: Campina Grande-PB.

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