Existem dois processos muito distintos: o primeiro, confiando na capacidade intelectual inata de todo ser humano, deseja aprimorá-la e equilibrar a relação entre cognição e ser, de modo que o conhecimento esclareça o modo de agir e que a ação concretize, atualize e firme no ser o que ele sabe. À medida que esse mútuo fluxo ocorre, a pessoa submetida a esse processo tende a ir para fora de si sem, no entanto, deixar-se e o faz conservando uma forma harmônica.

Tal qual o corpo cresce sem deixar de ser o mesmo, o ser inteiro expande-se e busca transcender-se, mantendo o que sempre foi desde o princípio, em raiz. Na verdade, o ser expandido é mais o que sempre foi do que quando era no início, uma vez que a glória da potência é ver-se em ato.

Os meios para realizar esse processo consistem em tomar como exemplo as admiráveis personagens da história e da literatura, e em adquirir o conhecimento legado pelo melhor da humanidade. O agente desse processo, outrora sujeito dele, deve não só utilizar-se desses meios, mas personificá-los de maneira adequada.

O segundo processo, por temor e desprezo à capacidade intelectual humana, deseja mitigá-la, suprimi-la e fazê-la definhar, de modo a desordenar a relação entre cognição e ser. Consequentemente, o sujeito desse processo vê-se perdido em si mesmo e no mundo exterior, uma vez que a cognição e o ser, postos em desarmonia e inanição, deterioram-se em si e entre si, levando o sujeito à desorientação e ao caos.

Este estado de desorientação e incapacidade é precisamente o ponto ao qual os idealizadores deste processo desejam levar o sujeito, uma vez que pessoas assim incapazes anseiam freneticamente por uma orientação que, por não poderem encontrar em si, buscarão fora de si – mas sem partir de si. Ora, estes mesmos idealizadores, contando com isto, já se puseram de antemão a erigir todo um aparato de regramentos que atenderá a esses anseios que eles mesmos provocaram no sujeito e, assim, são infundidos neste mesmo sujeito certos comportamentos e valores conforme a vontade dos que dominam o dito aparato.

Formam-se então, neste processo, sujeitos esvaídos de si mesmos e assemelhado aos demais, todos amputados e diminuídos em sua humanidade, de modo que sirvam como peças ordinárias e dispensáveis de uma estrutura social que serve, em última instância, aos controladores remotos desse processo – a percepção deste quadro, no entanto, sempre escapará ao sujeito, o que há de garantir a estrutura e o controle. Os agentes deste processo podem ser mais ou menos conscientes de seus fins e métodos, mas acabam concorrendo para sua realização pontual em maior ou menor medida, e contribuindo em sua realização global eficazmente, dado que seu efeito se dá por somatória – um abismo atrai outro abismo.

O grande problema é que a ambos os processos se dá o mesmo nome – educação, quando, na verdade, o segundo processo goza do prestígio do primeiro, roubando-lhe os méritos, mas realiza função muitíssimo diversa e moralmente oposta.