Uma coisa boa dos episódios políticos recentes foi trazer à luz o mecanismo da mentalidade revolucionária – notadamente a esquerdista. Sim, pois antes de ser um “modo de produção”, uma tática política, etc., o comunismo e suas variantes são culturas inteiras, que moldam a forma do indivíduo perceber o mundo à sua volta, se relacionar com ele, estabelecer suas prioridades, conduzir relacionamentos, balizar decisões, etc.

Na maioria das vezes o derrame frenético de notícias, das análises ligeiras, dos escândalos de corrupção, do caos jurídico, pode concentrar nossa atenção na superfície da política partidária fazendo-nos perder de vista que esses episódios estão para suas causas profundas como a espuma da arrebentação está para as correntes oceânicas; pálidos reflexos de forças mais extensas, mais poderosas e bem mais duradouras.

Então, para facilitar a compreensão das múltiplas manifestações já vistas e ainda por vir, segue o pequeno resumo das principais características desse tipo de mentalidade.

Inversão do tempo:

Qualquer sujeito normal percebe o futuro como algo incerto e o passado como algo já consolidado. Ditos como “O futuro a Deus pertence” e “Não adianta chorar o leite derramado” são nada mais que maneiras que o senso comum, sedimentado na cultura popular, encontrou para cristalizar e repassar às gerações seguintes o conhecimento dessa linearidade imutável do aspecto temporal; ou seja, não podemos conhecer o futuro com absoluta certeza e não podemos mais modificar fatos já plasmado no passado.

Essa percepção instintiva não existe para o revolucionário. Para ele o futuro é certo e caminhará em direção à consolidação inevitável de sua ideologia. O passado, por sua vez, pode ser modificado, pois tudo o que dele sabemos é apenas uma questão de interpretação, de linguagem, e o que em dado momento é verdade, a depender da reinterpretação que se faça, pode tornar-se falso e vice-e-versa, ou, como bem iluminou George Orwell em seu romance “1984”: “Quem domina o passado domina o futuro; Quem domina o presente domina o passado.”

Por isso, para o revolucionário, o domínio da narrativa é ponto crucial do aparato militante. Não apenas o domínio do processo de ensino da narrativa, dos discursos, da linguagem, mas o domínio da própria mente no sentido de superar o instinto do senso comum.

Então não se espantem quando aquele seu amiguinho militante, levado pelo fluxo dos acontecimentos, defender tudo que odiava há uma semana atrás, e ainda se sentir ofendido se você disser que ele está em contradição. Entenda: dentro de seu horizonte de consciência não há contradição alguma, porque a percepção do passado não é um dado concreto mas resultado de uma interpretação, logo não é fixo, mas moldável e moldável segundo o princípio a seguir.

Inversão da moral:

Considerando o futuro como algo certo e sua ideologia como o melhor destino possível para a humanidade, o revolucionário deduz que os atos praticados pelo indivíduo só poderão ser corretamente julgados se colocados á luz do futuro que ele se vê como portador. Trocando em miúdos: certo e errado, bem e mal, não são dados objetivos; as ações podem ser boas ou más na medida em que contribuam ou não para a concretização do futuro revolucionário.

Essa é a razão pela qual militantes feministas consideram mais ofensivo uma mulher ser chamada de “bela, recatada e do lar”, do que um homem adulto cuspir no rosto de uma senhora e se gabar disso (como José de Abreu fez); ou militantes LGBT acharem mais ofensiva uma piada de Danilo Gentili do que a brutal perseguição contra os gays promovida pela revolução cubana; ou militantes dos direitos humanos se escandalizarem com o PM’s usando balas de borracha para conter um sem-terra armado, enquanto se calam quando, sob as ordens de Maduro, a polícia Venezuelana abre fogo contra manifestantes pacíficos, etc.

Não se trata de mera canalhice – embora contenha alto teor dela -, mas de uma forma específica de enxergar o mundo. Como os atos não possuem valor moral em si mas são escalonados conforme acelerem ou atrasem a consecução do futuro revolucionário, isso significa que a vileza do militante, quando empregada em função da revolução, será moralmente superior à virtude do não-militante, se praticada alheia ou contrária ao movimento.

Por isso não se espantem quando os ideólogos usarem dois pesos e duas medidas para julgar os mesmos atos. Entenda: em seu horizonte de consciência inexiste imoralidade no duplo padrão de julgamento, pois bem é o que ajuda na concretização da causa, mau aquilo que a atrapalha. O duplo padrão é a moralidade em estado bruto. Ponto.

Inversão sujeito-objeto:

Desses dois princípios brota um terceiro. Tendo sua ideologia como certa e seus atos como moralmente bons na medida em que a ela conduzem, para o revolucionário o mal só pode concentrar-se naqueles que fazem oposição a si e ao futuro do qual é portador. Ainda que este opositor esteja amarrado, torturado, pronto para ser fuzilado, com o rosto diante de um paredón, em última análise ele é o responsável por sua desgraça, pois foi sua incompreensão e rejeição do sublime futuro ideológico que forçou o revolucionário a matá-lo, ou seja: o revolucionário nunca é culpado, e a vítima, ainda que castigada, sempre é o verdadeiro algoz.

Isso explica os casos em que uma comunidade acadêmica de dezenas de professores e mais algumas centenas de alunos se diz perseguida e oprimida por um aluno solitário que ousa erguer a voz. Eles estão em centenas, o aluno não. Eles têm o poder, o aluno não. Eles têm a força do bando, o aluno não. Mas mesmo assim notas e notas serão feitas demonstrando como todos estão sendo perseguidos por aquele único estudante. E quando se reunirem para esmagá-lo, tomarão o próprio ato de sufocamento da voz discordante como prova da brutal perseguição a que estavam sendo submetidos.

Por isso não se espantem quando a militância se unir para perseguir alguém e quando questionada ofender-se mortalmente por não serem vistos como vítimas do injustiçado. Entenda: em seu horizonte de consciência eles sempre serão mártires de todos aqueles que atrapalharem o esquema ideológico e suas vítimas, sempre!, serão os reais algozes mesmo que destruídas. Aliás, sobretudo quando destruídas.

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Usem esse esquema para analisar sua timeline, as posições de professores universitários, jornalistas, religiosos, amigos, etc. e vejam como o padrão mental encaixa-se perfeitamente.

Obs: de onde eu tirei tudo isso? Ora, de onde mais seria? Dos ensinamentos do filósofo Olavo de Carvalho, o maior intelectual brasileiro vivo.