Por volta de dez meses, trabalhei em um escritório de advocacia. Nos meandros de meu ofício, tão logo constatei o aspecto teatral que permeia o cotidiano dos profissionais do Direito. Dos cumprimentos na entrada do fórum, às solenidades de uma audiência, tudo sempre me pareceu absolutamente farsesco. Mas era uma farsa necessária ao meu futuro profissional e ao devido adimplemento das cervejas do sábado. Segui em frente, pois. Estava firme de que não seria afetado pela atmosfera da praxe jurídica, até que, certo dia, estando eu sozinho no escritório, surge uma cliente à porta, e diz: – “Boa tarde, Dr. Caio!”

Fui chamado de “Doutor”. Por uma questão de caridade, sempre procurei tratar bem todo e qualquer cliente, com atenção e candura. No entanto, a Fulana me chamou de “Doutor”. Eu, mero estagiário, fui genuinamente passado como advogado. Levantei-me para recebê-la mais educadamente; conduzi-a até seu assento, e falamos de algumas trivialidades antes de adentrarmos nos assuntos processuais. Por alguma razão, meu sorriso estava mais largo; a voz, mais empostada; e a postura, garbosa como nunca. A falha de percepção daquela senhora havia deflagrado em mim a mais inebriante sensação de plenitude. Antes mesmo de meu chefe chegar, o atendimento estava perfeitamente concluído. A cliente foi embora satisfeitíssima. Da porta do elevador, ainda, despediu-se com um “Tchau, Doutor!” 

Saio do escritório. Voltando para casa, em meus pensamentos, só havia o Doutor. Não seria mais eu a tomar o 555, mas o Doutor (e que tamanha prova de humildade não dá um advogado que anda de ônibus!). Ainda estava embriagado quando cheguei. Na minha mente, preponderava o pensamento de que uma grande carreira na advocacia me aguardava: seria eu Doutor não só no fórum ou no escritório, mas para meus pais, meus sogros e os amiguinhos dos meus filhos; e nesses devaneios, terminei por vincular minha realização humana à ascensão profissional. Escovo os dentes, lavo o rosto. Antes de dormir, opto por uma leitura curta, e o Kindle me oferece “O Espelho”, conto de Machado de Assis. Finda a leitura, percebo: nós, brasileiros, estamos imersos na mais pungente tragédia vocacional.

O leitor pode estar confuso por conta da súbita mudança de tom ao final do parágrafo anterior. No entanto, paciência, pois o verdadeiro assunto deste texto é, justamente, minha experiência literária com o referido conto, a qual pretendo (sem mais digressões, prometo) expor a partir de agora.

Machado começa a narrativa apresentando-nos “quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas [debatendo] questões de alta transcendência [e] resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo“. A conversa acaba chegando na natureza da alma, e Jacobina tece a seguinte consideração:

Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas… […] Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… […] A alma exterior   pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. […] Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira: as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.”

Aqui, temos a introdução do argumento machadiano. É comum, nos contos de Machado de Assis, vermos a construção do argumento se dar por meio da criação de expectativa, e seu posterior desenvolvimento a partir de experiências humanas que quebrem a expectação inicialmente provocada. Não obstante, é justo nessa quebra em que se comprova a sugestão inicial do autor. Com isso, toda a narrativa carrega um ar de deboche. 

Vejam que, tanto as descrições do ambiente e das personagens, quanto a situação na qual estão inseridas, fortalecem um aparente clima de grandeza. A palavra “alma” é fundamental para compreendermos a dimensão irônica do texto, posto que, a “alma interior”, por olhar “de dentro para fora“, se dirige para algo além do homem. Simboliza a nossa natureza transcendente, em virtude do privilégio de sermos seres dotados de vontade, e ainda podermos dirigi-la para algo ou alguém além de nós mesmos. 

No entanto, há também a “alma exterior”, parte igualmente imprescindível à realização existencial, mas que, por olhar “de fora para dentro“, se encerra no próprio sujeito, mais ou menos como ocorre com os instintos animais. Logo, ilustrar a existência humana ancorada também nessa segunda alma, é reduzir sua dignidade, pois o aspecto diferencial do homem está, justamente, em sua natureza transcendental. Soa paradoxal, mas, como já explicado, é um elemento constitutivo do deboche machadiano.

Então, Jacobina põe-se a reconstituir a experiência originária de sua tese:

Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da  guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. […] E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o ‘senhor alferes’. […] Era o “senhor alferes”, não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples…”

Atingir a posição social de alferes foi o grande arroubo de Jacobina. Com isso, percebemos o retrato do típico vício brasílico de desejo por aprovação social. O brasileiro-médio, em geral, não é capaz de julgar-se a si próprio com base em vislumbres que não sejam de ordem materialista. Ganhar um espelho de presente simboliza exatamente como somos compelidos a viver enxergando-nos conforme os fetiches alheios. Pouco escutamos nossa própria voz, pois pouco sabemos que a possuímos. Não se trata de determinismo, mas de um modo de vida inerente à cultura na qual nascemos já imersos, e cujo combate requer toda uma estatura moral também barrada pelas mesmas circunstâncias culturais. Continuemos.

O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. [..] O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade.”

Após a experiência da solidão, enfim, resolve olhar-se no espelho:

“[…] não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; […] Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; […] Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro.”

Nessa parte, bem pude compreender o êxtase que se dera comigo quando fui chamado de doutor: todos os meus anseios pessoais foram momentaneamente suplantados em função do papel social que me fora atribuído. A “alma exterior” triunfa, no momento em que falseamos nossa personalidade de acordo com o aprofundamento nos personagens que julgamos ser. Já não se é mais uma pessoa real e concreta, mas um terno, um escritório, um cargo burocrático. No grito de proclamação da autoimagem, está o estertor da “alma interior”. Machado, enfim, consagra a ironia na revelação do autoengano.

Somos um povo que rejeita as inspirações da alma. As ruidosas exigências da vaidade amputam aquilo que Viktor Frankl chamava de “vontade de sentido“, que baseada na “autotranscendência da existência humana“, é explicada como sendo a tendência do homem em sempre apontar“para algo além de si mesmo, para algo que não é ele mesmo – para algo ou para alguém: para um sentido que se deve cumprir, ou para um outro ser humano,  cujo encontro nos dirigimos com amor. Em serviço a uma causa ou no amor a uma pessoa, realiza-se o homem a si mesmo. Quanto mais se absorve em sua tarefa, quanto mais se entrega à pessoa que ama, tanto mais ele é homem e tanto mais é si mesmo. Por conseguinte, só pode realizar a si mesmo à medida que se esquece de si mesmo, que não repara em si mesmo.”. 

Logo, observando o atual modo de vida do brasileiro-médio, facilmente constatamos quão distante estamos da busca genuína do sentido da vida e da realização existencial. “O Espelho” é a prova de que fazemos exatamente o contrário do que sugere Viktor Frankl: o elemento autotranscendente, no brasileiro, se torna anti-transcendente, na medida que nasce fincado num capricho tão enganoso quanto frívolo, e certamente nos jogará, cedo ou tarde, no abismo da frustração existencial.

Eis aí a tragédia vocacional brasileira. Nossa ‘profecia autorrealizável’, em função dos utilitarismos e imediatismos de cada dia, permanece inaudita; e optar por viver segundo a “alma exterior”, naturalmente, nos tornará tão adoecidos quanto Jacobina. Na verdade, não é bem uma “opção”. Vá lá que seja culpa do acaso. E se for, tanto pior, pois, como diz Ângelo Monteiro: “Somos o povo do acaso”. 

Sobre o Autor

Caio Perozzo

Caio Perozzo é Coordenador do Núcleo de Formação do Instituto Borborema e estudante de Direito.

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