Este é um texto de utilidade pública a todos os ingleses desse meu Brasil que venham visitar a Paraíba, mais especificamente Campina Grande. É importante deixar bem claro que falo de Campina Grande porque na Paraíba tem também João Pessoa, mas todo paraibano que se preze sabe que João Pessoa está na Paraíba, mas não é da Paraíba.

Sei que sou neófito, é apenas minha segunda vinda para cá, mas, acreditem, isso já me torna uma puta véia aqui. O primeiro contato com a Paraíba, de quem sai da região Sul pelo vôo da Gol que faz conexão no Rio de Janeiro, é que a Paraíba começa ali mesmo, no Galeão. Eu mal entrara no avião, ajeitando-me no assento, escutei um senhor vindo falando alto e pessoas rindo à volta. No que me vê, pára e não me pergunta se pode tirar uma foto a meu lado, já me levantando pelo braço, entregando o celular para uma moça tirar o retrato:

  • Tire, tire, tire que preciso me exibir no facebook ao lado desse inglês aqui, faz favor.

Risos. Só então reparo no sujeito. Camisa de Agostinho Carrara, de A Grande Família, desabotoada até quase o umbigo, correntinha dourada brilhando no peito, anéis nas mãos e me chocou as unhas imensas estilo cobrador de ônibus carioca dos anos 1980. O cabelo era branco, achei fosse velho, mas reparando melhor depois desconfio seja pintado. Depois fiquei sabendo que Marcelinho Paraíba estava jogando no Treze, mas acho não era ele.

Pois bem. Tal como na minha primeira viagem, havia no vôo algumas famílias de 4, 5, 9 pessoas voltando para casa. Há poltronas no avião, mas eles não costumam usar. No que o sinal de usar cinto de segurança apaga, é São João no céu. Se juntam em torno de uma fileira de assentos e ali ficam conversando e não param mais, salvo quando o avião está para pousar. Aí são momentos de tensão. Nas duas vezes testemunhei uma alegria padrão Galvão Bueno É Tetra quando o avião toca o solo. Nesta última, tinha os pais e 3 crianças na fileira atrás da minha, o que fazia qualquer turbulência algo de agradável. O avião mal pousara, veio o grito do pai:

  • SOLO PARAIBANO!
  • ALELUIA, AMÉM, ALELUIA MEU PAI! – respondeu a mãe

E palmas pelo avião todo. Nessa altura eu já deixara de ser inglês e me sentia em casa. Sim, aplaudi também. Na saída o Agostinho estava cantando a moça que tirou o retrato. Ela ria bastante.

No mesmo dia tinha semifinal do campeonato paraibano, o clássico Treze x Campinense.

  • Bora? – convidou-me um de meus anfitriões.
  • Bóra – respondi, sem sotaque algum.

Se o leitor inglês tiver oportunidade quando estiver por cá (estou aqui ainda), não perca a chance de ir para o Céu, literalmente. É mais fácil um rico ir para o Céu do que os torcedores entrarem no Amigão pelas agulhas das entradas disponíveis. Tumulto é pouco. Nem Moisés conseguiria abrir o mar de gente alvinegra para poder passar. Lembrei-me do Presidente Figueiredo que preferia cheiro de cavalo ao do povo. No caso, haviam ambos em torno. Entramos, não sei como, pois não estava com os pés no chão, sendo levado pelo povo eleito.

RAPOSA-E-GALO-567x410Dentro do estádio senti saudades do cheiro do povo, odeio maconha e a geral do Amigão é uma Holanda. O jogo já tinha começado, Marcelinho Paraíba em campo. Não era ele mesmo no avião, não tinha a mesma desenvoltura em campo. A idade chega para todos. Nem cinco minutos de bola rolando passa um cabra da moléstia do meu lado perguntando:

  • Tá no preme teme?

Respondi que “oxi, é claro”, afinal o jogo estava marcado para 18h30 e sendo 18h45 era óbvio que estávamos no primeiro tempo. Eu disse que me sentia em casa. Enfim, o Treze não ganhou, mas levou. Clima de Galvão Bueno É Tetra pelo estádio, Bela festa, alegria genuína, futebol raiz. E ainda tinha cerveja liberada: Paraíba não é Inglaterra, aproveite.

Estou agora no meu terceiro dia de estadia e calculem o quanto de história ainda tenho para contar. Tem um rapaz com algum problema mental no vizinho do apartamento onde estou que passa o dia todo cantando. Na frente da casa, uma oficina de gaiolas de passarinho. E conversas sem fim com quem quer que eu encontre. Por isso mesmo vou ficando por aqui que estão me esperando pra prosear.

Como não amar Campina Grande?