“Ri!, Coração, tristíssimo palhaço!”

(Cruz e Sousa)

A idéia mesma de revolução já traz consigo o pressuposto de demolição completa, de destruição total dos modelos do passado, de violenta ruptura com a tradição. Por isso, só muito raramente, a revolução é benéfica, como na passagem do politeísmo para o monoteísmo, por exemplo – se é que podemos chamar tal processo de revolucionário, visto que, neste caso, as duas concepções se apoiam num solo comum, que é o do sagrado –. Em contrapartida, a idéia de reforma pode ser benéfica, pois que, vezes por outra, o edifício do pensamento deve ser retocado. Não há dúvidas, por exemplo, de que a descoberta da perspectiva nas artes plásticas, creditada por muitos a Giotto, trouxe enormes benefícios à pintura. Mas se tratou de uma reforma, e não de uma revolução propriamente dita. Giotto era sábio o suficiente para saber, antes mesmo de Isaac Newton, que, por mais brilhantes que sejamos, seremos sempre “anões sobre os ombros de gigantes”.  Ao que parece, no entanto, o jovem Oswald de Andrade não tinha consciência disso.

Antes de mais nada, é necessário dizer que a Literatura Brasileira, por volta do final da década de 1910, precisava mesmo de uma sacudidela. Apesar de contar com escritores muito talentosos, como Raul de Leoni e o Manuel Bandeira da fase penumbrista – o Bandeira de A Cinza das Horas –, ela estava infestada de sub-parnasianos, como Hermes Fontes e Goulart de Andrade. O curioso é que apenas aqui, no Brasil, o Parnasianismo ganhou novo fôlego, como constatou Otto Maria Carpeaux, de forma certeira: “O neoparnasianismo é fenômeno particular da literatura brasileira. Aqui e só aqui fracassou o simbolismo; e, por isso, o movimento poético precedente sobreviveu, quando já estava extinto em toda a parte do mundo” (1967, p. 314). De fato, quase todos os grandes poetas do séc. XX, de T. S. Eliot a W. B. Yeats e R. M. Rilke,  sofreram sensível influência da estética simbolista. Não que o Parnasianismo deva ser desprezado. Longe disso. Pound e Baudelaire, dentre outros grandes escritores, reconheceram a importância da escola de Théophile Gautier. Mas o fato é que, em terras tupiniquins, o movimento chegou a um ponto de saturação quase insuportável, descambando para o puro e simples beletrismo farsesco. Foi a esse estado de coisas que o jovem Oswald de Andrade reagiu. Mas o resultado, como veremos, foi desastroso.

A reação ao epigonismo parnasiano partiu até mesmo de Manuel Bandeira, que confessa, no seu Itinerário de Pasárgada (1997, p. 320), que o poema “Os Sapos” foi uma sátira endereçada em especial aos neoparnasianos. Além de Bandeira, vários outros escritores brasileiros de valor, como Lima Barreto e Monteiro Lobato, mostraram, muito antes do advento da Semana de Arte Moderna, que a Literatura Brasileira precisava mesmo buscar novos ares. Neste sentido, não seria errado dizer que os rapazes de 1922 roubaram uma bandeira que já era hasteada pelos chamados pré-modernistas – rótulo bastante precário e impreciso, aliás. Uso-o porque não me vem à cabeça termo melhor, por ora–. Lima Barreto, seguindo a trilha aberta por Machado de Assis, buscava ter um olhar crítico em relação às feridas brasileiras, sobretudo ao nacionalismo caricato de Alencar e de Gonçalves Dias. E Lobato, escritor até hoje subestimado, desmistificou o caipira brasileiro de maneira implacável, contribuindo para criar, pouco a pouco, um delineamento mais preciso de nossa identidade nacional…

A esta altura, o leitor deve estar se perguntando: onde entra Oswald de Andrade nessa história toda? Pois bem: Oswald, jovem de espírito irrequieto e indomável, entra justamente por onde não deveria ter entrado, ou seja: pelas portas abertas pelos vanguardistas mais revolucionários, mais extremados, como Filippo Tommaso Marinetti e Tristan Tzara, ícones do Futurismo e do Dadaísmo, respectivamente. (E uso de propósito, aqui, a expressão vanguardistas radicais, pois que nem todas as vanguardas foram infrutíferas.  Há algumas conquistas estéticas interessantes nas chamadas Vanguardas Européias – embora, de uma maneira geral, elas tenham fracassado –. Os surrealistas, por exemplo, produziram algumas coisas de valor, retomando o legado místico do Simbolismo e influenciando de maneira decisiva dois dos maiores poetas do Brasil: Jorge de Lima e Murilo Mendes. Já os expressionistas, além de terem influenciado de maneira indireta o nosso Augusto dos Anjos, produziram pelo menos um poeta de grande qualidade: Georg Trakl – que, segundo Carpeaux, é um dos quatro maiores poetas de expressão alemã de todos os tempos (ao lado de Hölderlin, Goethe e Rilke) –. Mas deixemos de delongas e voltemos falar de Oswald, que até hoje, de maneira injustificável, ainda é um dos escritores mais estudados e festejados da Literatura Brasileira.)

Segundo Manuel Bandeira – e não temos motivo para duvidar dele – “Oswald de Andrade era um inconsiderado, sem lastro sério de cultura, e todo ele estava naquela opinião que omitiu acerca de certo livro de sucesso: não li e não gostei” (Flauta de Papel, 1958, p. 397); além do mais, ainda segundo o Bandeira, “era um folheador de livros, não um leitor. ‘Segundo uma senhora muito de sua intimidade, ele nunca teve a paciência de ler um livro da primeira à última página’ [diz-nos René Thiollier, seu amigo de longas datas]. Quando [Oswald] se preparava para o concurso de uma cátedra de Literatura em São Paulo, veio ao Rio conversar com vários amigos acerca de sua tese, que versava o tema dos árcades mineiros. Eu [Manuel Bandeira] fui um desses amigos. E fiquei assombrado quando, falando em Sannazaro, Oswald me olhou surpreso e perguntou: — Quem é Sannazaro? Corri com Oswald: — Puxa, Oswald! Pois você está escrevendo uma tese sobre os árcades e não conhece o autor da Arcádia?” (idem, p. 479). Ainda que Oswald fosse um sujeito muito erudito, sua obra poética deveria ser desprezada, tanto pelo humorismo tosco, bem ilustrado pelo seu famoso poemeto “amor/humor”, como pelas suas soluções rítmicas fáceis e propositadamente infantis. O grande mal de Oswald foi que ele – conscientemente ou não – confundiu simplicidade com puro e simples deboche provocativo. E com um deboche, em geral, pouco criativo.

Não que a poesia deva sempre tratar das coisas grandes e graves, como nos  sugere Rainer Maria Rilke, em suas famosas Cartas a um jovem poeta. Mas há sátiras e sátiras. Há a sátira refinada e que leva à reflexão, como a de Bocage ou a de Gregório de Matos, por exemplo, e há a sátira pobre e inócua, que, pela sua superficialidade e tosquice, é mais apropriada a programas de humor de quinta categoria, como Zorra Total ou Os Caras de Pau. E, de fato, a poesia de Oswald era pau: “A Poesia Brasileira vai entrar para a Liga Nacionalista. Oswald de Andrade acaba de deitar manifesto — uma espécie de plataforma-poema daquilo que ele chama a Poesia Pau-Brasil. Eu protesto. Em primeiro lugar esta história de pau-brasil é blague. Quem na minha geração já viu o famoso pau? Não há mais pau-brasil. O que havia foi todo levado para a Europa pelos piratas franceses dos séculos XVI e XVII. Acabou-se, ainda no tempo em que se escrevia com ‘z’ e servia para a tinturaria. Poesia Pau-Brasil. O nome é comprido demais. Bastava dizer Poesia Pau. Por inteiro: Manifesto Brasil da Poesia Pau. Porque a poesia de programa é pau. O programa de Oswald de Andrade é ser brasileiro. Aborreço os poetas que se lembram da nacionalidade quando fazem versos. Eu quero falar do que me der na cabeça. Quero ser eventualmente mistura de turco com sírio-libanês. Quero ter o direito de falar ainda na Grécia” (BANDEIRA, Seleta em Prosa e Verso, 1971, p. 72-73).

Eu não duvido de que o autor do Primeiro caderno do aluno de poesia… tivesse verdadeiro talento para a Literatura. Em meia dúzia de poemas, assim como na peça O Rei da Vela, o agitador cultural paulista se mostra um escritor inspirado. Senão, vejamos:

Ocaso

No anfiteatro de montanhas

Os profetas do Aleijadinho

Monumentalizam a paisagem

As cúpulas brancas dos Passos

E os cocares revirados das palmeiras

São degraus da arte do meu país

Onde ninguém mais subiu

Bíblia de pedra sabão

Banhada de ouro das minas

***

Noturno

Lá fora o luar continua

E o trem divide o Brasil

Como um meridiano

 

***

Ditirambo

Meu amor me ensinou a ser simples

Como um largo de igreja

Onde não há nem um sino

Nem um lápis

Nem uma sensualidade…

 

É evidente que não são composições geniais. Mas mostram que, se o autor não tivesse levado tudo na base da blague e da pilhéria inconsequente, poderia vir a se tornar um bom poeta de tom menor, para usar uma expressão cara ao confrade e amigo João Filho.

Há algo da serenidade desses poemas na surpreendente amizade do velho Oswaldo com Gustavo Corção. Sim, no fim da vida, Oswald soube, finalmente, ter a candura do “largo de igreja” de que nos fala no poema “Ditirambo”:

Abraçamo-nos. Entre duas colheradas sorvidas vorazmente perguntava-me se estava escrevendo outro livro e interessava-se por meus projetos. Devorava a canjica, e devorava-me a mim, com a mesma grande fome, com a mesma grande boca aberta para a vida e para o mundo. Antonieta, a excelente e compassiva Antonieta, fazia-me agora por trás dele, sinais misteriosos. Apontava com insistência para a própria blusa e depois para o companheiro coroado de sangue. Entendi afinal que devia olhar para o peito de Oswald, e descobri então meia dúzia de santinhos pregados no seu pijama. Ali estavam as medalhas de nosso bravo corsário, as condecorações de suas últimas façanhas. Notando uma delas, uma humilde medalhinha milagrosa de alumínio, pedi à Virgem Santíssima que tomasse conta daquele filho voraz e que lhe ensinasse aquela passagem de seu cântico — esurientes implevit bonis — que é um compêndio de filosofia antropofágica do céu. (Gustavo Corção. O Globo, em 4 de novembro de 1971)

Sim. Os extremos se atraem, como previra Heráclito, em sua Enantiodromia. E, antes mesmo de Heráclito, o salmista: “Um abismo chama outro abismo” (Sl 42, 7). Que Deus, em seu Amor mais profundo do que todos os abismos,  tenha misericórdia do velho Oswald e de todos nós.

________

ANDRADE, Oswald de. Poesias Reunidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

BANDEIRA, Manuel. Flauta de Papel. In: Manuel Bandeira: Poesia e Prosa (vol. 2). Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958, p. 397 e 479.

BANDEIRA, Manuel. Seleta em Prosa e Verso. Org. Emanuel de Moraes. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1971, p. 72-73.

CARPEAUX, Otto Maria. Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, com Apêndice de Assis Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967.