Filha do discurso politicamente correto, a Escola do Ressentimento é o epíteto dado pelo crítico literário norte-americano Harold Bloom (foto) à “rede acadêmico-jornalística que deseja derrubar o Cânone [literário] para promover seus supostos (e inexistentes) programas de transformação social” [i]. Alicerçados no marxismo cultural, no pseudo-intelectualismo coletivista gramsciano e no neo-historicismo de Foucault, os Ressentidos pretendem reduzir a Literatura a uma caixa de ressonância da luta de classes e das ‘energias sociais’: “O princípio cardeal da atual Escola do Ressentimento [afirma Bloom] pode ser exposto com singular brutalidade: o que se chama de valor estético emana da luta de classes” [ii]. “Esse barbarismo tomou conta da imprensa cultural. Essas pessoas não sabem mais ler, desconfio que nem gostem de ler. Ler livros complexos dá trabalho, e essa gente é contra o esforço” [iii]. “Essa gente é contra o esforço” precisamente porque deseja que a arte literária se transforme numa espécie de veículo de propagação ideológica. Desta forma, o que menos importa são as peculiaridades estilísticas do autor e a dimensão estética da obra; o que efetivamente vale é transmitir, de maneira objetiva e digerível, uma visão de mundo em que o ideário socialista seja alçado a patamares idílicos, mesmo que para tanto a História do Ocidente precise ser maliciosamente distorcida.

Esse tipo de compreensão do fenômeno literário é facilmente refutável, uma vez que “o valor estético é por definição engendrado por uma interação entre artistas, uma influência que é sempre uma interpretação [da obra do predecessor]” [iv], pois “a tradição não é apenas um passar adiante um processo ou transmissão benigna; é também um conflito entre o gênio passado e a aspiração presente, em que o prêmio é a sobrevivência literária ou a inclusão no cânone”[v]: daí por que dificilmente é moldada por fatores externos, extra-artísticos.

Assim sendo, um escritor como Shakespeare, por exemplo, não pode ser reduzido a mero produto das “forças sociais” do Renascimento inglês, como querem os Ressentidos, pois isto seria colocá-lo no mesmo nível de autores consabidamente menores, que inclusive foram influenciados por ele, como John Webster e Thomas Middleton. Shakespeare é canônico porque influenciou enormemente escritores do quilate de Milton, Goethe, Poe, Dostoiévski, Ibsen, Eliot, Joyce, Beckett, dentre muitos outros – construindo ele próprio uma rica linhagem, cuja influência na sociedade é imensurável –, e não por representar os valores de uma “elite opressora”, como quer Michel Foucault.

No fundo, o desejo dos partidários da Escola do Ressentimento é superestimar o conteúdo em detrimento da forma, como se a singularidade estilística não fosse ela mesma a condição sine qua non para a existência da obra de arte; como se a obra pudesse ser reduzida a uma paráfrase de si própria. É a chamada heresia de Brooks: “A heresia a que Brooks se referiu é a de achar que uma paráfrase pode abarcar o significado de um poema” [vi]. Ao buscar na literatura antes de tudo a mensagem, a Escola do Ressentimento incorre na mesma heresia.

Como bem observou o filósofo inglês Roger Scruton, o artista não deve se curvar a fins utilitários: o que deve guiá-lo é o desejo de transmitir a beleza de forma desinteressada. O tema jamais pode ser o ponto de partida. “A poem should not mean/ But be”, como certa vez escreveu Archibald Macleish. A grande arte, como demonstra Scruton, paira acima de todo proselitismo, de todo corpo a corpo ideológico, como no caso de Van Gogh: “Suponha que você me pergunte qual é o conteúdo do quadro da cadeira amarela, de Van Gogh: o que ela realmente ‘significa’?, você indaga. O que devo ‘compreender’ acerca dessa cadeira, ou do mundo, ao olhar para a imagem? Eu poderia muito bem responder que se trata de uma cadeira e nada mais. Se for esse o caso, porém, o que tornaria aquela imagem tão especial? A fotografia de uma cadeira não teria o mesmo efeito? Por que viajar tantos quilômetros para se ver diante do retrato daquele objeto? A isso, eu talvez declarasse que a pintura de Van Gogh diz algo de especial sobre aquela cadeira e sobre o mundo que se vê através dela” [vii]. É precisamente esse “algo de especial”, essa singularidade estilística – razão de ser da obra de arte — que os partidários da Escola do Ressentimento, sob a alegação de nobres propósitos humanitários, estão dispostos a varrer do mapa.

Não há maior forma de discriminação do que o discurso politicamente correto, visto que este divide o gênero humano em categorias, como se, por uma espécie de decreto infalível e inefável, as obras de certos grupos sociais merecessem ser julgadas com foro privilegiado. É como se alguns, devido a contingências históricas de controversa interpretação e enorme complexidade, tivessem de ser, imediatamente, reembolsados pelos descendentes dos crudelíssimos homens caucasianos. Assim sendo, o que no início parecia um comportamento que indicava respeito ao próximo, tornou-se um veículo de supressão da subjetividade e, por conseguinte, das potencialidades criativas do homem. O ensaísta Luiz Felipe Pondé, em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (São Paulo: Leya, 2012), nos fornece uma lúcida síntese da questão:

O politicamente correto é um ramo do pensamento de esquerda americano. Se pensarmos no contexto onde ele nasceu, veremos a ascensão social dos negros americanos no final dos anos 60. Fenômeno semelhante aos gays a partir dos anos 80. A semelhança apenas comprova a tese: assim como a ascensão social dos negros nos anos 60, a ascensão social dos gays nos anos 80 gerou o que podemos chamar de mal-estar com relação ao mau tratamento dado aos gays na vida social comum. Se você encontra negros (ou gays) no mesmo restaurante em que vai jantar, começa a ficar feio dizer piadas desagradáveis diante deles. Antes de tudo, trata-se de um problema de educação doméstica.

Mas, pelo fato de ter sido um fenômeno que entrou para a agenda da nova esquerda americana, a necessidade de melhores maneiras no convívio com os negros acabou por se transformar num programa político de criação de uma nova consciência social– mantras como esse me dão alergia. A diferença entre a velha esquerda e a nova esquerda é que, para a velha, a classe que salvaria o mundo seria o proletariado (os pobres), enquanto, para a nova, é todo tipo de grupo de excluídos: mulheres, negros, gays, aborígines, índios, marcianos… (…) O politicamente correto, assim, nesse momento, se caracterizará por ser um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social desses grupos e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão. Daí foi um salto para virar ações afirmativas, isto é, leis e políticas públicas que gerassem a realização do processo (cotas de negros, gays, índios nas universidades e nas empresas, por exemplo). Associado a isso, a universidade começou a produzir (sendo a universidade sempre de esquerda) teorias sobre como a ideologia (estamos falando de descendentes diretos de Marx) de ricos, brancos, homens heterossexuais, ocidentais, cristãos criaram mentiras para colocar as vítimas (os grupos de excluídos citados acima) como sendo menos inteligentes, capazes, honestos etc. O próximo passo foi a criação de departamentos nas universidades dedicados à crítica da ideologia dos poderosos.

Para entender que o politicamente correto é uma tramóia completamente desonesta, basta que o QI do sujeito seja superior a 12. Quando observamos, por exemplo, a influência dessa praga na esfera da Literatura Brasileira, por exemplo, podemos verificar com maior clareza o maquiavelismo da ardilosa tática, autocontraditória desde a raiz. A título de amostragem, vejamos:

  • O escritor (branco) Caio Fernando Abreu, que não passa de uma versão gay e subnutrida de Clarice Lispector, é bastante estudado em nossas universidades não por ter sido gay, mas por possuir um imaginário eivado do decadentismo. Não fosse assim, o homossexual Lúcio Cardoso, ficcionista inequivocamente superior ao autor de Morangos Mofados, não teria sido relegado a um semi-ostracismo pela academia. E o foi, sobretudo, por causa de sua cosmovisão cristã.
  • O Poeta (negro) Cruz e Sousa, um dos maiores simbolistas da Língua Portuguesa, é, atualmente, muito menos estudado do que o subpoeta neomarxista (negro) Solano Trindade. É que, para os politicamente corretos da Escola do Ressentimento, o valor estético de uma obra é algo completamente secundário. O que importa, ainda que o escritor pertença ao que eles chamam de minoria, é que o poema faça as vezes de panfleto ideológico.
  • Em que pese ser Cecília Meireles uma das maiores poetisas de nossa Língua, os críticos contemporâneos preferem estudar Ana Cristina Cesar, visto que a visão de mundo da escritora “marginal” é acentuadamente feminista.

Conclui-se, portanto, que o discurso politicamente correto, antes de ser um escudo para os fracos e oprimidos, é o Cavalo de Tróia dos neomarxistas. Por trás de palavras e atitudes impregnadas de doçura, pseudo-caridade e bom-mocismo, há a idéia de que devemos discriminar (segregar) os seres humanos e negar peremptoriamente virtudes como a dedicação aos estudos, a técnica, o rigor e o talento.

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[i] BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010. p. 14 e 15.

[ii] Idem, Ibidem, p. 37.

[iii] BLOOM, Harold. In: PIZA, Daniel. Perfis e entrevistas. São Paulo, Contexto, 2004, p. 84.

[iv] BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 38.

[v] Idem, Ibidem, p. 20.

[vi] SCRUTON, Roger. Beleza. São Paulo: É Realizações, 2013, p. 121.

[vii] Idem, Ibidem, p. 119.