A poética de Ângelo Monteiro

Angelo-Monteiro

“A finalidade da literatura não é política, em si; consiste em aumentar, aperfeiçoar e elevar o patrimônio espiritual da humanidade.” (Murilo Mendes)

Nascido na cidade de Penedo (AL) em 1942, mas desde criança radicado em Pernambuco, Ângelo Monteiro é, certamente, um dos maiores poetas brasileiros em atividade. Tendo sido elogiado por intelectuais do quilate de Alberto da Cunha Melo – seu colega de Geração (ambos pertencem à famosa Geração de 65) – de Olavo de Carvalho, de Bruno Tolentino e de César Leal, Monteiro já publicou mais de duas dezenas de livros, que vão desde ensaios filosóficos a livros de poesia lírica.

Desgraçadamente, no Brasil – que Manuel Bandeira, não sem razão, disse ser a porção mais triste da América infeliz –, o interesse pela Literatura é bastante escasso. E por isso mesmo é quase um milagre que – em meio a um tempo tomado pelas trevas da vulgaridade, tempo em que a busca hedonística de prazeres efêmeros e o culto irracional ao relativismo estético imperam – a grande poesia ainda resista.  E resiste, sobretudo, porque, contra tudo e contra todos, ainda existem alguns escritores – bem poucos, é verdade – que se recusam a cultuar oramerrão cotidiano, em cujo horizonte só cabem as ordens do dia, e os editais e proclamas da mediocridade dominante” (MONTEIRO, 2004, 61), mediocridade tão festejava por grande parcela da chamada pós-modernidade.

Mas Ângelo Monteiro não se preocupa em ser moderno, pois, como Drummond, sabe-se eterno[i]. Sabe que o novo na arte não tem que ser sempre um escândalo ou uma ruptura; pode ser – e na maioria das vezes é – o resultado de sutil exploração e aprofundamento temático e estilístico” (GULLAR, 2006, p. 13). Daí ter optado, muitas vezes, pela forma tersa e tradicionalíssima do soneto, que, a despeito de ter sido condenada pelos sectários de Marinetti, Tristan Tzara et caterva, continua sendo a maneira mais eficaz de exprimir uma espécie de poesia que T.S. Eliot chamava de sensuous thought poetry, cuja principal característica é a transfiguração estético-verbal de uma visão de mundo (na acepção diltheyana do termo, isto é, no sentido de Weltanschauung).

Assim sendo, a concepção monteiriana de poesia não se distancia muito da de Fernando Pessoa – poeta que pensava o que sentia e sentia o que pensava (“O que em mim sente está pensando”) –, para quem poesia é “música que se faz com idéias”, música do logos. Tendo como centro vital a metáfora e a alegoria, a poesia é indissociável do mythos, o que lhe garante sua função de “fundadora do Ser”, como oportunamente percebeu Martin Heidegger. É neste sentido que a obra poética de Ângelo Monteiro pode ser considerada uma Gnose – não na acepção de heresia gnóstica, mas na de um saber superior:

A poesia de Ângelo Monteiro é, indiscutivelmente, uma poesia difícil! Misteriosa, sibilina, ela nos lembra algo semelhante ao que os metafísicos ingleses produziram. Quem já leu Donne e Blake entenderá o que estou pretendendo dizer. Mística, impregnada de religiosidade, tocando muitas vezes as fímbrias do sobrenatural, mergulhando outras vezes numa atmosfera que, por estar carregada de extrema luminosidade, nos cega e nos aterroriza. Associemos, portanto, o mistério dos poetas metafísicos ingleses ao misticismo poético de São João da Cruz (Noite Escura e Subida do Monte Carmelo) e de Santa Tereza, a Reformadora (Os sete Castelos da Alma) e teremos a poesia de Ângelo Monteiro (apud MONTEIRO, 2008, p. 19-20).

Embora estas sejam algumas das principais fontes da poética de Ângelo Monteiro – acrescente-se à lista supracitada os sonetos metafísicos de Antero de Quental, os poemas místicos de Alphonsus de Guimaraens e de Fernando Pessoa (sobretudo do Pessoa ortônimo), a opulência metafórica e a sintaxe sinuosa de Góngora e de Quevedo e a lírica cristã de Jorge de Lima – tão singular e complexa produção poética escapa a toda e qualquer tentativa de exegese que se pretenda definitiva. É que em poetas do nível de Monteiro, aquela concepção novalisiana segundo a qual a poesia só pode ser explicada poeticamente parece ser, de fato, a única maneira de se aproximar da esfinge. Assim também o entendeu o próprio poeta, ao considerar o mistério – entendido como dimensão inefável da existência – a “lei suprema” da arte poética:

DA INAUGURAÇÃO DO POEMA


Falar não basta a quem nasceu com o fado

de espalhar a beleza e o dom de amar.

A palavra só vale, se gerar

alguma coisa além do formulado.


De harmônica leveza no traçado,

que seja a frase aérea e linear.

Sem que se deixe nunca de lembrar

que a ordenação não peque pelo enfado.


Lúcido, quanto à forma; e quanto à essência,

que determina a forma do poema,

é mister se elabore em chão de ausência.


Colhendo o inesperado e o pressentido:

pois foi sempre do verso lei suprema

de que só no mistério tem sentido.

(Ângelo Monteiro)

Antonin Artaud, num momento de rara inspiração, parece ter vislumbrado esse mistério de que nos fala Monteiro: “A arte não é a reflexão da vida, mas a vida é a reflexão de um princípio transcendente com o qual a arte nos volta a pôr em contato” (apud BLAKE, 1984, p. 37). E a reflexão desse princípio transcendente em Ângelo se dá mediante uma transfiguração estético-verbal de sua weltanschauung (cosmovisão). Tal visão de mundo, transfigurada e perpetuada através da expressão memorável da poesia, só pode ser entendida parcialmente e, mesmo assim, através da linguagem simbólica da arte – bom exemplo disso é a poesia de São João da Cruz. Há, portanto, uma dimensão ontológica algo kierkegaardiana na poesia monteiriana, dimensão esta sintetizada de maneira exemplar por Jean-Paul Sartre (que nem sempre errava, embora errasse quase sempre):

A vida subjetiva, na própria medida em que é vivida, não pode jamais ser objeto de um saber, ela escapa ao conhecimento… Essa interioridade que pretende afirmar-se contra toda filosofia, na sua estreiteza e profundidade infinita (…), eis o que Kierkegaard chamou de existência (SARTRE,1979, p.8, grifo nosso).

A existência, portanto, só pode ser compreendida através de algo que está para além do conhecimento meramente conceitual, e esse algo é precisamente o mundo do espírito. Nesse aspecto, “a lei suprema de que [o verso] só no mistério tem sentido” – para usarmos as palavras do próprio poeta – nos faz lembrar  do enigmático silêncio de Abraão a caminho do Monte Moriá, que nos é recontado por Søren Kierkegaard, no livro Temor e Tremor.  A poesia de Monteiro, nessa perspectiva, seria a própria “voz do inefável”, caso queiramos fazer uso da feliz expressão de Goethe. Essa concepção de que a razão pura e simples é insuficiente para abarcar a complexidade do real é bem ilustrada no soneto abaixo, no qual “sol” pode ser interpretado como uma espécie de metáfora do racionalismo:

Em nosso sol se instala o Inimigo
se afirma em cada passo que o renega
em nossas águas seu negror navega
se esconde em nossa vinha e em nosso trigo.

Ao próprio Amor domina o Inimigo
ao torná-lo mais dócil em paixão cega.
A nossa inteira vida a ele se apega
e contra ele é vão qualquer abrigo.

Das nossas próprias ânsias se sustenta
dos nossos próprios gritos se arrebata
e sua teia é tão longa quanto lenta.

Sempre belo se veste de gerânios
e jovem como a luz – que não tem data
– nos sepulta nos seus subterrâneos.

(Ângelo Monteiro)

Como podemos facilmente depreender, Monteiro escreve poesia atemporal. Por poesia atemporal entenda-se aquela que, por possuir inquestionável valor estético e simbólico, transcende os acidentes e as contingências do aqui e agora, ou, fazendo uso da já consagrada terminologia platônica, é aquela voltada para as questões essenciais da existência – e tais questões, por constituírem o fundamento ontológico comum à espécie humana, jamais perderão a atualidade –.

De fato há na lírica de Ângelo aquele alicerce filosófico sem o qual, para G. K. Chesterton, a poesia tende a se tornar oca. É que, ao se voltar para as questões verdadeiramente fundamentais da condição humana – como a finitude, o exílio do homem, o sentido último da vida, a presença do numinoso, etc – Monteiro, à maneira do Rilke das Elegias de Duíno, nos põe face a face, como já foi dito, com os grandes mistérios da existência, devolvendo à poesia o seu papel primordial, que é de fecundar o imaginário, educar os sentidos, apontar para a transcendência, criar uma sensibilidade suplementar que permita ao homem apreender a realidade de maneira mais ampla e, sobretudo, de tentar exprimir “a linguagem da flor e das coisas sem voz”, como tão bem intuiu Charles Baudelaire. Daí não ter sido à toa que o nosso poeta escolheu o título de Todas as Coisas Têm Língua para nomear a coletânea que reúne a maior parte de sua obra poética, uma vez que o autor de O Exílio de Babel sempre teve a convicção de que cabe à poesia a excelsa tarefa de traduzir “a linguagem divina através da qual a natureza se expressa”, como tão bem sintetizou o filósofo irlandês George Berkeley. Neste sentido, podemos dizer que o poeta é uma espécie de Prometeu, ainda que o destino daquele seja, no mais das vezes, menos trágico.

Portanto, se há um epicentro na lírica de Ângelo Monteiro, esse epicentro é o mistério. Não aquele pseudomistério de certas historietas góticas ou o mistério kitsch, que a indústria cultural transformou em mercadoria enlatada. Mas o mistério que aponta para a transcendência, para as bodas místicas – em suma: é o vislumbre do mysterium tremendum de que fala o teólogo alemão Rudolf Otto. E esse mysterium tremendum percorre toda a obra poética do grande vate nordestino, desde Proclamação do verde (1969), seu primeiro livro de poemas, até o recentíssimo Lições de Passagem (Cepe, 2017), obra em que encontramos aquele tom elegíaco e crepuscular tão ao gosto de Hölderlin de Leopardi.

Eis aqui, expostas sucintamente, as algumas das características fundamentais do poeta que, para o filósofo Olavo de Carvalho, consegue – em meio a um mundo dominado pela decadência antropológica e cultural e, por conseguinte, pela hipocrisia– ser “um escândalo de autenticidade num universo de fingimento”.

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BIBLIOGRÁFIA BÁSICA

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Edição biligue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

BERKELEY, George. Os pensadores: Berkeley/Hume. 5 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1992.

BLAKE, W. Escritos de William Blake. Tradução de Alberto Marsicano e Regina de B. Carvalho. Porto Alegre: L & PM, 1984.

GULLAR, Ferreira. Sobre arte, Sobre poesia (Uma luz do chão). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

KIERKEGAARD, Søren. “Vida e obra”. In____ Kierkegaard [Coleção Pensadores]. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
MONTEIRO, Ângelo. Escolha e Sobrevivência. São Paulo: É Realizações, 2004.

 ___________.Todas as Coisas têm Língua. Recife: CEPE, 2008.

NOVALIS. Pólen. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Iluminuras, 2009.

 OTTO, Rudolf. O sagrado – os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. São Leopoldo : Sinodal/EST; Petrópolis : Vozes, 2007. P. 17.

PESSOA, Fernando. Obra poética (volume único). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

SARTRE, Jean-Paul . “Vida e obra”. In____ Kierkegaard [Coleção Pensadores]. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

[i] Penso aqui nos famosos versos de Drummond: “E como ficou chato ser moderno. /Agora serei eterno” (do poema “Eterno). Cf. ANDRADE, Carlos Drummond de.  Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1998.