Nas tardes ensolaradas de veraneio à beira-mar, depois de me impressionar com o vigor das ondas que se lançam impetuosas para o alto antes de prosseguirem no seu esforço interminável de lavar a praia, deixava meus olhos assossegarem-se ante ao espetáculo da regularidade do mundo, aquela linha perfeita na qual o mar sustenta o firmamento. A amplitude que se oferece à vista despertava-me uma estranha ambição ou esperança. Era tanta a paisagem, era tanto o mar, eram tantos os ares e tantas as distâncias que naquele momento tudo parecia possível, parecia disponível. O mundo se abria como dádiva com o convite da inesgotabilidade. Com uma respiração profunda, a maior que poderia dar, é que eu começava a tomar parte do que me era ofertado. Ali eu ficaria por horas. No exame da vastidão da paisagem, gostava de imaginar o destino dos navios que se deitavam no horizonte até não poderem mais ser vistos. Forçava os olhos, acompanhando-os até que não se pudesse mais distingui-los. Perguntava-me se era possível ver, além do mar e céu, outras terras. Fixava então o olhar ora à frente, onde esperava ver a África, ora para a esquerda, onde mais longe, talvez atrás do Tenerife, se espalharia a Europa.

Tenho que confessar que o esforço de rasgar os horizontes foi inócuo. Para me tranquilizar quanto as minhas capacidades visuais, disseram-me que a terra era redonda e que seria impossível tanto para mim quanto para qualquer outro conquistá-la num só lance de vista. Talvez essa decepção com o mundo físico, que manhoso traz nos limites de sua curvatura o ardil com o qual se faz crer infinito, tenha inaugurado minha instrução sobre a condição deste mundo em que o que se parece não é e que a cada passo em qualquer direção pode se estar descendo um pouco. Pouco a pouco, malogro ante malogro, fui me acostumando com a idéia do mundo que confunde, que oferta, mas não entrega, e para o suportar, percebi ser preciso não me deter em inesgotáveis razões, conjecturas, explicações, mas sim dosar o que me chega aos olhos com a desconfiança dos acidentados e seguir adiante.

Agora erguem-se vozes fervorosas contra a mentira secular da curvatura da terra. Apologistas vêm socorrer o povo vulgar que humilhado entregou sua consciência aos intérpretes de laboratório. Cai por terra o vitorioso engano pitagórico que Colombo quis provar sob os auspícios dos Reis Católicos, mas que só se tornou convincente, para horror dos Titãs, os filhos da Terra, a partir da viagem que Fernão de Magalhães conduziu vivo e morto. Esse engano que hoje é mantido por cabalísticos institutos de pesquisa e agências governamentais não menos esotéricas. Agora a hipótese da terra redonda sofre pela intrépida vigilância daqueles que desafiam as explicações oficiais.

Não sei o que fazer com essa informação dos terraplanistas. Em razão de outras decepções que se sucederam, dificilmente o dado de que a terra é como uma pizza – assim como me sugeriam os olhos – seria consolador no sentido de se fiar na exatidão dos sentidos para se dissipar as incertezas. Para falar a verdade, perdi o interesse. Na querela da terra esférica ou plana, permaneço equidistante, além da linha da indiferença.

Confesso, no entanto, que tenho a mais ardorosa convicção numa outra teoria sobre a forma da terra. Diante das reiteradas experiências que pude colecionar, minhas e que me foram contadas, estou convencido de que a terra é chata. Mas não se deixem levar pela confusão terminológica. Embora, ainda se pudesse dizer, na minha teoria, que a terra é plana, tendo em vista a platitude das possibilidades de nossas vidas sob o céu, a sinonímia é enganosa. A acepção tomada nesta teoria diz respeito à qualidade fundamental desta terra, na qual vemos tudo como por um espelho, com o desconforto e frustração. Dentre todos os aspectos com os quais o mundo se apresenta a nós, a chatice emerge como fator dominante e condicionante. Ela é a barreira imediata a todas as aspirações que nos brotam do fundo da alma, é a resposta às esperanças temporais e é a certeza de que não se pode estar satisfeito aqui nesta terra. Quanto mais se vive, mais é possível perceber que é essa a real forma do mundo.

A teoria que advogo é também muito antiga e contou o a adesão dos mais lúcidos homens que nos precederam. Para apoiar meu argumento, deixo-vos com a opinião de Nelson Rodrigues, um dos mais notáveis terrachatistas que já existiram no Brasil:

“O mundo é a casa errada do homem. Um simples resfriado que a gente tem, um golpe de ar, provam que o mundo é um péssimo anfitrião. O mundo não quer nada com o homem, daí as chuvas, o calor, as enchentes e toda sorte de problemas que o homem encontra para a sua acomodação, que aliás, nunca se verificou. O homem deveria ter nascido no Paraíso.”

Sobre o Autor

Danilo Moreira Mendes

Vice-Presidente do Instituto Borborema.

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