Das coisas mais interessantes em Game of Thrones é a precariedade de tudo, o que leva personagens e espectadores a se perguntar sobre o sentido daquilo. Para quê?, no fim das contas.

Nas primeiras temporadas o jogo do e pelo poder se concentra na força militar. A precariedade do poder bélico, porém, da força física, afinal, fica evidente quando os interesses e medos de curto prazo são atendidos ou eliminados. Aí vemos o quanto a força militar precisa se sustentar em algo para além dela.

É quando o jogo político toma à frente, o que significa dizer que as alianças precisam se fundamentar em algo mais duradouro do que o objetivo mais imediato, algo que se configure num plano de vida em comum. Como nesse mundo não há regras, só disputa de poder, o jogo político não dura uma semana. A única coisa que consegue dar alguma sobrevida aos arranjos políticos são os casamentos de conveniência entre as famílias dos nobres. E aqui se revela a única coisa minimamente duradoura em Game of Thrones: o valor da família.

Não que os laços familiares sejam garantia de muita coisa, afinal, o que não falta na série são parricídios, irmão matando irmão, esposa matando marido etc. Ainda assim, mesmo frágil, é a família o valor que se tenta defender e fazer valer.

Entretanto, é claro que num contexto desses a ética vigente se torna mafiosa. Quando a família vale mais do que tudo, tudo é permitido em nome dela. Menos traí-la. Por isso que os expurgados, os bastardos, destacam-se na série, tanto para o bem como para o mal. Por exemplo, Clegane, o “Cão de Caça”, que procura desesperadamente um sentido de vida, algo que Aria parece lhe ter negado e que depois lhe foi tirado pela matança do grupo a que se juntou na última temporada.

E no ponto em que a série se encontra parece ser justamente por um bastardo que o mundo espiritual entrará de vez na história, como a maior das forças. O que era um jogo de poder pelo trono de ferro foi se tornando aos poucos cada vez mais uma guerra de deuses.

Mas de Game of Thrones ainda falarei bastante. Hoje me interessa Billions. E o que uma teria a ver com a outra? Tem tudo a ver. Temos a mesma realidade, mas em mundos diferentes.

Algo que se mantém “nas sombras” em Game of Thrones é o Banco de Ferro de Bravos, que é quem financia sempre o poder, sem sujar as mãos. Não se compromete com ninguém de verdade, a todos podendo auxiliar se for de seu interesse. Seu lema: “O Banco de Ferro receberá o que lhe é devido”. E recebe mesmo. Não há reino que se sustente sem seu auxílio, não há revolução ou guerra que não tenha seu patrocínio, seja em seu início, seja para encerrá-la. Se de um lado temos a organização política pelos laços familiares da nobreza, o “chão” de tudo é o dinheiro do Banco de Ferro.

Em Billions, como o nome já indica, o dinheiro não é só o chão, mas quase o todo. E se na primeira temporada temos o embate entre o poder da grana e o poder do estado, nesta segunda vemos que também o poder do estado é definido pelo poder da grana, exatamente como em Game of Thrones. Chuck Rhoades, o procurador estatal soberbamente interpretado por Paul Giamatti, submeteu-se completamente ao poder da grana de Jack Foley, sem quem nenhum governador poderia ser eleito.

O que em Billions podemos ver com mais clareza é o que acontece quando a precariedade de uma realidade instável como em Game of Thrones é estabilizada o suficiente para que o poder de Mamon, o deus da grana, se espalhe por tudo e se torne a única divindade. Mas o dinheiro é sempre meio, nunca um fim, o que significa dizer que, conquistada a grana, Mamon se torna cobiça. Cobiça de mais dinheiro, poder, fama e influência.

O que em Game of Thrones estonteia pela quantidade de histórias paralelas e vidas em jogo, em Billions se reduz a apenas duas: a do bilionário Bobby Axelrod (interpretado também magistralmente por Damian Lewis) e a do citado Chuck Rhoades. Neles fica simbolizado o que a cobiça constrói: pretensos deuses poderosos que, uma vez em choque, são capazes de destruir tudo por ciúme e inveja.

Nos dois últimos episódios espetaculares da segunda temporada de Billions isso se revela com perfeição. Chuck arrisca perder tudo – grana, esposa, pai, cargo etc. – para derrubar Axelrod. Este, que já vinha num processo de arrependimento pela tomada de consciência de quem se tornou – tendo um diálogo impecável com seus filhos no último episódio, em que vemos ele à beira da confissão restauradora -, deixa-se possuir, porém, pela raiva diante de Chuck, prometendo o mesmo que ele fizera: perder tudo para fazer o outro perder também.

A roda do poder aqui está no seu ponto mais alto: os personagens podem destruir um ao outro, mas a queda de ambos é o salário de toda guerra de poder. A única vitória possível é a desistência do game of thrones que iniciaram. Para tanto, terão de recuperar o verdadeiro chão e sentido que suas vidas ainda possuem e que fez com que eles pudessem ser o que se tornaram: o amor de suas esposas e de seus filhos. Ou seja, a família.

As cenas em que Bobby se desorienta por achar que perdeu a esposa são sensacionais. Sem ela, ele é nada. Bobby é um personagem fascinante para os tempos atuais porque apesar de todo poder, grana e fama que tem, não apenas não se deixa levar pela tentação da carne, como a trata pelo que de fato é: tosca, banal, pobre. Na primeira temporada, quando conheceu uma jovem interessante, conversou numa boa, reconheceu o desejo, confessou o desejo, mas foi  honesto ao dizer que tinha mulher e que a amava e que jamais faria isso com ela. E não fez.

Isso não era problema para ele, sua batalha era outra: a vaidade. Na primeira temporada ele quis porque quis dar seu nome a uma fundação. Na segunda, quis um time de futebol americano para chamar de seu e passou o tempo todo ostentando riqueza como demonstração que ela seria o de menos. Foi na segunda temporada que a ficha começou a cair, de que ele foi longe demais e se perdeu, não sabendo mais quem é. Não somente pela cena citada com os filhos, mas também com a cena final com Wendy, esposa de Rhoades, a quem ele pediu para ajudá-lo a se reencontrar.

Bobby está bem mais perto de uma solução de vida do que Chuck, que só se complica. Tal como Bobby, a questão sexual é “resolvida”, mas num mal sentido, sendo o sadomasoquismo símbolo de seu “ponto fraco”: sede de poder, especialmente sobre os outros. Se Bobby já começou o seriado mergulhado na vaidade, Chuck foi se deixando cegar pelo poder durante os episódios. Ainda, se Bobby tem uma relação até que saudável com sua família, Chuck vai perdendo a que tem: a relação com seu pai se perverteu em máfia e ele periga replicar o erro com seus filhos – como quando usou um deles para fazer campanha eleitoral, sem contar que era isso. Sua salvação está em Wendy, mas ele está longe de se dar conta do quanto se desviou do bom caminho. Apenas sabe que precisa de Wendy, daí ficar aliviado com seu retorno, mais do que feliz por isso.

Ou seja, por mais conquistas que se obtenha, glórias, riquezas, nada disso é resposta final e suficiente àquela pergunta: para quê? Para que viver? Pelo que estamos a morrer, no fim das contas? Em verdade, só existem duas respostas possíveis: a do game of billions e aquela que deixou os apóstolos de Cristo pasmados, perguntando: “Quem poderá então salvar-se?São Mateus, 19:25

Sabe qual é essa segunda resposta? Pois é, quem poderá então salvar-se?

Sobre o Autor

Francisco Escorsim

Professor autônomo de português, literatura, redação e educação da imaginação, tema sobre o qual profere conferências e cursos. É também colunista do jornal Gazeta do Povo e do site Homem Eterno.

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