Carlos Drummond de Andrade é considerado por muitos o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Se não há dúvida de que o mineiro foi um grande poeta, considerá-lo o maior me parece algo questionável, visto que o autor foi alçado ao primeiro lugar do podium da poesia nacional mais por suas posições ideológicas controversas do que pelo indiscutível valor de sua obra.  Se por um lado foi, como bem percebeu Carpeaux, o primeiro grande “poeta público do Brasil, o único comparável à moderníssima corrente da poesia inglesa”[i], por outro ninguém pode negar que ganhou a simpatia da crítica brasileira mais pela poesia politicamente engagée de A Rosa do Povo do que por obras-primas incontestáveis, como Claro Enigma. É que Drummond foi um poeta forte não por causa de suas ideologias, mas apesar delas.

Nascido em na cidade mineira de Itabira a 31 de outubro de 1902, Drummond foi uma espécie de Walt Whitman brasileiro, pois, como o grande bardo norte-americano, soube dar uma expressão verbal memorável ao nosso modus vivendi e ao nosso éthos, inserindo o brasileiro, pela primeira vez depois de Machado de Assis, na autobiografia espiritual da humanidade. Poemas como “José” ou “Sentimental” revelam mais do que o sentimento do mundo na turbulenta época do Entre Guerras, pois que são tentativas bem-sucedidas de interpretar ontologicamente o brasileiro à luz da poesia. E “a poesia”, como bem percebeu Wilhelm Dilthey, “é um tipo ou uma maneira de Weltanschauung (‘cosmovisão’). Desta forma, a poesia foi reconhecida como uma poderosa maneira de intuição a respeito do mundo e da vida. Foi elevada a um ‘organum’ para a compreensão do mundo, juntamente com a filosofia, a religião e a ciência”[ii].

Como se pode depreender, talvez tenha sido Drummond o poeta que melhor compreendeu o Brasil, assim como Whitman, sem dúvida, foi o que melhor compreendeu os EUA. E Drummond, de fato, intuiu tudo, quando, às vésperas da década de 1930 – ano em que o livro Alguma poesia veio a lume  – constata que “nesse país é proibido sonhar” (cf. poema “Sentimental”). E como “neste país é proibido sonhar”, o José da famosa poesia drummondiana, publicada alguns anos depois do poema “Sentimental”, é um homem desesperançado e sem rumo, incapaz de enxergar a dimensão sagrada da existência, porque, para ele, depois de terminada a festa, “tudo acabou, tudo sumiu, tudo mofou”. Assim, o nosso trôpego José, proibido de sonhar, é incapaz de abrir a porta que dá acesso à transcendência, pois para ele “não existe porta” e, como já não consegue olhar para as coisas do Alto, “quer morrer no mar”, esse inconstante e furioso espelho do céu.

Ora, o José da poesia de Drummond é, de certa forma, antípoda do Glorioso São José, Pai Nutrício de Jesus, já que é através do sonho que o Esposo da Virgem Santíssima recebe a visita do Anjo do Senhor, que lhe comunica a Boa Nova. O direito de sonhar, portanto, confere ao Patriarca da Sagrada Família o acesso à Porta que fora vedada ao José brasileiro, proibido de sonhar como o jovem apaixonado do poema “Sentimental”.

Neste e em muitos outros episódios, o sonho – esse irmão gêmeo da poesia, da imaginação e do sagrado –, é uma das pontes que liga o homem ao universo do numinoso e da sobrenaturalidade, assim como os poemas-devaneios do salmista Davi, todos eles inspirados pelo Espírito Santo, são, quando recitados por Cristo, Palavras feitas com mesma Substância de que o Céu foi feito.

Na obra drummondiana, esse conflito entre a recusa do numinoso e o mal-estar provocado pelo imanentismo chega ao clímax no poema “A Máquina do Mundo”, sem dúvida uma das mais brilhantes poesias da Língua Portuguesa.  Monumental obra-ilha, A Máquina do Mundo merece uma análise detalhada.

O extenso poema – ao todo são trinta e duas estrofes em tercetos, perfazendo o número de noventa e seis decassílabos –  é uma retomada do episódio camoniano da Máquina do Mundo. No poema lusitano, no entanto, a Máquina é apresentada como uma espécie de hierofania, que, segundo o historiador das religiões Mircea Eliade[iii], pode ser definida como um vislumbre do sagrado no seio criação manifestada:

Vês aqui a grande máquina do mundo,

Etérea e elemental, que fabricada

Assim foi do Saber alto e profundo,

Que é sem princípio e meta limitada.

Quem cerca em derredor este rotundo

Globo e sua superfície tão limada,

É Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,

Que a tanto o engenho humano não se estende.

(Os Lusíadas, Canto X, estrofe 80)[iv]

Em Camões, portanto, a visão é teocêntrica. Isto não ocorre no poema de Drummond, que era uma espécie de ateu envergonhado. Acontece que o ateísmo drummondiano é mais uma intuição do desprezo pelo sagrado na modernidade do que uma postura propriamente revolucionária, como fica claro nas estrofes abaixo, do poema curiosamente intitulado “São Francisco”:

Senhor, não mereço isto.

Não creio em vós para vos amar.

Trouxeste-me a São Francisco

e me fazeis vosso escravo.

Não entrarei, senhor, no templo,

seu frontispício me basta.

Vossas flores e querubins

são matéria de muito amar.

 

Mas entro e, senhor, me perco

na rósea nave triunfal.

Por que tanto baixar o céu?

por que esta nova cilada?

 

Senhor, os púlpitos mudos

entretanto me sorriem.

Mais do que vossa igreja, esta

sabe a voz de me embalar.

 

Perdão, Senhor, por não amar-vos.

É precisamente esse ateísmo envergonhado, quase um agnosticismo de circunstância, a mola propulsora do poema A Máquina do Mundo, que, não por acaso, segue a estruturação estrófica de A Divina Comédia de Dante – embora seja uma composição em versos brancos (ou seja, não rimados) –.

A Máquina do Mundo[v]

(Carlos Drummond de Andrade)

(1) E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco

 

se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas

 

lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos montes

 e de meu próprio ser desenganado,

 

(10) a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.

 

Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável

 

pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar

 

toda uma realidade que transcende

(20) a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.

 

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera

 

e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,

 

convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

(30) da natureza mítica das coisas,

 

assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão

atestasse que alguém, sobre a montanha,

 

a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo:

“O que procuraste em ti ou fora de

 

teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,

 

(40) olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,

 

essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois tão esquivo

 

se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste… vê, contempla,

abre teu peito para agasalhá-lo.”

 

As mais soberbas pontes e edifícios,

(50) o que nas oficinas se elabora,

o que pensado foi e logo atinge

 

distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,

e as paixões e os impulsos e os tormentos

 

e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber

 

no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar,

(60) na estranha ordem geométrica de tudo,

 

e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que todos

monumentos erguidos à verdade:

 

e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,

 

tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana.

 

(70) Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

 

a esperança mais mínima — esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa

que entre os raios do sol inda se filtra;

 

como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem

a de novo tingir a neutra face

 

que vou pelos caminhos demonstrando,

(80) e como se outro ser, não mais aquele

habitante de mim há tantos anos,

 

passasse a comandar minha vontade

que, já de si volúvel, se cerrava

semelhante a essas flores reticentes

 

em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora

apetecível, antes despiciendo,

 

baixei os olhos, incurioso, lasso,

desdenhando colher a coisa oferta

(90) que se abria gratuita a meu engenho.

 

A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a máquina do mundo, repelida,

 

se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,

(96) seguia vagaroso, de mãos pensas.

O poema pode ser dividido, grosso modo, em três partes:

I (do verso 1 ao verso 9)  

É o trecho que precede o aparecimento da Máquina – que pode ser interpretada como uma espécie de hierofania semi-dessacralizada (a hierofania que ainda resta à nossa civilização secularizada) – percebemos todo o mal-estar do homem contemporâneo, expressado através de imagens soturnas e melancólicas. Essas imagens, na abertura do poema, como que nos remetem à selva escura que a personagem de Dante se perde em A Divina Comédia.

1º) O homem palmilha sem convicção (vagamente) uma estrada de Minas – e aqui há uma ambivalência admirável, já que Minas se refere tanto ao Estado do sudeste brasileiro quanto às bombas de um traiçoeiro campo minado –. E a estrada é pedregosa: ou seja: cheia de obstáculos. Há de se observar também que a caminhada se dá à luz mortiça do crepúsculo, que, universalmente, simboliza a transição entre a vida (a luz do dia) e a morte (as sombras da noite). (Versos de 1 a 9.)

2º) O “céu de chumbo” (verso 6) nos remete tanto à cor acinzentada do céu – que é índice de desesperança – quanto ao peso opressivo da abóbada.

3º) A escuridão não vem apenas dos montes, mas também de dentro da alma do eu-lírico (versos 8 e 9).

II (do verso 10 ao verso 69)

A Máquina do Mundo se apresenta ao andarilho

 4º) A Máquina que nos é apresentada, diferentemente da camoniana, não nos remete diretamente ao mysterium tremendum[vi], que, como observou Rudolf Otto, é a característica primordial do sagrado. É uma Máquina que não emite “um clarão maior que o tolerável” (verso 15). E aqui aparece,  pela primeira vez no poema, uma das características marcantes da poesia de Drummond: a ironia. Ora, se até os anjos possuem uma luminosidade que causa espanto, a hierofania divina não a possuiria por quê?

5º) A Máquina é vista através dos olhos cansados de inspecionar o deserto (que, evidentemente, simboliza, para o eu-lírico, a vida na Terra, a existência – verso 17).

6º) No verso 21, há uma referência à dimensão algo numinosa da aparição que se apresenta ao caminhante: “no rosto do mistério, nos abismos”. Não obstante, a engrenagem também é composta por comezinhas “pontes e edifícios” e pelo que “nas oficinas se elabora” (versos 49 e 50). Sua faceta misteriosa, no entanto, volta a mostrar-se no verso 58 (“sono rancoroso dos minérios”) e no 59 (“na estranha ordem geométrica de tudo”). É visível nesse trecho do poema, por sinal, o jogo dialético entre matéria e espírito, o espírito que se entremostra naquilo “que foi pensado e logo atinge/ distância superior ao pensamento” (versos 51 e 52, respectivamente).

III (do verso 70 ao verso final)

A Máquina do Mundo é repelida

7º) A Máquina que se apresentou durante o pôr-do-sol, que bem pode simbolizar o desenlace da vida, é repelida pelo viandante.  A fé, àquela altura, “se abrandara” (verso 72). A manifestação da Máquina, esta semi-hierofania, é vista como um “dom tardio” (verso 86). E o caminhante a desdenha (verso 89). Aqui percebemos uma atitude oposta à de Jó, que, como sabemos, acolhe a revelação que se lhe apresenta.

8º) Após a recusa em aceitar o “dom tardio”, a treva absoluta cai sobre “a estrada de Minas, pedregosa” (versos 90 e 91). E o viandante prossegue, mas prossegue “vagaroso, de mãos pensas” (verso 96).  Essas mãos pensas indicam um desconforto, um mal-estar diante da recusa? Não seria errado dizer que sim.

9º) Além do mais, o poema termina sem ponto final. Ou seja: é como se o eu-lírico, de uma forma ou de outra, se recusasse a sepultar em experiência.

***

Fica claro, portanto – seja no poema “José”, em “Sentimental” ou em “A Máquina do Mundo” – o mal-estar do homem diante das circunstâncias da vida moderna. Mas o mal-estar de Drummond não é indício de fraqueza ou de niilismo. É antes a constatação de que, numa época de incertezas e de forte declínio antropológico, sempre haverá uma pedra, ou até mesmo uma estrada de minas pedregosa, no meio dos nossos caminhos. Ezra Pound estava certo, quando, no seu ABC of Reading, afirmou serem os poetas as “antenas da raça”. [vii]

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[i] Cf. Bandeira, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. In: Manuel Bandeira: Seleta de Prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 453.

[ii] DILTHEY, Wilhelm. Poetry and Experience.  New Jersey, Princeton University Press, 1997, p. 117.

[iii] ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes,

  1. p. 17.

[iv] CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. São Paulo: Editora LEP, 1962.

[v] ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesias completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,. 2002.

[vi] OTTO, Rudolf. O sagrado – os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. São Leopoldo : Sinodal/EST; Petrópolis : Vozes, 2007. P. 17.

[vii] POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo: Cultrix, 2007.  p.  p 77.