Prega um gracejo corrente que “mulheres não gostam de outras mulheres”. Falado desta maneira, o dito pode dar a errada impressão de estarmos diante de uma cizânia sem razão, algo próximo do capricho. Acredito que não seja bem isso. Não é que mulheres não gostem uma das outras, é que mulheres entendem umas às outras, conhecem as artimanhas do mundo feminino, suas estratégias, seus objetivos.

Por conhecerem-se sabem perfeitamente que a capacidade de percepção que possuem é compartilhada por todas as demais, e como são todas elas assim, percebendo-se um tanto expostas perante suas companheiras de gênero, por natural instinto de auto preservação entregam-se à observação mútua, se estudam e se medem, perscrutando possíveis perigos, possíveis ameaças, possíveis problemas.

Então, sobre a questão de que mulheres não gostam de outras mulheres deixo aqui um veredicto: não é que elas não se gostem, até se gostam, mas se gostam tanto quanto podem se gostar aliados que veem no outro um inimigo em potencial.

Se o leitor me acha muito radical na sentença vou tentar ilustrar o adágio com uma situação facilmente imaginável por todos. Como numa abertura de peça tomemos a seguinte cena:

Festa em casa de amigos. Muita bebida. Música Alta. Vários convidados. Alguns casais amigos conversam despreocupadamente. Alguns amigos desimpedidos circulam entre os grupos, assim como outras mulheres, colegas, amigas e namoradas, já familiarizadas com o ambiente. Um grupo de convidadas não muito próximas ao círculo de amizade das outras mulheres da turma chegam à festa. São bonitas e estão muito bem vestidas.

Neste ponto, entre as mulheres já “pertencentes ao habitat” e as “estrangeiras” inicia-se um jogo onde tudo é relevante, tudo é observado, tudo tem um significado. O que para nós foi uma simples risada, um toque, uma pergunta, um levantar de mesa, para elas foi o necessário para delinear com precisão as intenções mais ocultas, os desejos mais discretos. Esse radar emocional é tão sensível, que um elogio dito em um tom um pouco mais diferente, algo que a nós, simples homens, passaria completamente despercebido, é mais que suficiente para despertar a atenção de todas as mulheres em um raio de três metros.

De repente o ambiente deixa de ser o espaço de um encontro para tornar-se um grande tabuleiro de xadrez. Estratégia, observação, cálculo. Uma adiantando-se aos movimentos da outra, percebendo as nuances, espreitando os pontos fracos, ora cedendo um pouco para conquistar outro tanto, ora avançando com força, ora defendendo sem pressa, mas sempre com um xeque-mate em vista.

Nesse tabuleiro uma piada não é apenas uma piada, mas um teste para ver até onde a adversária vai, como irá reagir; uma dança não é apenas uma dança, mas um recado para os olhares da mesa; um abraço carinhoso não é apenas um abraço carinhoso, mas uma demarcação clara de território; um beijo não é apenas um afeto mas um símbolo de vitória.

Dentro de algum tempo elas já terão se estudado mutuamente, percebido as expressões dos olhos, os repuxos das bocas, a malícia dos sorrisos, o sarcasmo das respostas, o modo de andar, o modo de vestir, o modo de falar, já terão percebido de quem devem se aproximar, quem se deve evitar, quem é o alvo, quem é o perigo, e em uma hora de festa já teremos grupos formados, todos escalados por essa afinidade surda que só elas são capazes de compreender.

Enquanto isso nós estamos lá, provavelmente embriagados e mais tolos que de costume, sem entender as reações de nossas respectivas, geralmente oscilantes entre o carinho excessivo e a chateação repentina. Nesse momento, todo o gênio da mente masculina ilumina a questão com duas opções: “vou aproveitar” (no caso do carinho), “essa menina é de lua” (no caso da chateação). Eis as alturas de julgamento que chegamos.

Certamente elas não irão nos explicar os motivos: primeiro porque sabem que não entenderíamos, segundo porque para elas as razões são tão óbvias que só o fato de não conseguirmos enxergar e perguntarmos com ares de ceticismo soa quase ofensivo.

De todo modo o fato é que elas têm seu próprio mundo, com suas próprias regras. Quando um homem for capaz de entender e viver nesse nível de inteligência emocional eu faço minha profissão de fé nas teorias de gênero, enquanto isso não acontecer eu vou ficando por aqui, observando o tabuleiro e tomando minha cerveja bem gelada. Simples e sem firulas, como um homem deve ser.

Sobre o Autor

Pedro Augusto

Pedro Augusto é professor no Instituto Borborema e na Sociedade São Bento. Ministra também palestras e aulas de forma independente. Cidade: Campina Grande-PB

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