Em um artigo recente sobre a mentalidade revolucionária falei sobre o perigo de se tomar a política partidária do momento como fonte última de análise política. Disse na ocasião que “esses episódios estão para suas causas profundas como a espuma da arrebentação está para as correntes oceânicas; pálidos reflexos de forças mais extensas, mais poderosas e bem mais duradouras.” Pois bem.

Sob o mesmo perigo encontram-se aqueles que pretendem escapar do horizonte estreito do dia-a-dia político recuando sua base de observação para um sistema ideológico qualquer e traçando a partir dele sua percepção da realidade.

Isso porque qualquer ideologia –  comunismo, libertarianismo, liberalismo, anarco-capitalismo, etc. – é um recorte do mundo real, que talvez, digo, talvez, possa funcionar como clave explicativa de um ou outro acontecimento pontual, mas quando colocado como ferramenta de investigação do conjunto da realidade funciona muito mais como elemento de alienação que de esclarecimento.

Esse apego a uma visão ideologizada do mundo termina gerando o fenômeno, tão em voga em nossos dias, do que chamo “direitistas de sinal trocado”. Direitistas de sinal trocado são aqueles indivíduos que abandonaram a ideologia comunista mas não abandonaram o modo de pensar militante próprio dos ideólogos. Continuam raciocinando sob as mesmas categorias maniqueístas, continuam enxergando as coisas sob a mesma lente partidarizada, continuam tentando encaixar o mundo inteiro dentro do seu esquema ideológico, continuam, enfim, com a mesma forma mentis dos companheiros, apenas ornamentando o lado oposto da equação – algarismos iguais, sinais trocados.

Favorável ao Estado? Comunista! Apoia as Forças Armadas? Intervencionista! Não acredita nos 33 GENERAIS CAPS LOCK QUE JÁ ESTÃO À POSTOS PARA COLOCAR OS TANQUES NA RUA? Socialista Fabiano! Admira a arquitetura das mesquitas? Agente Islâmico! Escuta samba de Chico Buarque? Alienado! Assiste missa que não seja Tridentina? Herege vendido à Roma liberal!

Contra e a favor, nós e eles, Tico e Teco. Tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Para superar verdadeiramente um estado de coisas é necessário compreendê-lo, abarcá-lo e transcendê-lo. Ora, superar a mentalidade revolucionária é a verdadeira batalha. Todo o resto depende dela e para ela se volta. Lutar contra a esquerda sem expurgar de si o espírito revolucionário que a sustenta é não compreender o terreno que pisa, não abarcar a mente que combate, não transcender a estratégia que enfrenta, e, em um duelo travado nesses termos, todas as vitórias serão frágeis, senão nulas.

Que Pirro, santo padroeiro dos direitistas de sinal trocado, tenha piedade de seus devotos.