E se nada der certo?

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A primeira vez que pensei numa profissão foi quando estive no consulado do Japão no Recife. Fui lá inusitadamente, porque era vizinho a um outro escritório onde minha mãe deveria pegar algum documento. Lembro-me de ter gostado de um grande cartaz com japonesinhos que viviam em todos os lugares do mundo e de ter ganhado de uma moça de olhos puxados, um lápis hexagonal com a palavra “Japão” escrito em todos os idiomas. Perguntei a minha mãe o que era um cônsul e gostei bastante de saber o que fazia um diplomata. Di-plo-ma-ta. Essa palavra passou a ter o fascínio das grandes aventuras. Até me recordo de sentir um pouco de culpa por essa palavra ter significado, para mim, até então, o desprezado “último chocolate de caixa”.

Não demorou muito até que outras coisas aparecessem para tomar minha atenção e oferecessem possibilidades de realizações mais legais que carimbar documentos e participar de solenidades. Cada vez que eu ouvia um “o que você vai ser quando crescer?”, tinha que, durante o tempo de um profundo suspiro, examinar o resultado do confronto entre os meus interesses do momento. Não via a hora que chegasse esse instante com o qual teriam fim todas as batalhas. Eu estaria crescido e com uma profissão, a vitoriosa.

No meio do caminho, fui me esquivando dessa pergunta com a resposta mais conveniente ao interlocutor. Cheguei ao desatino de dizer ao meu pai que faria medicina, somente para lhe tranquilizar a consciência por alguns meses.

Quando me tornei católico essa situação piorou por conta do significado que descobri na palavra “profissão” que vem logo acima do Credo. Entendi que professar alguma coisa é declarar publicamente que se acredita nela. Ora, quantas pessoas eu não conheço que não acreditam de modo algum no que fazem? E nem os censuro por não acreditarem, porque acho bem mais prejudicial encontrar um advogado que acredite nas nossas leis, um arquiteto que acredite em como se constrói hoje em dia ou num médico que acredite piamente nessa medicina comportamental que nos quer a todos já doentes de antemão.

A dificuldade de se encaixar na coleção de ofícios que nos legou a Revolução Industrial é hoje uma grande angústia. As personalidades devem ser mais ou menos hipertrofiadas ou mutiladas num esforço de padronização e eficiência. Entendo que esse seja o preço para se ter tantas benesses materiais, como, por exemplo, a abundância de papel higiênico que se tem mundo afora (exceto na Venezuela), mas permaneço incomodado com essa fábrica de mentiras biográficas e profissionais insinceros.

Lembrei-me de minha trajetória de aspirações profissionais ao ver, nessa semana, as fotos de alunos de um Colégio Marista fantasiados numa festa cujo tema era “e se nada der certo?”. O pessoal respondeu se vestindo com uniforme de gari, de fritador do McDonalds e até de militante do PT. A brincadeira gerou as indignações de sempre. Os justiceiros sociais da internet ficaram bravos porque os filhos da burguesia consideravam um fracasso terminarem em profissões mal remuneradas. Acho que não vale a pena dizer nada sobre essa controvérsia.

Gostaria apenas de aproveitar o mote da festa para lembrar a todos que para saber o que fazer se nada der certo, é preciso que saibamos o que seria “dar certo”.