A língua

Quando banido da Inglaterra, Thomas Mowbray disse ao Rei: What is thy sentence, then, but speechless death, / which robs my tongue from breathing native breath? Pouco antes, ele dizia que, por banido, deveria agora esquecer sua língua nativa – a língua inglesa se tornaria para ele um instrumento sem corda ou utilidade, um instrumento esquecido, aprisionado num estojo.

A abrangência é a morte da língua. Vejamos: o que é a língua portuguesa? Por mais que pensemos em Camões ou Machado, o fato é que orbitam em nosso redor planetas menos remotos, mais íntimos porque mais presentes, embora mais corroídos e degradados: a fala cotidiana, a música cotidiana, da rua, do bar.

Nelson Rodrigues falou e escreveu nessa língua. Mas deixemos isto claro: é preciso que uma língua seja, pelo menos em certa medida, concentrada. Hoje, não temos quase nada. Do diluído só nos sobrou a pior parte. Não temos um Goethe nem um Shakespeare. Pior: os nossos antepassados são tão estrangeiros quanto Flaubert, tão remotos quanto um jardim longínquo – o jardim longínquo de Augusto Frederico Schmidt.

Enfim. Ninguém sentiria saudades desta nossa língua portuguesa. Ninguém choraria por Chico Buarque. Ninguém choraria pela última moda sertaneja – não eu, pelo menos. Olavo de Carvalho de passagem em mão pensando no Tião Carreira e Pardinho? Meio difícil. Mas imaginamos Mowbray se distanciando dos portões da Inglaterra: bem agasalhado, algumas roupas numa sacola jogada sobre os ombros; em choro, em saudade, vai deixando as marcas dos seus passos na neve.

Hoje, podemos pensar: quanto austríaco não foi parar nos EUA, e, por isso, quanto a língua alemã não perdeu em possibilidade de desenvolvimento? Lendo as conversações de Eckermann com Goethe, percebe-se claramente o grande vigor com que aquela gente se dedicava ao idioma.

A língua de Mowbray, a língua inglesa: para ele, bem possível que não fosse ela apenas a forma da comunicação, mas mais propriamente a forma fixa de uma vida, a forma fixa da sua própria biografia. Quando nos deparamos com alguém que se dedicou a vida inteira a um idioma – e Goethe fez isso, Ele praticou uma arte, e praticou-a com maestria: escrever em alemão -, quando nos deparamos com alguém assim, é possível sentir a grande força, o grande vigor de uma speechless death.

Para quê

Não faz muito tempo. Comecei a ler literatura em 2008. Antes, não havia lido nada. Não sabia usar crase e pensava que “subjugar” era uma forma inferior de julgamento, algo como um juiz bêbado e com sono que decide contendas judiciais. Meu entendimento era precário, meu domínio gramatical era nulo.

O que eu esperava?

Anos antes, eu havia persistentemente fugido do Ensino Médio. Portanto não aprendi nada de morfologia, sintaxe ou fonética – para dizer a verdade, até pouco tempo atrás eu ainda usava a técnica da campainha pra descobrir a sílaba tônica: Antôôônia! There it is.

Voltando: em 2008, conheci Dostoiévski. Li todos os romances sob aquela luz amarela que iluminava a poltrona, os pés nas meias brancas apoiados na parte vazia da estante.

Àquela época eu escrevia alguma coisa, escrevia influenciado por aquele espírito baixo de Dostoiévski, e me recolhia naqueles sentimentos subterrâneos, naquela “consciência verrumante”. E tentava lá, dentro do meu quartinho, do meu apartamento-cubículo de 39m², perceber o fundo dos pensamentos que passavam pela minha inteligência, o fundo dos sentimentos que habitavam meu coração, das intenções que guiavam as minhas virtudes.

Mas nada sério. Aliás, não escrevi nada sério até hoje. No entanto, lá atrás eu escrevia mal, muito mal, tão mal que um Noel Rosa bêbado rabiscaria umas cores mais vivas.

Os nomes

Em 2013, creio, comecei a pensar em gramática. A moçada já começava a rir das minhas crases antes de substantivo masculino, e o buraco de onde eu tirava as estruturas sintáticas não tinha luz ou fanal que por lá me guiasse. As frases iam se formando como reflexo do pensamento e o pensamento guiando-se sozinho por aquele marulhar-se de um cérebro confuso, posto que sem muros ou limites.

A sensação era exatamente essa. Não tendo onde tatear, onde sentir as coisas, o caminho era qualquer caminho, de modo que esquerda e direita, frente e trás, norte e sul e leste e oeste: tudo a mesma coisa.

A primeira tarefa era a de saber dar nome às coisas. Difícil. Nunca me enganei quanto a isto. Lembro-me de quando li pela primeira vez a palavra itinerário. Foi num livro de Filosofia do Direito. Procurei-lhe o significado num dicionário de bolso que eu tinha em casa – apesar de já estar bastante confortável com a internet, àquela época eu ainda não havia descoberto o priberam – e dali aproveitava qualquer ocasião para repetir a palavra. Ia viajar: peraí, vou checar aqui o itinerário. Escrever um texto: itinerário do trabalho. Enfim.

Ninguém duvida que a semântica seja consequência da Queda. Os filósofos estão aí para nos por em dúvida quanto a relação entre o nome e a coisa que o nome significa. O próprio Aristóteles, na Metafísica, jura de pés juntos que a definição nada mais é do que um indicativo da coisa – ele conclui o pensamento no Analíticos Posteriores: podemos falar, podemos nomear, mas a coisa mesma está lá longe, brilhando sozinha num canto distante.

O próprio Adão perdeu o privilégio de dar nome às coisas. Soubesse, talvez, quanto isso é difícil, jamais teria trocado esse talento por uma maçã paradisíaca. Deus, nessa ocasião, deve ter inventado Shakespeare: Repair thy wit, good youth, or it will fall. Maçã. Fruta. Insuficiente. Deus próprio lhe havia dado o dom, e deixou que o próprio Adão desse às coisas os seus nomes, tarefa que ele cumpriu mui devidamente.

Depois considerou. A virtude era tão boa, Deus deve ter pensado; esse negócio de saber dar o nome devido às coisas é tão poderoso que nenhum cabeludo que não me prefira a umas maçãs merece tê-lo sob seu poder. Aí criou os idiomas. Impediu a Torre. Dividiu os povos e separou as línguas (hoje a coisa piorou tanto que já nem sabemos como dizer que dois pães são dois pães. Dizemos, em vez, que dois pães são dois pão – assim, junto aos nomes, o homem vai trancando no porão as primeiras conquistas da aritmética).

A vocação

Imaginem se Hemingway tivesse de ser secretário no Poder Judiciário brasileiro. Colérico que era, you know the fiery quality of the man, gostava da África e do boxing. Os períodos curtos, velozes, possantes como um jab. Imaginem-no no cubículo branco, sentado, a pilha de papéis na mesa: protocolar, juntar, furar, organizar. Ficaria louco, esmoreceria. A coisa não andaria bem e o homem ficaria lá, preocupado, tristonho, à cata duma aventura.

Divago. Nunca li Hemingway, mas não duvido eu que tenha acertado. Graciliano – o nosso – foi assim também (esse eu li). Os períodos curtíssimos e poderosos. E foi burocrata – contou lá no seu Memórias do Cárcere. Em certa altura do livro, Graciliano confessa que torcia por uma tragédia, por um acontecimento agudo que lhe mudasse a cor dos dias. Desejava por usar aquela sua arma guardada na gaveta, ver um sangue, ouvir uns gritos – não era mau, só queria se livrar da banalidade do dia.

Difícil.

A vocação não é uma estrada que, se evitada, leva o homem à catástrofe, contudo ela impõe ao homem uma espécie de barreira que ele não poderá transpor sem sofrer algum tipo de infelicidade. A vocação, em acréscimo, é um material versátil e flexível de que o homem, numa circunstância concreta, se servirá para criar-se a si próprio e, em certa medida, para projetar-se na própria circunstância.

É possível imaginar Santo Tomás de Aquino trabalhando num escritório de contabilidade – melancólicos organizam, melancólicos nasceram para estruturar fluxogramas. Só não é possível imaginá-lo contabilista e santo.

Também não é possível imaginar o Graciliano no Ministério redigindo pareceres e portarias num português de boteco. Se Camilo Castelo Branco tivesse sido comerciante, por certo ansiaria muitíssimo pelo momento de redigir um recibo. No dia tal, não. Ao dia tal. Com a finalidade de… Tantos reais, em espécie – e pontuaria por extenso a quantidade. Com gosto.

Nenhum exercício profissional é plenamente satisfatório porque nenhum exercício profissional é o correspondente pleno da vocação: o homem poderá exercê-los variadamente, e em cada um deles desenvolver uma parte da sua vocação. A vocação tem, digamos assim, essa qualidade de esparramar-se, de adequar-se; tem a flexibilidade das pernas de uma bailarina e a versatilidade da água que se mistura à terra. O homem bem desenvolvido saberá o que fazer com ela em qualquer situação – Viktor Frankl lhes vem à cabeça? E olhem que era um intelectual.

Ofícios e ofícios. Há os mecânicos: neles, qualquer mecanismo substitui o homem. Há os que são inteiramente dependentes da técnica: e neles o caminho já está traçado de antemão, restando ao executor a alternativa única de seguir o guia de forma correta, adequando o qualitativo no quantitativo e vice-versa. E há aqueles outros em que há, sem dúvidas, a automação, há, sem dúvidas, a técnica, mas o ofício é de tal natureza abrangente e versátil que jamais poderia existir sem a afluência constante e persistente da ação criadora, da liberdade criativa.

A arte é a manifestação mais própria da liberdade criativa. É disso que falarei em seguida.