A atenção

Lá por 2010, em todos os dias úteis eu caminhava da Nunes Machado à Reitoria. Ia muitas vezes encabulado com o fato de não conseguir prestar atenção alguma nos detalhes dos prédios, dos bancos, das pessoas. Se me perguntassem de que cor era a camisa daquele homem que acabara de passar, eu não saberia responder com exatidão e ficaria confuso entre o branco e o azul ou entre o preto e o vinho, tendo a impressão de só ter registrado o aspecto geral da cor da camisa, sem, contudo, tê-la captado na sua individualidade concreta.

A impressão era mais ou menos como a de tentar olhar para a lua com os olhos quase totalmente fechados: as extremidades da lua parecem se alongar ora aqui, ora ali. Esse alongamento acrescenta um movimento esquisito e ligeiro à forma da lua, de modo a torná-la não um objeto redondo ou oval, mas alguma coisa com aspecto deformado, a cabeça de um monstro ou uma daquelas bolas de massinha com que brincam as crianças. Num momento, o topo da lua parece esticar-se como o rastro de um tiro, projetando-se para cima num feixe comprido de luz; noutro, a extremidade de baixo assemelha-se à trajetória iluminada de uma estrela cadente cuja luz atravessa a terra, indo além dela e perfurando-a do solo às profundezas.

Por essa época, fui ao oftalmologista porque havia quebrado os óculos e precisava de novas lentes, e, no fim da consulta, acabei lhe perguntando sobre esse problema da atenção, relatando brevemente aquela dificuldade de prestar atenção nas coisas. Olhando-me meio assustado, o oftalmologista me recomendou um psiquiatra. Eu, mais assustado ainda, saí melancólico. Não acatei a sugestão, naturalmente. Meu problema era outro. (Vai. Não brinca.)

Deixando de lado a sugestão do bom doutor: não é assim? Quero dizer: haveria Hamlet se Hamlet não houvesse olhado para um lado e Claudio para outro? Haveria Guerra e Paz se Pierre e Andrei não houvessem procurado uma coisa que às pessoas comuns da alta sociedade russa nem lhes passava pela cabeça? Haveria santo sem céu e burocrata sem bocejo? Dificilmente.

Pensemos em Machado. Pensemos em Dona Conceição – a da Missa do Galo -. Há dúvida de que Machado a tenha conhecido? Ou, se apenas imaginado, há dúvida de que a tenha amado como a si mesmo? Percebam o detalhe. Os braços brancos e parcialmente nus.

O escritor diante do mundo prestará atenção às palavras e às coisas transmutadas em palavras. Se lemos, não sei, Eça ou Flaubert, ficamos diante da vida como observadores curiosos, vagantes, andarilhos desocupados. Se lemos, ao contrário, Tchekhov ou Tolstói, percebemos uma camada de acréscimo. Os dois souberam dar às coisas uma atenção especialíssima, algo como a confluência entre observação e suspeita de intenção. “Pierre balançou os braços como se quisesse livrar-se de um enxame de abelhas.” Duas linhas, e ali estão Pierre e alguma coisa valiosíssima sobre Pierre: alguma coisa que, embora não se saiba precisar, está também em nós.

Na leitura – é clichê? – aprendemos a amar e a apreciar as coisas e as vidas que os escritores amaram e apreciaram. Em Flaubert, miramos a vendedora de revistas que boceja lá ao longe; em Tolstói, miramos a pequena Natacha e seus pezinhos velozes. Miramos os passos particularissimamente respeitosos de Boris, quando ele está entrando na sala dos vasos.

A técnica

Style, of course, is what every good young author looks to acquire. In lovemaking, its equivalent is grace. Everybody wants it, but who can find it by working directly toward the goal? (Mailer)

You bet. Deixo claro já de início: o escritor que não leu é como um velhinho sem memória que todos os dias se depara com a mesma enfermeira banguela e a julga a mulher mais bonita do mundo. O ápice, porque única. Para ele, as salientes banhazinhas que pululam desobedientes e desordenadas da costura da calça da enfermeira são as mais remotas e importantes manifestações da sedução feminina. Ele olha, ela sorri banguelamente. Ele gosta, e depois pensa.

Nós olhamos, também. E aí pensamos. Mas se olhamos pouco, e se não temos no apartamento uma sacada que nos dê larga vista à multidão que passa na rua, no seu ziguezague preocupado e rotineiro, de modo que possamos captar vez ou outra alguma beleza extraordinária… Se, então não saberemos avaliar o valor daquela obra, o valor de nossas obras, dentro de uma tradição de obras.

Obra, obra, obra. Chega de gracinhas, se não sei dizer, não sei dizer. Melhor convidar à palavra o bancário ilustríssimo T. S. Eliot: What is to be insisted upon is that the poet must develop or procure the consciousness of the past and that he should continue to develop this consciousness throughout his career.

Em The Spooky Art, Norman Mailer conta de algumas escolas de escrita criativa dos EUA. Lá os escritores iniciantes são incentivados a copiar os estilos dos grandes escritores. If they are any good at all, sooner or later they will get rid of that influence. But first, they have to get attached to somebody.” É o que nos recomendam, aqui no Brasil, Olavo de Carvalho, Rodrigo Gurgel e Francisco Escorsim (que, recentemente, mencionou o livro A Flor do Lácio, de Cleófano Lopes).

É verdade que alguns escritores não passaram por isso. Nelson Rodrigues, por exemplo, confessa que não havia lido coisa alguma de dramaturgia quando começou a escrever para o Teatro. Mas são casos raros de seres aéreos, protegidos contra a hostilidade do fogo da mortalidade aqui da terra.

Nós os comuns precisamos anotar os malabarismos de sintaxe de um Machado ou de um Camilo Castelo Branco, colar à memória algumas coleções de vocabulários, e percorrer bocejando os dicionários de regime de verbos. Chatice, eu sei. (Sobre isso, aliás, o dicionário do Francisco Fernandes é suficientemente criterioso. Nos exemplos, ele não cita gente ruim, ninguém que esteja abaixo de Camilo ou de Almeida Garrett.)

Lendo, chega a técnica. A técnica é uma coleção de parafusos, chaves de fenda, pregos, marretas. A técnica é um modo de dizer as coisas. A técnica é possibilidade de ação e uma alternativa de desvio. Volto a Tolstói: Tolstói sabia como descrever camponesas, cavalos; sabia narrar uma caçada, uma guerra. Mas nunca aprendeu a inserir na narrativa texto de conteúdo ensaístico. Dostoiévski, sim. Dostoiévski nos conta do pecado e da existência de Deus sem descascar (ou gastar) a qualidade de sua prosa.

A necessidade de aprender técnicas de estilo se nos torna importante quando nos deparamos com a pergunta: “E agora, como dizer aqui no meio que o personagem, em vez de se alegrar com as pernas das camponesas, ficou melancólico porque é um solitário e sente saudades do passado?” A resposta não é fácil. Nem única.

Joseph Joubert, embora se referisse a outra coisa, talvez tenha sumariado a idéia muito bem neste pequeno aforismo: The child speaks words with his memory long before he speaks them with tongue

Quando a criança fala pela primeira vez, suas palavras são como que a mistura particularíssima do modo pelo qual as pessoas à sua volta costumam falar e o seu próprio modo de falar, por mais balbuciante que seja.

A medida

Alguém lembra a curiosíssima história de quando Chopin ouviu Liszt tocar uma de seus Études: ”I write you”, says Chopin in one of his letters, “without knowing what my pen is scribbling, for Liszt is at this moment playing my Etudes and he transports me out of my proper senses. I should like to steal from him his way of playing my pieces.”

O artista responde a estímulos de uma maneira pessoalíssima. Há muito romance sobre a Segunda Guerra Mundial. Muito romance que registra os terrores causados por Napoleão, mas entre Cartuxa de Parma e Guerra e Paz há a afluência de duas perfeições artísticas que não se tocam sem manifestar a evidente colisão de qualidade que há entre elas. Aí vai. Poetry, disse Shelley, lifts the veil from the hidden beauty of the world and makes familiar things as if they were not familiar. Levantar o véu; mas como?

Talvez a coisa fique mais clara com um exemplo de outra ordem: a tradução. Alexander Pope traduziu a Ilíada sem saber grego; Castilho traduziu Faust sem saber alemão e A Midsummer Night’s Dream sem saber inglês. Suas traduções, contudo, têm a marca do gênio individual, a criação artística pura e simples. Shakespeare na mão de Castilho é outra coisa que não Shakespeare nem Castilho, é um autor fantasma, ignoto, longínquo… Difícil e excepcional. Castilho foi um grande poeta da língua portuguesa e soube expressar Goethe e Shakespeare de uma forma individualíssima. Pope e Castilho eram artistas, Carlos Alberto Nunes e Bárbara Heliodora, apenas tradutores de ofício. Nada mais.

Calma. Puxa um ar lá na sacada, dá uma olhadela nas belezuras e volta: a manifestação artística é uma expressão particularíssima. Repito. Repito. No caso do escritor, é a confluência entre realidade e língua. (Parei. Estou aqui tentando dizer de duzentas e cinco maneiras diferentes o que Olavo de Carvalho, há pouco tempo, disse perfeitamente bem: Escritor é o sujeito que rasga (os papéis sociais) e obriga as palavras a dizerem o que ele quer, não o que elas estão viciadas em dizer.)

A realidade pressiona o escritor. São como bolas de ferro a entortar e curvar os seus pobres e fracos ombros. Tudo depende da musculatura da sua criação, tudo depende de como ele, deitado no chão escuro das possibilidades indefinidas, levantará em supino as existências que exigem a vida, o ar e o céu. Para quê? Para vingá-las, talvez. Para destrui-las ou exterminá-las. Para entendê-las. Ou por amor: não é possível que Machado de Assis pudesse continuar existindo num mundo em que não houvesse o braço semi-nu de Dona Conceição.

(Vou dizer a verdade a quem esteja aí me lendo. Estou cansado de digitar e não escrevi este texto por outro motivo além do de poder citar este trecho do Goddard, que, por mérito próprio, resume tudo, resume tudo: Shakespeare, diz ele, mas poderia ter falado de qualquer outro escritor, pintor, compositor, must have come to realize what creative minds in the end are most bound to see: that the arts are to men only what toys are to children, a mean for the rehearsal of life. And so, paradoxically, the object of art is to get rid of the arts. When they are mature, the art of life will be substituted for them – as children outgrow their toys.)