Os grandes portais de notícia são uma gigantesca coletânea de miudezas, feita para apequenar o imaginário de seus leitores. Ex-deputado pode acertar delação, Ministros do STF discutiram por 10 horas e nada foi decidido, detalhes do assassinato com estupro e esquartejamento, gols do Brasileirão, nova pesquisa que ninguém sabe o que significa nem como foi feita, e não se esqueça da previsão (errada) de tempo. Pronto, agora você está bem informado!

O brasileiro médio, que só lê notícia na internet e assiste TV, é conduzido ao que há de mais superficial e acaba não entendendo nada. Será que a matemática dos bilhões de reais desviados pelos políticos vai fazê-lo entender os verdadeiros objetivos da corrupção? Para quê serve o detalhamento do falatório dos ministros do STF? Por acaso a análise mórbida dos bárbaros crimes cometidos diariamente explica a situação da segurança pública?

Os assuntos do cotidiano realmente importantes são transformados em entretenimento de quinta categoria e esvaziados dos seus significados mais profundos. Propositadamente ou não, o noticiário atordoa suas vítimas, condenando-as a não entender nada ou a fugir para um entretenimento mais interessante.

Quem foge ainda está numa situação melhor. Pior mesmo é aquele que leva o noticiário a sério e molda sua visão de mundo aos pés de William Bonner. Esse acredita que o maior problema da corrupção é o roubo em si (e iguala todos os partidos), que o STF respeita a constituição, que a violência decorre da falta de educação e que vai nevar amanhã no Rio de Janeiro.

A Grande Mídia não faz jornalismo há décadas, e não é só por má-fé. Além do interesse de moldar o comportamento das pessoas e de favorecer certos grupos e movimentos, existe também a burrice, o estreitamento de consciência dos próprios jornalistas. É só ligar na Globo News para perceber o quanto aqueles pobres coitados levam a sério suas intermináveis discussões sobre nada. A grande maioria dos meus colegas de profissão (sim, oficialmente tenho uma chancela da gloriosa UEPB que me garante dizer a todo mundo que sou colega de profissão do grande Sakamoto), age convencida de que desempenha sua função de forma heróica e correta, em defesa de um país melhor.

A verdade é que estão todos, leitores e jornalistas, atordoados por uma fumaça interminável (de maconha, provavelmente) que os impede de prestar atenção naquilo que está gerando o fogo. E não é apenas uma questão de burrice – em muitos casos é o contrário -, mas de hábito e de falta de imaginação. São como cachorros olhando atentamente para uma assadeira de frango gigante.