O doce veneno da saudade de Kelsen

Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre e Che Guevara (1960)

Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre e Che Guevara (1960)

Escolhi por objeto deste texto o fenômeno da arrogância universitária. Não pensem que pretendo exaurir o assunto, mas tão somente expor um de seus elementos causais a partir de uma experiência pessoal (tanto o é que a denominação “arrogância universitária” não passa de uma metonímia).

Um dia desses, antes de começar o treino de Muay Thai, o professor estava no tatame, e conversando comigo, dizia:

– “Não entendo como é que um cabra pode passar cinco anos dentro de uma universidade e sair de lá defendendo vagabundo. Pense numa raiva que eu tenho de vagabundo! Nunca gostei! Será que ninguém pensa na dor da mãe do rapaz que foi assassinado no Parque do Povo ontem não? Meu amigo, se fosse um irmão, um primo meu…”

Por essa declaração, subentende-se:

1) A crença de que as universidades representam autênticos polos de conhecimento da realidade;

2) A constatação de que, embora os diplomados tenham passado por um longo período de tempo imersos no meio universitário, é confuso uma classe supostamente intelectualizada apresentar-se diante do povo com convicções tão patuscas quanto pungentes, quase diatribes, quando comparadas às crenças populares;

3) Que o emissor confia tanto no seu senso de realidade e na educação moral recebida durante a vida, que lhe parece óbvia a necessidade de punir infratores, e  inconcebível a possibilidade de alguém supostamente mais inteligente que ele próprio demonstrar maior condescendência e piedade com um criminoso do que com uma vítima.

Tércio, embora não seja nenhum especialista em sociologia ou criminologia, é um sujeito que pedala não sei quantos quilômetros para ir treinar, e obtém disso o seu sustento material. Sabe, tanto por sua vida quanto por seu trabalho, o que é esforço, disciplina e ordem. Além disso, é necessário perceber que os três subentendidos acima não constituem um sentimento estritamente subjetivo, mas uma representação do modo de encarar a realidade partilhado entre o grupo mais distante das elites universitária e midiática: o povo, imbatível guardião do senso comum.

Senso comum. Eis a palavra-chave. Encaro-o como sendo o inventário de crenças úteis e benignas de determinado povo, cujas utilidade e benignidade são previamente verificadas pela experiência cotidiana de cada sujeito que, atestando-as, as incorpora em sua vida e as transmite à comunidade. Dessa forma, o senso comum, já solidificado por gerações, se torna o grande garantidor de sanidade às percepções morais dos indivíduos. Como disse o professor Olavo no seu último hangout, o senso comum, embora pobre e esquemático, é verdadeiro.

Agora, adentrando propriamente a arrogância universitária, falarei sobre um “debate” ao qual assisti sobre a redução da maioridade penal entre um político e um professor-pós-doutor da UEPB.

Começam as perguntas. Um jovem pede o microfone e questiona o tal professor-pós-doutor:

            – “Olha, mas e se um sujeito de dezessete anos invadisse a casa de seus pais, estuprasse sua mãe e matasse seu pai, você não desejaria a sua prisão?”

Lembro-me que, naquele momento, o professor-pós-doutor assumiu um olhar voluptuoso; o peito intumescido o ungia de excelência, provocando em toda platéia a certeza total e plena de que algo místico estava para acontecer (uma moça ao meu lado roía as unhas). Deu um gole em seu whisky e, do alto de sua pose sacerdotal, respondeu:

            – “Jovem, mesmo se eu o quisesse, minha mãe jamais seria desestuprada e meu pai jamais ressuscitaria. A realidade é muito mais complexa!”

Naturalmente, o professor-pós-doutor foi ovacionado e aplaudido. Digo “naturalmente”, pois, como o evento ocorrera num pub burguês, só se faziam presentes estudantes e professores universitários; estrepitoso encontro entre burgueses, no qual havia a difusa convicção de que todos ali tinham o inalienável dever de discutir o melhor para a vida do povão, mesmo ante a ausência de pedreiros, mototaxis, frentistas e torcedores do Flamengo, os quais, certamente, se ali estivessem, sairiam fustigados pela impressão de que aquilo não teria sido uma discussão séria entre pessoas capacitadas, mas o recreio da ala psiquiátrica.

O leitor deve me achar exagerado. Entretanto, ao analisarmos também a fala do professor-pós-doutor, identificamos que:

1) A última frase, além de um artifício retórico, revela desprezo pelo senso comum, pois, se “a realidade é muito mais complexa”, quer dizer que a lógica punitiva do povo não é sofisticada como a do professor-pós-doutor, incrementada de algum componente realmente complexo da realidade a ponto de fazê-lo crer que a hediondez e a punibilidade de um crime devem ser desprezadas em função dos dezessete anos do criminoso, independentemente do dolo;

2) O  tal “componente complexo” não vem da realidade cotidiana. Se assim fosse, estaria presente de alguma forma minimamente positiva na imaginação moral coletiva. Sendo assim, só resta a constatação de que o professor-pós-doutor, na verdade, está falando de uma abstração construída por ele próprio;

3) Tal abstração pode até ter sido montada partindo do senso de justiça popular. No entanto, o professor-pós-doutor deve ter se apegado à idéia fixa de que não pode ser tão óbvia assim a necessária punição de um crime pelo simples fato de ser reprovável moral e juridicamente. Então, deve ter nutrido sua inquietação através de autores como Michel Foucault e Habermas, intelectuais especializados justamente em estabelecer visões contrárias ou até mesmo cáusticas ao senso comum. Logo, começou a encarar a lógica da punição pelos critérios da antipunição, e construiu pensamentos ou frases tão demagógicas e emotivas sobre o assunto, que ele próprio – com ajuda dos demais professores, alunos, diversos títulos e diplomas – passou a acreditar em si mesmo. Eureka!

Portanto, ao compararmos o professor-pós-doutor e Tércio, temos que a principal diferença entre seus pensamentos está na origem dos mesmos. Esse se expressa de forma simples e direta, como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo, justo porque sua fala brota de uma percepção objetiva da realidade. Em outras palavras, tudo começa no senso do real.

Já aquele, se posiciona de forma grave e solene exatamente por valorizar demais as próprias idéias. Dessa forma, conforme já explicado acima, o sujeito constrói sua visão a partir de uma abstração que acaba se distanciando da realidade. Resumindo, são apenas construtos mentais do próprio professor-pós-doutor.

Paradoxalmente, as percepções do senso comum são tomadas hoje como subjetivas, relativas, e de pouca credibilidade, enquanto as abstrações dos intelectuais universitários consagraram-se enquanto conhecimento objetivo, imparcial, e verdadeiro. Thomas Sowell, em Os intelectuais e a sociedade, chama o primeiro de conhecimento mundano e o segundo de conhecimento especial, justo por aquele ser edificado a partir de sucessivas tentativas e erros em meio à agitação do mundo, e esse por ter se tornado o privilégio de uma classe ocupada unicamente com idéias, teorias e doutrinas, cujos critérios de verificação empírica resumem-se à aprovação dos sequazes. Afirma o economista americano:

Alguém que tenha muito mais conhecimento sobre coisas mundanas, como encanamento, carpintaria e beisebol, por exemplo, estará muito menos propenso a ser reconhecido, pelos intelectuais, como ‘entendido ou versado’, pois, para eles, tudo o que desconhecem não pode ser considerado conhecimento. Embora o tipo especial de conhecimento associado aos intelectuais seja geralmente mais valorizado e receba mais prestígio social, não é certo, de forma alguma, que seja, necessariamente, mais significativo em seus efeitos no mundo real. (…) Muitos intelectuais e seus seguidores ficam excessivamente impressionados pelo fato de as elites altamente educadas – eles próprios – terem muito mais conhecimento per capita – no sentido de conhecimento especial – do que a população em geral. A partir dessa noção, é necessário apenas um pequeno passo para que legitimem as elites educadas como guias superiores, declarando que têm o direito de impor o que deve e não deve ser feito na sociedade.

Ou seja: é inevitável que os detentores desse conhecimento especial, em nome de toda a sociedade, apropriem-se dos processos de tomada de decisão. A experiência brasileira o comprova. Idéias como desarmamento civil, “despenalização” do uso de drogas, rejeição política à redução da maioridade penal, flexibilização ao aborto, etc., foram arbitrariamente impostas, de cima para baixo, por serem invenções intelectuais caras às elites convencidas de sua superioridade. Sowell arremata a questão:

Muitos ou mesmo a maioria dos intelectuais opera sob a suposição, implícita, de que o conhecimento se encontra concentrado em pessoas como eles. Eles se tornam, portanto, especialmente suscetíveis à idéia de uma correspondente concentração de poder, legitimando e apropriando-se, como elite, das decisões mais significativas, em nome de um alegado espírito público o qual beneficiará toda a sociedade.

De fato, as experiências totalitárias do último século revelam que as elites dominantes dispunham de um considerável número de intelectuais engajados em legitima-las perante as massas dominadas. Nesse caso, “arrogância universitária” se torna um imenso eufemismo quando pensamos num Gulag ou em Auschwitz.  Nunca houve, na história humana, um arrogante que tenha contribuído para tantas mortes e traumas. Isso foi, é, e sempre será um autêntico privilégio de canalhas.

Entretanto, não pensem, de forma alguma, que toda especialidade universitária seja nociva ao intelecto. O problema está na ausência de virtude. Qualquer indivíduo disposto a aventurar-se na atividade intelectual precisa de humildade e amor à verdade, seja no reduto mais esquerdista do universo, seja no COF. Do contrário, a vaidade tomará conta, o horizonte de consciência se engessará, e o sujeito passará a acreditar somente em suas deduções imediatas, regozijando-se com a doce ilusão de estar nutrindo a própria inteligência.

Não subestimem nossa falibilidade. Basta um estalar de dedos para trocarmos a confiança no senso de realidade pelo cálido cativeiro de nossas idéias fixas e abstrações. Dostoiévski, pela boca do personagem de Memórias do Subsolo, já nos alertava:

 “… o homem é a tal ponto afeiçoado ao seu sistema e à dedução abstrata que está pronto a deturpar intencionalmente a verdade, a descrer de seus olhos e seus ouvidos apenas para justificar a sua lógica.