O Jardim das Impressões

Foto: Josias Teófilo

Foto: Josias Teófilo

Enfim, o documentário de Josias Teófilo sobre Olavo de Carvalho estreou nos cinemas.

Se antes disso já tinha gerado “caflitos”, como diria o Didi, não se poderia esperar algo diverso depois da estréia – a começar pela reação burra à tirada genial de se colocar nos créditos agradecimentos aos diretores que retiraram seus filmes do CinePE por causa de “O Jardim das Aflições”. Eu ri.

Não tenho condição de fazer uma crítica ainda, porém. O filme é, digamos, denso, e uma análise decente do uso das imagens acompanhando o pensamento do filósofo exige que se assista o filme mais vezes. Quando isso for possível, farei minha crítica.

Por enquanto, não consigo ir além de algumas poucas impressões que irei deixando em comentários a outras que foram publicadas e as de quem gentilmente me encaminhou atendendo a meu pedido pelo facebook – agradeço muito a todos.

Começo pelas “críticas” dos grandes jornais. É de se lamentar as da Folha de São Paulo e de O Globo. O crítico da Folha teve a capacidade de confundir “Folha de São Paulo” com “Fôro de São Paulo” e ainda confessou ser preguiçoso e inculto ao duvidar que o filósofo tenha lido vários livros sobre comunismo: “Tudo lido? Parece um pouco demais.

o de O Globo considerou o filósofo um “católico esotérico”, sem achar necessário explicar essa bobagem no mais mínimo que seja, e arrematou dizendo que não viu “transcendência” no filme, sem tampouco dizer o que o filme deveria transcender e para onde deveria ir.

Não tem como levar a sério essas coisas, melhor olhar e passar.

Na Gazeta do Povo, porém e ainda bem, houve análise de verdade, de Ronaldo de Castro Lima Junior, tratando em detalhes cada parte do filme e concluindo que é “pleno de citações intelectuais e artísticas que se suportam mutuamente, não apenas para elucidar uma obra ou seu autor, mas para nos encantar e nos levar de volta a nós mesmos, a uma dignidade a um só tempo nacional e pessoal.”

De fato, há quase unanimidade entre quem simpatiza com o filósofo quanto a esse encantamento, o que constatei nas dezenas de mensagens que recebi, todas nesse sentido. Mas, e quem antipatiza? Também saiu encantado? A resposta é: sim. Ainda que, provavelmente sem nem perceber, faça do encantamento “prova” de ruindade do filme. É o que se vê das críticas de alguns sites cinematográficos “especializados” como AdoroCinema, Cineweb e Papo de Cinema.

Segundo Marcelo Muller, “Incômodo ao espectador é o viés propagandístico da narrativa, a mal disfarçada parcialidade” porque o filme “opta deliberadamente pela via laudatória.” Ué, só vale filme sobre alguém se for imparcial? E propaganda do quê, exatamente? Do filósofo? Uai, então uma obra apresentando pensamento de filósofo por ele mesmo é propaganda?

Na mesma linha de Muller seguiu Neusa Barbosa ao dizer que filme seria uma “egotrip de seu entrevistado, apresentada de maneira absolutamente acrítica”. Se fosse o próprio Olavo quem tivesse escrito o roteiro, filmado etc., talvez dizer isso fizesse sentido. Mas não foi, e, de novo, só vale filme “crítico”?

Rodrigo Torres considerou que “Josias Teófilo não tem o anseio de explorar as ambiguidades, as contradições, nem mesmo a essência controversa de Olavo de Carvalho. Assim, sua falta de ambição desperdiça matéria perfeita para um bom documentário. E transforma O Jardim das Aflições num filme-propaganda insípido e falho sobre o filósofo, merecedor de uma obra mais desafiadora, mais poderosa, que uma palestra com roupagem de cinema.

Mas o filme claramente não é para ser uma cinebiografia – o que daria algum sentido a essas críticas -, como disse o próprio diretor em entrevista ao UOL: “A verdade é que o filme não é sobre Olavo, mas sobre o mundo segundo Olavo, por assim dizer.”

Ou seja, o que incomodou esses críticos é justamente o encantamento que a personalidade do filósofo causa. É hilário que todos apontem esse mesmo fato e não se dêem conta de que é precisamente isso que o filme quer mostrar: a personalidade do filósofo. Está no cartaz do filme, aliás, a frase de Goethe: “A maior força que existe é a personalidade humana”. O que os críticos apenas estão dizendo, no fim das contas, é que não querem gostar dessa personalidade e queriam vê-la criticada. Ou seja, julgam o filme pelo que gostariam que ele fosse, não pelo o que ele é.

Quem percebeu que o viés simpático ou antipático a essa personalidade enviesaria toda análise foi Fabrício Duque, no seu Vertentes do Cinema, que tentando escapar do Fla x Flu em torno do filósofo considerou que “não podemos de forma alguma desmerecer o papel questionador que “O Jardim das Aflições” traz a nossa contemporaneidade.

E o que mais questiona nossa contemporaneidade massificada é justamente uma personalidade de verdade que não “cabe” em moldes pré-fabricados, como “conservador”, “direita” e coisas assim. É a personalidade que comunica o pensamento do filósofo no filme, mais do que suas palavras. Quando ele fala, por exemplo, que não importa ter opiniões próprias, mas opiniões verdadeiras, o que encanta é a verdade óbvia dessa opinião que só aparece como óbvia porque “encarnada” naquele que a profere. É aquela coisa: o exemplo arrasta.

Como disse Miguel Forlin, no site Formiga Elétrica, o filme “termina por se revelar uma obra de arte visualmente arrebatadora e, mais importante do que isso, intelectualmente poderosa”.

Por isso mesmo quem antipatiza com o filósofo, mas não está dominado por essa antipatia, conseguiu enxergar no filme não uma “egotrip” (risos), mas o contrário disso, como constatou Elias Dourado: “não é um filme de homenagem ou de puxa-saquismo, simplesmente expõe o pensamento de Olavo, isso muito bem dialogado com as cenas de momentos mais íntimos de Olavo, com sua família.” 

Minha curiosidade maior, porém, foi saber o que acharam aqueles que pouco ou nada conheciam do filósofo. Conversei com alguns desses e me surpreendi.

As impressões foram mais variadas, tendo quem tenha achado o documentário muito chato por muito lento, sentindo sono, e quem não sentiu o tempo passar, querendo mais quando acabou. Eu, como acompanho o filósofo há quase 20 anos e não o conheço pessoalmente, poder assistir seu cotidiano me torna suspeito para avaliar isso: eu queria mais.

Uma unanimidade foi os elogios à fotografia – realmente, belíssima – e a surpresa com a mansidão do filósofo – esperavam, claro, o “Alborghetti” polemista. Somando tudo, a maioria gostou do filme e recomenda aos amigos.

De minha parte, tive o privilégio de ter sido convidado para debater o filme depois da sua exibição em Curitiba. Mas, em verdade, fiquei desconfortável nessa função. Se tem algo que aprendi com o filósofo é que uma obra poética tem de deixar uma impressão no imaginário e falar a respeito, vir com retórica, seja de quem for, logo depois dessa impressão ter sido causada acaba por, no meu entender, enfraquecer ou até desfazer essa impressão. Foi mais ou menos isso que falei e aqui repito.

Até porque a montagem do filme foi feita para que essa impressão fosse não apenas causada, mas intensificada ao final. Explico. As duas primeiras partes são mais longas e a terceira, quando todos esperam que tenha extensão semelhante, é bem mais curta, com a fala sobre a eternidade e a morte encerrando o filme quase que de repente, quando a expectativa criada era por mais. Isso impacta e não tem como o espectador não ficar pensativo, com as últimas imagens e falas reverberando na alma. Ou seja, acender as luzes do cinema e ver alguém falando sobre o filme logo em seguida é broxante demais, no meu entender. Por isso optei por dar uma rapidinha e não deixar a impressão se desfazer tão rapidamente.

Quanto a possíveis defeitos no filme, também os há. O mais grave me parecendo ser de roteiro, algo que prefiro avaliar melhor quando reassistir o filme. Por exemplo, embora não fosse uma biografia, um mínimo de informação a esse respeito creio devesse constar do filme. Os saltos para as entrevistas na década de 1990 acabam boiando no ar das idéias de que se fala, não da realidade concreta da vida do filósofo.

Além disso, se há acertos memoráveis entre fala e imagem, como na cena de Brasília e da igreja em Richmond, em outros momentos isso parece gratuito e descolado, como a do banho de moedas e mesmo a utilização da cena de “Ivan, o Terrível” – algo mais com a cara do diretor do que do filósofo.

Também não entendi o contraste feito entre a vida no campo e na cidade não ter sido feito com imagens de São Paulo, citada pelo filósofo, ou qualquer outra cidade brasileira: faria mais sentido. Ainda, não me parece haver justificativa para não ter sido mostrada sequer uma imagem de Bruno Tolentino quando ele foi tratado como personagem relevante no filme.

Enfim, são impressões primeiras apenas. Considerado no todo, minha avaliação é positiva e o filme me encantou também. Não é preciso dizer que, independente da sua qualidade, só o fato de ter sido feito já é um marco sem precedentes nesse contexto de “guerra cultural” que vivemos, pelo que só podemos agradecer a seus realizadores. Ainda bem o filme vale mais do que isso.