O São João e a visão liberal

trio de forró

Em 1986, o então prefeito Ronaldo Cunha Lima resolveu reunir num só lugar todas as festas e eventos que aconteciam durante o mês de junho em Campina Grande. Para isso, criou um espaço gigantesco (sobretudo para a época) no Centro da cidade e inventou um dos melhores slogans da história brasileira: O Maior São João do Mundo. A idéia foi um sucesso imediato, atraindo turistas e atenção da mídia nacional desde a sua primeira edição.

O marketing foi muito importante, mas sucesso do São João de Campina Grande só foi possível pela cultura local. No Nordeste, os festejos juninos são uma espécie de segundo natal. As famílias se reúnem em torno da fogueira, comem, bebem e dançam para festejar São João, São Pedro, Santo Antônio e o início do período de chuvas na região. Além das “festas caseiras”, grandes eventos particulares já existiam no período “Pré-Parque do Povo”.

No seu primeiro ano, o Maior São João do Mundo contou com participação de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Marinês, Alceu Valença, Luiz Calixto, Elba Ramalho, Alcimar Monteiro, Jorge de Altinho, entre outros. Contou até com a participação de Pelé, dançando forró em plena Pirâmide do Parque do Povo, e com a surpreendente aparição de João Dória, Presidente da Embratur na época. Confira o vídeo do São João de Campina em 1986 (5:50 -> aparição de Dória / 10:08 -> Pelé dançando forró haha):

Esse preâmbulo foi necessário para lembrar que o São João de Campina Grande não nasce da organização e do slogan de Ronaldo Cunha Lima, mas de uma tradição anterior, forte e significativa para o povo da cidade. É a cultura local que dá sustentação e vida ao evento, não o contrário, como muitos podem confundir.

Em 2017, Romero Rodrigues, atual prefeito, resolveu fazer do Maior São João do Mundo uma Parceria Público-Privada. Fez-se então um edital para que as empresas da área de entretenimento lançassem propostas de exploração comercial da festa. A empresa escolhida ficou encarregada de organizar o evento, desde a venda de patrocínios, passando pela contratação das atrações musicais e pela organização e comercialização dos restaurantes e barracas dentro do Parque do Povo.

O resultado da “privatização” da festa, do ponto de vista organizacional, é positivo. O espaço do palco foi melhor utilizado, as barracas estão melhor distribuídas e a segurança da festa também melhorou. O que não é nenhuma surpresa, afinal de contas, uma empresa tende a ser muito mais eficiente do que o poder público. Mas se a organização da parte comercial e logística da festa vai melhor com a “privatização” (e deve melhorar ainda mais nos próximos anos), a programação principal do Maior São João do Mundo vai de mal a pior.

A empresa responsável tratou logo de preencher a programação do palco principal da festa com os maiores sucessos do momento: os cantores sertanejos. Maiara & Maraísa, Luan Santana e Simone & Simaria tomaram conta. Não dá para culpar os empresários pela decisão, até porque a venda de camarotes e a presença de público estão excelentes – e o lucro garantido. O problema está na diminuição do significado do Maior SJ do Mundo, promovida com as bençãos da PMCG.

O São João é um patrimônio da cidade e deve ser tratado como tal. À Prefeitura cabe justamente o papel de manutenção da cultura e do significado originário dos festejos juninos, em contrapeso à exploração puramente comercial dos empresários. O São João de Campina tem duas dezenas de eventos particulares, em que seus donos possuem total liberdade na programação e na comercialização dos produtos. O evento do Parque do Povo tem outra origem e outra missão: a de servir de referência cultural para as demais festas e a de garantir a vivacidade das tradições da nossa terra.

Embora O Maior SJ do Mundo seja indispensável para o comércio e o turismo de Campina Grande, não podemos tratar o aspecto financeiro como o principal ou, pior, como o único fator relevante da festa. Não podemos cometer o erro liberal de resumir a realidade inteira à mera troca de mercadorias (nem todo o dinheiro do mundo é capaz de manter uma civilização). Uma cidade é seu povo e sua cultura, do contrário se transforma apenas numa grande feira à céu aberto, onde o sentido último da vida dos seus moradores se transforma no entretenimento de quinta categoria.

É necessário ressaltar também que as atuais bandas de forró (Wesley Safadão, Aviões do Forró e cia) são musicalmente tão ruins – e até bem parecidas – quanto os sucessos sertanejos que arrastam multidões Brasil afora. O que nos dá a noção de que o problema é bem mais profundo e precisa ser tratado com toda seriedade.

Os trios de forró e as músicas tradicionais da cultura nordestina ainda fazem muito sucesso e felizmente permanecem fortes no nosso São João, mas não são mais atração principal. E não adianta apenas cantar as boas músicas antigas e repetir teatralmente o que faziam nossos antepassados, até porque uma cultura precisa ter vivacidade para não correr o risco de se transformar num museu ambulante.

Estamos escutando músicas cada vez piores e dando prioridade ao entretenimento bobo, sem significado. Os nossos jovens não têm nada na cabeça e não são capazes sequer de identificar uma boa música. E os jovens compositores e músicos, tão limitados culturalmente quanto seu público, só conseguem retratar miudezas. É uma crise cultural profunda, que atinge de forma semelhante o país inteiro.

A solução para este problema não virá com a privatização total da festa (que só promoverá ainda mais a “baixa cultura” na sua busca cega pelo lucro) e nem a melhora na programação vai ser suficiente (até porque os grandes artistas nordestinos ainda vivos não durarão para sempre). Nem adianta esperar soluções prontas dos nossos políticos, porque eles sequer entendem o que está acontecendo.

Portanto, ou cada um de nós começa a enxergar o problema e a trabalhar pela restauração da nossa cultura, ou corremos o risco da deterioração total de nossas tradições.

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Ps.: se a visão ideológica liberal vencer, teremos em 2045 Justin Bieber cantando “Olha pro céu, meu amor” em inglês e o Parque do Povo mudando de nome para “Arena Coca-Cola”. Pense numa vantagem…