A Linhagem dos Escritores-Críticos: um Breve Panorama

Horácio em ilustração de Anton von Werner.

Horácio em ilustração de Anton von Werner.

A prática da crítica literária por escritores nos remete à remota Antiguidade Clássica. Daí Jean-Ives Tadié afirmar que “a crítica dos artistas abrange toda a história da literatura” (1988, p.10). Ao que se sabe, Quintus Horatius Flaccus (65-68 a.C) – autor da famosa Epistola ad Pisones – foi o primeiro escritor-crítico de que temos notícia. O crítico português Vitor Manuel de Aguiar e Silva sintetiza com precisão os principais preceitos da Ars Poetica horaciana:

“O poeta deve adotar, em conformidade com os temas tratados, as convenientes modalidades métricas e estilísticas. A infração desta norma, que em termos de gramática do texto poderíamos considerar como reguladora da coerência textual desqualifica radicalmente o poeta. (…) Horácio concebia portanto os gêneros literários como entidades perfeitamente diferenciadas entre si, configuradas por distintos caracteres temáticos e formais, devendo o poeta mantê-los cuidadosamente separados, de modo a evitar, por exemplo, qualquer hibridismo entre o gênero cômico e o gênero trágico. (…) Assim se fixava a famosa regra da unidade de tom, de tão larga aceitação no classicismo francês e na estética neoclássica, que prescreve a separação rígida dos diversos gêneros e que esteve na origem imediata de importantes polêmicas literárias ocorridas desde o século XVI até ao triunfo do romantismo.” (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 347).

Podemos observar que a Epístola é um texto fundamentalmente prescritivo e com clara intenção didática. É que, segundo Horácio, o poeta, para ser legítimo, deveria seguir à risca todos os preceitos classicistas, a saber: clareza, simetria, equilíbrio e harmonia. Qualquer desobediência a tais preceitos seria considerada uma afronta ao bom gosto. Mais de mil anos se passaram até o surgimento de uma obra capaz de rivalizar com a Carta horaciana.

Em De vulgari eloquentia (1303-4) – obra-ilha que, inclusive, transcende a esfera dos estudos literários – Dante analisa os aspectos estruturais da canção provençal. É neste monumental livro que o poeta italiano se debruça sobre a obra de Arnaut Daniel (ALIGHIERI, 1996, p. 85), certamente um dos grandes mestres daquilo que Ezra Pound veio a chamar de melopéia, espécie de poesia que se destaca pela sua melodiosidade.

Do século XIV ao século XVII há um patente declínio da crítica literária exercida por escritores. É apenas a partir da eclosão do Romantismo, em fins do século XVIII, que a produção ensaística dos artistas da palavra começa a ganhar novo fôlego e novos contornos:

“Na prática, o exercício da crítica pelos próprios escritores se deve, em grande parte, ao fato de os princípios, as regras e os valores literários terem deixado de ser, desde o romantismo, predeterminados pelas Academias ou por qualquer autoridade ou consenso. Diluíram-se e perderam-se, pouco a pouco, os códigos que orientavam a produção literária: código moral (o Bem), código estético (o Belo), código de gêneros (determinado pela expectativa social), de estilo (orientado pelo gosto), código canônico (a tradição concebida como conjunto de modelos a imitar). Cada vez mais livres, através do século XIX e sobretudo do XX, os escritores sentiram a necessidade de buscar individualmente suas razões de escrever, e as razões de fazê-lo de determinada maneira. Decidiram estabelecer eles mesmos seus princípios e valores, e passaram a desenvolver, paralelamente às suas obras de criação, extensas obras de tipo teórico e crítico.” (PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 11).

É nesse contexto de ruptura que surge a obra crítica de S. T. Coleridge (1772 – 1834). Coleridge vem a ser, não resta dúvida, um dos fundadores do que hoje entendemos por Teoria da Literatura, pois “ao dissociar a poesia da intenção moral […] e ao desenvolver a noção de forma orgânica, estabeleceu os princípios da objetividade e do formalismo em que iria alicerçar-se o New Criticism” (VIZIOLI, 1995, p. 30). Através da teoria da imaginação – cujo exemplo prático é o poema onírico Kubla Khan – Coleridge revolucionou o conceito de mimesis. Para o poeta-crítico inglês, a poesia não deveria se circunscrever à imitação da realidade factual; deveria ser, antes de tudo, poiesis: criação imaginativa suscitada por sensações e impressões do subconsciente. Tais sensações e impressões, antes de chegarem ao papel, seriam harmonizadas mediante uma imaginação disciplinada pela technē. Ao resgatar a concepção aristotélica de mimesis e sinalizar para a relevância da imaginação no ato criador, Coleridge mostrou que a psicologia e a filosofia podem servir como importantes subsídios para a compreensão do fazer artístico.

Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Algumas décadas depois, nos EUA, surge aquele que veio a ser um divisor de águas nos estudos literários, lançando as bases para uma crítica mais racional e mais centrada na linguagem: Edgar Allan Poe. Não seria exagero afirmar que, não existisse a prosa crítica de Poe, dificilmente o século XX teria produzido um crítico da estatura de Valéry. Talvez o maior mérito do Poe crítico de poesia tenha sido o de sepultar, de uma vez por todas, a concepção romântica segundo a qual a obra de arte é apenas fruto do Gênio, da inspiração:

“Intensamente aplicado desde jovem à mecânica do fato literário, à instrumentação poética, à técnica da crítica, às fórmulas capazes de assegurar o controle sobre a matéria com que se trabalha mediante o absoluto domínio dos utensílios mentais que a elaboram, Poe busca essa atitude central de que fala Paul Valéry ao estudar Leonardo [da Vinci], atitude ‘a partir da qual as empresas do conhecimento e as operações da arte são igualmente possíveis’. (…) De toda a sua obra crítica, esta busca pelo método parece ser o legado mais importante deixado por Poe às letras universais.”  (CORTÁZAR, 2006, p.146).

Em ensaios como A Filosofia da Composição (POE , 2009, p.113- 128), a despeito de algumas explicações mirabolantes a respeito do método composicional de O Corvo, Poe nos mostra que o criador tem plena consciência da maior parte da arquitetura do poema. É muito provável que a concepção de Valéry da poesia como “uma espécie de máquina de produzir o estado poético através das palavras” (VALÉRY, 2007, p. 209, grifo nosso) tenha sido inspirada pela leitura de A Filosofia da Composição. Coube a Charles Baudelaire a divulgação das obras de Poe na Europa.

Baudelaire

Baudelaire

Na obra ensaística de Baudelaire encontramos, como na do Coleridge de Biographia Literaria (1995, p. 149) e na do Poe de Eureka (op. cit. , p. 221-331), uma defesa intransigente da imaginação criadora. Para o autor de Les Fleurs du mal, a arte jamais poderia se render a fins utilitários, ao corpo a corpo das batalhas ideológicas. A poesia deveria ser posta a serviço da beleza, única e exclusivamente. É neste sentido que o poeta-crítico francês convalida a concepção esteticista de Poe a respeito da criação poética:

“Uma enorme quantidade de gente considera que o objetivo da poesia  é um ensinamento qualquer, que deve ora aperfeiçoar aos costumes, ora demonstrar algo de útil. Edgard Poe pretende que os americanos patrocinaram especialmente essa idéia heterodoxa ; infelizmente não é necessário ir até Boston para encontrar a heresia em questão. Aqui mesmo [na França], ela nos cerca, e todos os dias bombardeia a verdadeira poesia. A poesia (…) não tem outro objetivo senão ela mesma ; ela não pode ter outro, e nenhum poema será tão grande, tão nobre, tão verdadeiramente digno do nome de poema do que aquele que terá sido escrito unicamente pelo prazer de escrever um poema. Não quero dizer que a poesia não enobreça os costumes, — que me entendam bem, — que seu resultado final não seja de elevar o homem acima do nível dos interesses vulgares ; isso será evidentemente um absurdo. Digo que, se o poeta perseguiu um objetivo moral, ele diminuiu sua força poética ; não é imprudente apostar que sua obra será má. A poesia não pode, sob pena de morte ou de desfalecimento, comparar-se com a ciência ou com a moral. A poesia não tem a Verdade como objeto, ela só tem a ela mesma. Os modos de demonstração da verdade são outros e estão alhures. A verdade não tem nada a ver com as canções.”(BAUDELAIRE, 1993, p. 57).

Assim sendo, Ezra Pound, T. S. Eliot, Jorge Luis Borges, Octavio Paz e Italo Calvino são, de uma forma ou de outra, tributários de Coleridge, Poe e Baudelaire, por acreditarem que a criação não deve estar subordinada a ditames externos, visto que não pode existir imaginação criadora sem liberdade de expressão. Mas essa liberdade não é sinônimo de aleatoriedade, uma vez que não pode haver arte genuína sem rigor e sem fundamentação estética.

No Brasil, além de Machado de Assis, pelo menos seis escritores-críticos merecem destaque: Manuel Bandeira, Mario Faustino, Bruno Tolentino, César Leal, Ivan Junqueira e Ângelo Monteiro.

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AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1988.

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