A reforma do imaginário através da educação da imaginação

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O que segue é resultado parcial da minha experiência como professor e orientador e também como aluno do professor Olavo de Carvalho, mais especificamente dos meus estudos sobre o que o filósofo chama de conhecimento pré-filosófico e cuja metodologia implícita discerniu e chamou Teoria da Contemplação Amorosa (aos interessados, indico como introdução e resumo esta apostila: http://www.olavodecarvalho.org/da-contemplacao-amorosa/).

Espanta-me a facilidade com que se dá por pressuposto a posse desse conhecimento quando, no máximo, só se está informado dele em teoria. Parecendo, então, muito mais urgente insistir nisso do que em qualquer outra coisa fui aos poucos, e com muitas tentativas e erros, encontrando um modo não de ensiná-lo, porque não se trata disso, mas de ajudar o aluno a, digamos assim, recuperá-lo.

O que segue, esclareço, não tem aval formal do filósofo, embora eu espere esteja de acordo com seus ensinamentos. Se sim, Deus seja louvado; se não, segue o baile.

No Princípio é Simples

Tenho dois filhos. Ambos, quando tinham lá seus dois anos, por aí, a cada chute na bola gritavam gol. Já aos seis faziam do corredor estreito do apartamento um Maracanã lotado, interpretando jogadores, juízes, barulho de torcida, narrador, comentarista e repórter, vivendo um drama qualquer – “se não vencer será rebaixado” etc. – com bastante intensidade, a tudo imaginando com propósito e riqueza de detalhes.

Toda criança é assim, desenvolve a imaginação naturalmente, à medida que vai conhecendo e entendendo mais e melhor daquilo que gosta, se interessa, prefere, ama. Tudo começa e depende, portanto, dessa experiência primordial de gostar, preferir, amar.

Contemplar, Decorar & Recordar 

Quem nunca reparou que quando a criança gosta de algo, um desenho animado, uma música, ela faz repetir dezenas e dezenas e dezenas de vezes seguidas, e depois ainda fica cantarolando, repetindo falas, imitando etc.? Por que, para quê? E como não cansa, não enjoa?

Dão-se aí três ações: contemplar, decorar e recordar. Não por acaso as palavras decorar e recordar têm a mesma raiz etimológica, vêm do latim cordis, coração. Ou seja, decorar é guardar no coração, recordar é trazer algo dele. Mas só se guarda no coração o que se ama.

E quando se ama, sente-se o tempo passar? Quando se ama, quer-se ficar afastado do bem amado? Quando se ama, importa alguma outra coisa? Quando se ama, há outro fim que não o próprio amar? Eis, então, o contemplar, que pressupõe um bem amado que encanta, deseja-se e nele o sujeito se deleita.

Da Cultura Pessoal e a Formação do Imaginário

Por sua própria natureza essa experiência de base forma nosso mundo emocional e, aos poucos, pelo acúmulo de bens amados, uma cultura pessoal, a qual não se confunde com tudo o que vai na memória, mas se constrói e se organiza do pequeno ou grande resto guardado no coração da totalidade do que se testemunhou, viveu, leu, assistiu ou ouviu nessa vida.

Por isso, é essa cultura pessoal que fornece o repertório efetivo de possibilidades que realmente se levará em conta quando das escolhas de quem se deseja ser e fazer nessa vida e, no fim das contas, delimita o horizonte real de uma visão de mundo, muitas vezes inexpressa ou não reconhecida, mas à qual se recorre quando tudo o mais falha na tentativa de compreender o que se passa consigo e ao redor.

Para fins didáticos diferenciemos a morada dessa cultura pessoal, não separada da memória que lhe serve de continente, mas distinto o suficiente para ter organização e nome próprio: o imaginário.

Então se vai à escola…

Mas nesse sistema de ensino que aí está a contemplação é esterilizada muito cedo pela mera obrigatoriedade de se dar atenção ao que quer que seja (contemplar pressupõe conquista do sujeito pelo objeto, não a imposição desta sobre aquele), com o decorar ganhando outro significado por servir a outros fins, como ir bem na prova, passar de ano etc.

Não espanta, consequentemente, que aquilo que se decorou logo se esqueça uma vez conquistado o objetivo, isso quando não acaba sendo desprezado. Quantos, por exemplo, não tem má vontade com literatura porque foram obrigados a ler na escola? E tanto fazia se o livro fosse bom ou ruim, ninguém ama quando é obrigado a tanto, pelo contrário.

… e se faz o Desastre.

A consequência disso é nefasta.

Dissociada da instrução e formação, essa experiência amorosa é relegada às horas de aparente descanso e ócio, tornando a vivência da cultura em geral – seja alta ou baixa, atual ou antiga – , adquirida fora da escola, muito mais um lazer, no máximo hobby, não com sentido e necessidade de cultivo e aprimoramento pessoal.

O resultado inevitável é a inanidade da cultura pessoal, transparente, por exemplo, nos inúmeros “memes” nostálgicos das redes sociais sobre as infâncias e adolescências das últimas décadas, especialmente dos anos 1980 em diante. Que revelam do que mais se guardou com carinho no coração?

Brinquedos da época, programas de televisão encerrados, hits radiofônicos descartáveis, modas passageiras etc. Apenas coisas a marcarem certos momentos ou períodos da vida, não por valerem grande coisa em si. Daí ao fenômeno da adolescência esticada não vai nenhuma distância.

Mal alimentada, a imaginação definha e se desacostuma a trabalhar com propósito – outra das consequências dessa dissociação -, falhando miseravelmente quando exigida a conceber, a sério, quem se quer ser e fazer nessa vida. Sem força a dar verossimilhança suficiente a alternativas de futuro, o destino mais comum presente no imaginário coletivo atual parece inelutável. No caso: vencer na carreira profissional, obter ganhos materiais e adquirir status social.

Não que esses objetivos sejam ilegítimos, não devam ser buscados. O problema não é deles, mas do estreitamento das possibilidades de vida a apenas isso, cujo salário, no fim das contas, costuma ser o mesmo: o vazio existencial marcado pelo tédio, irmão siamês da inquietude angustiada.

A única diferença entre o bem-sucedido e o fracassado é que este sofre desde logo dessa insatisfação vital, mas aquele não perde por esperar. Já não é preciso chegar ao meio do caminho de nossa vida para se sentir perdido e sem saída.

Quantos não se sentem desorientados desde jovens, na época do vestibular ou logo depois, acabando por decidir não decidir o futuro, apostando na tentativa e erro – “se não der certo nesse curso, sempre se pode escolher outro” – ou empurrando com a barriga? Ou quem escolhe por razões ainda mais tolas do que o saldo da conta bancária futura, como, por exemplo, preferir Engenharia por “gostar de matemática” ou Direito por “gostar de ler”. Até a imaginação do meu caçula funciona melhor.

Enfim, desse estado de coisas se fez e se alimenta o mercado de auto-ajuda, as terapias de todo nome, as seitas a cada esquina, bem como a indústria da distração, disfarçada de cultura, esporte e turismo. Muito disso pode ajudar – e ajuda, sim, em alguma medida – a combater a desesperança, mas no meio dessa selva escura, onde encontrar a estrada verdadeira?

Recuperando o que se perdeu pelo caminho: a imaginação como faculdade cognitiva

Que pode fazer a educação, nesse contexto? O que ela sempre faz em qualquer contexto: “conduz para fora”, está na etimologia da palavra. Para tanto, é preciso recuperar o que ficou perdido pelo caminho. É aí que a imaginação, com ajuda, tem de voltar ao centro do palco.

Na (ótima) animação Ratatouille, da Pixar, há uma cena modelar daquela experiência de base a que me referi. Trata-se do momento em que o crítico, Anton Ego, um desses que faz do desprezo modo de vida, é levado a recordar pelo arrebatar de uma dessas experiências, fazendo seu coração de pedra se dissolver:

 

Se Ego foi involuntariamente levado a recordar pelo experimentar do ratatouille,  também o espectador da cena pode ser levado a tanto pelo “experimentar” da própria cena. Ainda que de nada tenha se recordado, nem vivido algo análogo, a cena em si é suficiente a lhe permitir imaginar acontecer.

Se até aqui essa conversa de “experiência amorosa”, “contemplar”, “decorar”, “recordar” estava assim para você, entre aspas – ou seja, abstrata -, talvez agora tenha se tornado mais concreta pelo trabalho da sua própria imaginação, conduzida pelo texto e pela cena.

Porque assim a imaginação funciona uma vez acionada – ainda que involuntariamente -, associando o que a despertou com o que vai conservado na memória, seja combinando as imagens, seja fazendo analogias, sendo capaz, inclusive, de representar aquilo mesmo que instantes antes não entendia nem conhecia.

Alimentar a imaginação com novas coisas, não ainda necessariamente melhores, mas mais próximas, análogas das recordações do sujeito e circunstâncias atuais de sua vida, é o começo de uma reforma do imaginário anêmico ou poluído.

O primeiro passo para tanto é (re)educar a imaginação para que funcione com propósito, não apenas conforme desejos e temores. Nesse primeiro momento, esse propósito não pode ser outro senão buscar o sujeito se conhecer, reconhecendo sua cultura pessoal e, ao mesmo tempo, recuperando seu desejo de alimentar seu imaginário aprimorando sua cultura pessoal.

Para o alto e avante

Repare que tudo que aqui foi dito tem por pressuposto o que entendemos por coração e amar. Não os defini de propósito porque me dirijo à imaginação, cuja linguagem é a analogia, não o conceito. Ou seja, apesar dos múltiplos sentidos dos termos, o contexto em que os uso me parece ser suficiente a que você imagine do que estou falando, a que estou apontando com essas palavras.

Isso nos aproxima do segundo propósito de se educar a imaginação com sentido de aperfeiçoamento pessoal: fazer nascer do seu próprio trabalho o desejo e amor por coisas mais belas, boas e verdadeiras, do que brotará a necessidade de maior precisão da linguagem, de certezas demonstráveis do conhecimento obtido e por aí vai.

Se não for assim, que sentido faz estudar gramática, retórica, lógica, por exemplo? Ou essas coisas nascem e encontram lugar no coração, ou ficarão como penduricalhos da personalidade, nada além disso.

Nesse ponto, a imaginação e o imaginário não são mais destinatários da educação, mas seus instrumentos, fazendo a ponte entre o sujeito mesmo, desde que instalado em seu coração, e aquilo a que ele continua a buscar por querer ser mais e melhor do que é.

No fim continua sendo simples

A raiz de tudo, portanto, está no coração, no contemplar, decorar, recordar. Isso significa que não se amadurece, não se aperfeiçoa, não se educa, como quem treina para as Olimpíadas, mas como um amador.

Por exemplo, uma coisa é saber que, sei lá, Beethoven é melhor do que Coldplay. Outra, muito diferente, é preferir Beethoven ao Coldplay. Posso saber porque alguém ou uma confiável tradição a quem dou autoridade diz que é melhor, um clássico etc. Mas só posso preferir porque realmente amo um mais do que outro.

Senso pessoal de proporção é assim que se adquire, o resto é fingimento, auto-engano. E se isso te parece exagero, romantismo, algo assim, não custa lembrar a definição de filosofia. Não é ela amor à Sabedoria?

Logo, não sabendo amar, resta possuir, engolindo vorazmente sabedorias como se fossem pingos d’ouro, tomando por contemplação o que não será mais do que coceirinha do pensamento posterior, vadio e irrequieto, a padecer de má digestão.

Os bem-sucedidos nessa mentira, Ícaros que não despencam, costumam se encastelar em uma falsa superioridade estética e intelectual, muitas vezes feita de estóica indiferença e incapacidade de compaixão pelo que parece estar abaixo, não raro fugindo de toda convivência humana e intimidade real. Antons Egos de si mesmos, fazendo do desprezo método de auto-educação. Melhor ser amador.

Mais do mesmo

Enfim, não vai nenhuma originalidade em falar em educação da imaginação. Fosse a cultura cultivada e a educação educasse, esse processo aconteceria naturalmente, até despercebido em muitos desses aspectos por desnecessário destacá-los.

Entretanto, como não tem sido mais assim há gerações, tornou-se necessário (re)aprender o que antes não precisava ser ensinado. É o que tenho feito, é com o que tenho trabalhado.