Estamos aqui para nos ajudar

camelo - rio

Fecha o sinal e paro em cima do meio-fio. De repente, ouço aquela voz. Era um camelô, como há milhares e, eu quase dizia, como há milhões. Viro-me e fico olhando o sujeito. O camelô tem de ser um extrovertido ululante. E aquele estava, ali, virando a alma pelo avesso. Passa todo mundo de cara amarrada. O brasileiro é um furioso nato. O que se vê, na rua, são indignados de ambos os sexos.”

Nelson Rodrigues escreveu isso em 1967. Cinquenta anos depois, pouco ou nada mudou. Andar no Centro do Rio sem tropeçar em alguns camelôs seria uma espécie de utopia. E cada um é mais caricato e inventivo que os demais. Afinal, não é fácil chamar atenção daquele usuário de ônibus ou metrô, encerrado em seus fones de ouvido, na tentativa de que a música o distraia de sua obsessiva e necessária preocupação de chegar vivo e o mais rápido possível no trabalho ou em casa. Já até vi ambulante armado de megafone, por exemplo.

No entanto, os berros e os malabarismos, embora de certa inconveniência, não podem ser de todo inconvenientes. O vendedor deve alinhar seu merchan à educação, e, para tanto, criaram esta saudação: “Boa tarde, minha senhora, meu senhor, desculpem atrapalhar o silêncio e o conforto de sua viagem…”. Naturalmente, o requinte tornou-se padronizado, e não há razões para que o padrão chame atenção. O camelô virou parte da paisagem, algo semelhante aos pombos da Praça XV.

Um dia, no entanto, a bordo do 341 (sentido Jacarepaguá-Candelária), um ambulante chamara-me a atenção. Devia ter lá seus 18, 19 anos. Suas roupas eram trapos; estava todo sujo e, visivelmente, naquele estado de espírito no qual o cansaço físico e o abatimento moral parecem concorrer pelo domínio pleno do corpo. Cumprimentara os passageiros como manda o padrão, embora pecasse pela ausência daquela típica euforia dos camelôs. Vendia mentos. “Uma por dois; três por cinco”. Findo o anúncio, vi uma cena de poderosa, arrebatadora banalidade.

O rapaz pôs-se a retirar de sua bolsa as caixas de bala. O fez de forma tão vagarosa e comiserada, que parecia haver entre o jovem e as mentos  um profundo mistério. Por conta desse pequeno e casto gesto, apiedei-me do pobre-diabo e, logo depois, senti certa vergonha de meu sentimento. Não seria justo sentir-me condoído com a dignidade daquele trabalhador. Então, resolvi comprar a bala.

Cato minhas moedas. Para minha insatisfação, apenas um e cinquenta. Não poderia ajudar o camelô. Pensei, logo, em perguntar-lhe se ficaria ofendido se eu lho desse o dinheiro como esmola. Quando ele passou por mim, disse-lhe:

– Amigo, eu queria te ajudar, mas só tenho um e cinquenta aqui. Você se incomodaria caso…

Fui cortado:

– Tranquilo, meu irmão. Pode comer a bala. Estamos aqui para nos ajudar.

O jovem me deu a mentos, um tapinha no ombro, e desceu do ônibus. A resposta foi assustadoramente inesperada. “Estamos aqui para nos ajudar”. É verdade, embora pareça estarmos todos esquecidos dessa fundamental consciência. E como esquecemos, meu Deus, por que passamos a descartar a possibilidade de sermos verdadeiramente compassivos, magnânimos?

Bem. Creio que, ao vivermos num ambiente esteticamente arrasado, violado por construções arquitetonicamente desprezíveis e recheadas de pichações; com setenta mil assassinatos por ano; onde o modelo educacional já demonstrou-se útil tão somente à produção de ineptos e analfabetos funcionais; e no qual há uma população que aceite bovinamente ser governada por uma elite política criminosa, é natural que a virtude, a caridade, o amor, tenham se tornado possibilidades um tanto apartadas de nossa imaginação moral.

Além disso, não podemos desconhecer que, como uma vez me disse o Taiguara Fernandes,  “o maior pecado do Brasil é a ingratidão”. Nós optamos por ignorar nossos grandes intelectuais e heróis. Não sabemos quem foi José Bonifácio; desconhecemos o trabalho e o prestígio de Gilberto Freyre; e nem temos ideia da riqueza literária por trás de um José Geraldo Vieira. Reconheçamos: a escolha por escantear nossas grandes personalidades fez com que a consciência nacional se diluísse neste amontoado de mesquinharias e passionalidades bobas. Se chafurdamos no subdesenvolvimento, atolados em corrupção, assassinatos, e analfabetismo, a culpa é exclusivamente nossa.

Temos de parar, de uma vez por todas, de transferir as responsabilidades e nos colocarmos de fora do problema. É muito simples culparmos entes abstratos como o tal do “Capitalismo”. Nosso exame de consciência é urgente e requer sinceridade. Nenhum brasileiro se sente culpado de coisa alguma, ora. Precisamos reconhecer e nos arrepender de nossos pecados, sobretudo aqueles cometidos contra a inteligência de outrora, que jaz pisoteada, esquecida, desprezada. Ainda há tempo de pedir perdão e ajuda aos grandes mestres do passado, e procurarmos, nós mesmos, nossa própria elevação moral.

Portanto, meu brasileiro, minha brasileira, desculpe interromper o silêncio e o conforto de sua brasilidade, mas se estamos realmente aqui para nos ajudar, devo anunciar que, apesar de termos nos acostumado a ver a maldade e a feiura estampadas nos muros das ruas, nas capas dos jornais e nas chamadas de noticiário, não podemos jamais encará-las como “normais”. Não! Há milhões de compatriotas honrados, corajosos e trabalhadores espalhados por aí e que, embora ocultos, não cessam de testemunhar: a nobreza, a despeito do Brasil, ainda existe, e é para todos. Basta querermos, assim como quis aquele pobre-diabo em trapos.