Se algum dia a expressão “a voz do povo é a voz de Deus” fez sentido, começo a desconfiar que o povo brasileiro vendeu sua alma ao diabo, porque inspirada por Deus a galera não está, definitivamente. Até quando está do lado certo, o brasileiro dá um jeito de errar vergonhosamente. Basta meia hora de Facebook para comprovar que todo mundo está mais perdido do que Dilma na presidência da república.

A raiz do problema brasileiro é a burrice. Ninguém entende um simples texto e, muito menos, entende a realidade nacional. Mas peço licença para ir para a superfície: a política, onde os defeitos dos brasileiros fazem topless.

Estamos saindo (será?) do período mais corrupto e baixo da nossa história política. E não foram os montantes de dinheiro desviados que mais impressionaram nesses últimos 15 anos, mas a precariedade da inteligência das nossas autoridades e o baixíssimo nível do nosso debate público. A Lava-jato tratou de expor toda a corrupção do mainstream político, enquanto o trabalho intelectual iniciado por Olavo de Carvalho há mais de três décadas começou a se popularizar e uma nova classe intelectual (ainda incipiente) surgiu, ocupando espaço no debate público e na cabeça dos brasileiros.

A hegemonia cultural de esquerda foi quebrada e milhões de pessoas começaram a pensar fora da bolha criada pela mídia e pelas universidades. O problema é que a grande maioria dessas pessoas não tinha (e não tem) a mínima idéia de como mudar esse estado de coisas que passaram a enxergar. Foi então que, viciados na burrice e na visão ideológica da esquerda, resolveram procurar soluções definitivas na política.

Num cenário dominado por PT, PSDB e PMDB, surgiu uma personagem quase heróica. Militar da reserva e deputado federal há mais de duas décadas, Bolsonaro tem mais culhões do que o Congresso inteiro e defendeu sozinho bandeiras conservadoras no auge do petismo. Além disso, é comprovadamente incorruptível e independente, quase um milagre no cenário político atual.

Merecidamente, Jair ganhou projeção nacional e o respeito desses milhões de brasileiros que passaram a rejeitar o mainstream político e cultural. Ele aparece como um dos favoritos para as eleições de 2018 e fará um bem tremendo ao Brasil, levando ao debate político nacional pautas conservadoras indispensáveis, como o armamento da população, a luta contra o aborto e o combate à ideologização das escolas.

Entretanto, ao contrário do que pensam seus fãs mais histéricos, ele não é o salvador da pátria. Primeiro, porque a solução definitiva jamais virá da política, que é apenas reflexo da cultura de um país. Segundo, porque Bolsonaro tem muitas limitações – intelectuais e políticas. Terceiro, porque ele parece não compreender bem qual é o seu papel social, negando muitas vezes o auxílio intelectual que qualquer político necessita para ser um grande líder.

Bolsonaro é o início de um novo momento político no país, não o ápice de um movimento cultural. E isso não é demérito nenhum para ele, mas apenas a realidade das coisas. Promover a figura de Bolsonaro como solução para todos os problemas nacionais é falsificação da realidade, é simplesmente mentira, não importando as boas intenções de quem promove isso.

Portanto, a primeira coisa a se fazer para mudar a realidade de coisas no Brasil é compreender o que de fato está acontecendo no país. Depois, é indispensável entender que a política é a arte do possível e que não adianta procurar salvadores da pátria, homens públicos perfeitos. Eles não existem e nem podem existir, porque são seres humanos, falhos e frágeis (uns mais do que outros, claro).

Nenhum político na história mundial teve na cabeça as soluções para todos os problemas do seu país. Sinto informar, mas Bolsonaro não será o primeiro. A história nos mostra que os grandes políticos sempre foram aqueles que tiveram ao seu lado inteligentíssimos intelectuais e indispensáveis aliados. Aqueles que souberam ceder e que entenderam suas próprias limitações e as limitações do cargo que ocupavam.

Por isso, esse pessoal que fica na internet clamando por um candidato puro, que se mantenha isolado de todos os outros políticos e da influência dos intelectuais, não teria nenhum problema em rejeitar Churchill, Thatcher ou Reagan. Provavelmente, rejeitaria também Donald Trump (o melhor político da atualidade) por seu passado “impuro”. O atual presidente americano já foi democrata, já apoiou pautas nada conservadoras e tem um currículo de episódios controversos (pra dizer o mínimo) no mundo dos negócios. Nada disso importa agora, porque ele mudou suas convicções e se juntou a alguns dos melhores intelectuais e especialistas dos EUA, e está utilizando sua incrível habilidade política e empresarial para defender os valores mais importantes do Ocidente.

Essa busca por pureza de intenções e de trajetória nos políticos é um fetiche bobo, de quem não entende nada de política e está preso num esquema mental fantasioso. Nem Bolsonaro, nem Dória, nem Lula ou qualquer outro político é solução para os problemas da sociedade brasileira. Enquanto os brasileiros não pararem de procurar políticos de coração puro (salvadores da pátria), não teremos sequer uma mínima chance de dar certo.