Sobre o soneto

Francesco Petrarca, considerado por muitos o maior sonetista de todos os tempos

Francesco Petrarca, considerado por muitos o maior sonetista de todos os tempos

Talvez seja o soneto a composição lírica mais tradicional do Ocidente. Nos dias de hoje, a maioria dos estudiosos tende a considerar o poeta siciliano Giacomo da Lentino (1210 a 1260, aproximadamente) o inventor desta prestigiosa forma poética, ainda que um grupo menor de historiadores da poesia afirme que o soneto pode ter sido criado por outros bardos europeus do séc. XIII, como Jacopo Mostacci, Pier della Vigna, ou mesmo pelo abade de Tivoli. Seja como for, foi Dante Alighieri (1265 – 1321) o primeiro grande sonetista ocidental.  Coube a Francesco Petrarca (1304 – 1374), no entanto, dar contornos definitivos ao sonetto, conferindo-lhe a harmoniosa estruturação rímica, rítmica e estrófica que se tornaria a preferida dos grandes poetas da Europa, de Camões a Wordsworth, de Ronsard a Rilke.

Desde o séc. XIII, portanto, o soneto vem aparecendo de forma mais ou menos cíclica ao longo da história da Literatura do Ocidente, sempre assumindo contornos inesperados, porém sem nunca abandonar por completo a arquitetura petrarquiana.

No Reino Unido, Shakespeare lhe acrescentou o staccato dístico final, conferindo-lhe maior contundência; na Espanha, Gôngora lhe deu um colorido novo, graças às suas insólitas metáforas; na França, Baudelaire, aprofundando e alargando as conquistas estéticas de Gérard de Nerval e as idéias de Hugo acerca do grotesco, adicionou-lhe uma dimensão sinestésica e um soturno misticismo até então desconhecidos: era o frisson nouveau, posteriormente enriquecido pela alquimia verbal rimbaudiana e pela “musique avant toute chose” de Paul Verlaine.  Essa musicalidade verlaineana, inclusive, influenciou bastante os nossos simbolistas, em especial Cruz e Sousa.

No Brasil, o soneto teve cultores de grande talento, a começar por Gregório de Matos Guerra, o nosso primeiro poeta verdadeiramente grande. No séc. XVIII, destaca-se o mineiro Cláudio Manuel da Costa, escritor de cariz árcade, todavia fortemente influenciado pela lírica camoniana e pelos poetas barrocos de Espanha. No Romantismo, a famosa forma lírica, por aqui, sofre forte declínio, sendo raro encontrá-la nas obras dos nossos principais bardos. É apenas com os nossos parnasianos que o soneto volta a ocupar o centro do palco. Bilac, Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho e Raimundo Correia – este, segundo Manuel Bandeira, um dos maiores artistas do verso que já tivemos – elegem a molde petrarquiano como forma privilegiada de expressão. Os nossos dois principais poetas simbolistas também cultivaram o soneto de maneira intensa. Ritmicamente mais sutil do que o soneto parnasiano, em que o uso do hiato para fins de efeito estético é raríssimo, os espécimes de Cruz e Sousa e de Alphonsus Guimaraens estão entre os melhores produzidos em nosso país, ao lado dos de Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes e Murilo Mendes, este último especialista na feitura de sonetos com versos brancos. Dos poetas da segunda metade do séc. 20, merecem destaque, dentro desta seara, Mário Faustino, Mauro Mota, Carlos Pena Filho, Lêdo Ivo, Ângelo Monteiro, Bruno Tolentino, dentre outros.

No século 21, o soneto tem sido cultivado no Brasil com constância. Nomes como Emmanuel Santiago, João Filho, Wladimir Saldanha, Wagner Schadeck, Silvério Duque, Carlos Heinig, Pedro Mohallem, Igor Barbosa, Ivanes Freitas — além de mais três ou quatro cujos nomes agora me fogem – têm honrado a tradição da famosa forma lírica siciliana.