Sei que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Comam chocolates, perenialistas, comam chocolates… Prefiro música. Aperte o play aí para ler enquanto escuta, vai.

Essa era uma das preferidas do meu professor de violão, a primeira que consegui tocar direito. Também, simples como poucas. Já lá se vão décadas disso.

Eu nunca aprendi muito mais do que tocar a base de qualquer música, já ele adorava solar, esquecia que era aula, inventava solos o tempo todo, viajava mesmo. Nessa, em particular, também cantava, significando algo mais que nunca soube o que era. Desconfio tinha a ver com realizar sonhos. E não conseguir. E não desistir.

E agora? E agora? Não sonhe que terminou.

Ele sonhava que não mesmo, enquanto tocava e cantava. Gosto de pensar que aprendi com ele a fazer isso também: sonhar cantando e tocando.

(E meu violão me olha de soslaio, faz semanas nem encosto nele.)

Ele era bastante jovem, o professor. Em torno dos 20 anos, acho. Eu, uns 10. O mundo ainda não tinha vindo com tudo, claro. Ainda não tinha construído aquela muralha entre sonho e “realidade”, apesar das derrotas temidas por inevitáveis.

Há uma batalha pela frente, muitas batalhas são perdidas.”

Sempre que escuto essa música lembro dele. E sorrio, era um cara “de boa”. Continuaria sendo? Teria desistido dos sonhos, no fim das contas? Estaria apenas vivendo para “conter o dilúvio com um copo de papel”? Não sei, o realista em mim, sempre pessimista, diria que sim. O sonhador tem certeza que não e canta “mas você nunca verá o fim da estrada enquanto estiver viajando comigo.

Eis o poder da música, é capaz de conter uma vida inteira, ainda que feita apenas de possibilidades, em meros 3, 4 minutos. E é só escutá-la para tudo se tornar vivo novamente, presente, “hey, now; hey, now.”

Houve um tempo em que eu ouvia essas músicas de minha infância e me pegava triste, meus sonhos continuavam guardadinhos onde sempre guardei, em memória e imaginação. E só. Quando, sem querer querendo, comecei a tentar realizar, veio o mundo e passou por cima e…

CALMA, não vem historinha de superação, não.

GRAÇAS A DEUS que passou, e passou. De lá pra cá até já vivi aquela parte da música que não entendia quando piá: “Agora ando mais uma vez ao ritmo de um tambor e estou contando os passos até a porta do teu coração. Apenas as sombras à frente, mal clareando o teto, descobrindo a sensação de libertação e alívio.” Hoje, quando escuto, é esse alívio que sinto.

Mas a música já acabou aqui e, veja você como são esses chocolates, começou a que dá título à minha playlist de trabalho: “Sem rendição”. Aquela que me é, primeiro, uma confissão: “aprendemos mais com uma música de 3 minutos do que tudo que aprendemos na escola.

Depois, uma promessa de jamais desistir.

Enfim, se antes eu sonhava tocando e cantando, hoje me realizo escrevendo e escutando.