Caro náufrago,

Tenho 41 anos e posso dizer que passei mais tempo da minha vida tentando descobrir quem sou e para que sirvo do que aprendendo qualquer outra coisa.  A palavra que mais uso para me definir é náufrago. Do tipo mais sofrido, aquele que nem sabia estava em algum navio, nem viu o naufrágio e de repente acordou largado no marzão aberto sem ter a mínima noção de direção, nem tabuinha de salvação.

Quem está assim de uma coisa ao menos sabe: não pode desistir de bater os braços, à espera de algo que lhe ajude a se manter à tona e, com sorte, se salvar. A analogia é boa, mas insuficiente se ficar nisso. Náufragos existenciais “batem os braços” pela vida procurando algo que sentem necessitar como o ar que respiram, mas sem saber bem o quê, estranhamente confiando que saberão identificá-lo quando, e se, aparecer.

Assim eu estava naquele outono de 1998, aos 22 anos, quando apostei na auto-educação, sem nem saber que era isso que fazia. Não foi por gosto, nem masoquismo, mas desespero. Não procurava formação, educação, essas coisas. Se acontecessem, ótimo, mas eu só queria me encontrar, dar rumo a minha vida, mais nada. O resto seria lucro. E foi.

Logo notei que eu não era exceção e quando “mudei de lado”, do lado de quem pode ajudar outros vivendo em situação semelhante, jamais me deixei enganar por essa realidade de desorientação vital generalizada, consequência inevitável de padecermos há gerações desse naufrágio espiritual que transformou o Belo em Gosto, o Bem em Tolerância e a Verdade seria relativa. Consequência: a cultura não cultiva, a educação não educa e religião se tornou uma escolha (ou seja, você é seu deus).

Por isso, quando me tornei professor, sempre me foi mais urgente e indispensável, antes e mais do que tudo, ser esse “algo”, ou seja, orientar existencialmente os alunos mais do que propriamente ensinar o que quer que fosse. Até porque, nessas condições, quem disse que o sujeito quer mesmo aprender alguma coisa? Nem condição de saber o que quer ele tem. Talvez depois dele encontrar um norte pessoal, talvez – repito, talvez! – isso faça sentido e seja, então, desejado por ele mesmo, não porque alguém a quem ele deu autoridade falou que “se não for assim, não será”.

Se isso soa mais como papo de autoajuda ou coisa de consultório psicológico é porque o que entendemos por educação se reduziu tanto a mero ensino ou instrumento de engenharia psicossocial que não sabemos mais o que ela significa e para que serve. E não sabemos mesmo. Para dar um exemplo bastante significativo, Anthony Kronman, reitor da faculdade de Direito de Yale por dez anos (1994-2004), lançou um livro em 2008 cujo título diz tudo: “A finalidade da educação: por que nossas escolas e universidades desistiram do sentido da vida?”

Não só do sentido da vida, mas também do autoconhecimento, donde parte a (re)forma do imaginário através da educação da imaginação, como expus na coluna passada. Ou essas coisas foram assunto, matéria na escola, ou mesmo em casa? Salvo as raras e felizes exceções, não foram, e ficou cada um por si com seus enigmas pessoais, não raro só tendo de ser decifrados quando inevitável, em momentos de violenta crise existencial ou até transtornos mentais.

Mesmo Viktor E. Frankl, o criador da terapia do sentido da vida (logoterapia), desde o início dizia que ela se aplicava não somente como tal, quando houvesse algo de patológico, mas também como forma de confronto existencial com o desespero e a dúvida se a vida teria sentido. Ou seja, a logoterapia é espécie de diálogo socrático antes de tudo. Logo, mais próxima da sala-de-aula do que do consultório.

Por via inversa vieram aqueles que na década de 1970, enxergando o mesmo drama, vislumbraram a possibilidade de usar a filosofia para fins terapêuticos. O nome que pegou foi “filosofia clínica”, mas tiveram outros. Observando o mundo empresarial, corporativo, vê-se que a seu modo tenta também dar conta dessa carência, necessidade, de orientar, ajudar, dar sentido à vida. Surgiram os chamados couchings, counselings, mentorings, e devem estar inventando novos papéis e funções a atender necessidades específicas, cada vez mais crescentes por conta desse estado vital miserável em que nos encontramos.

Não defino o serviço que presto pelo que o mercado oferece ou denomina, mas a analogia com essas coisas acaba sendo inevitável quando me perguntam com que trabalho, pois o terreno é comum em boa medida e as fronteiras nebulosas. Na prática, são espécies da boa e velha OPV (Orientação para a Vida), tenha o nome que tiver, seja voltada para orientação profissional, vocacional, educacional etc.

Enfim, tento apenas ajudar e orientar como posso e como der, usando do que conheço e funcionou comigo, inclusive muito da logoterapia, filosofia, mas muito mais da literatura, do cinema, da música, da minha própria história de vida. Dou um exemplo. Há anos li “A Primeira Investigação de Maigret”, do meu escritor preferido, Georges Simenon. O trecho abaixo me tirou o fôlego. Sublinhei, transcrevi em vários lugares, para jamais esquecê-lo. Não esqueci:

“A profissão que sempre desejara exercer não existia de fato. Jovem ainda, na aldeia, percebeu que muita gente não ocupava o próprio lugar, assumia um caminho que não era o seu, unicamente por ignorância.

E imaginava um homem muito inteligente, sobretudo muito compreensivo, médico e sacerdote, por exemplo, alguém que compreendesse, à primeira vista, o destino dos outros. (…) Esse homem seria consultado como se consulta um médico. E seria, de certo modo, um orientador de destinos. Não só por ser inteligente. Talvez não fosse necessária uma inteligência excepcional, e sim a capacidade de viver a vida de todos os homens, de colocar-se no lugar deles.

Maigret nunca falara sobre isso com ninguém; não ousava pensar muito no assunto, pois acabaria zombando de si mesmo. Por não ter completado o curso de medicina, acabara entrando na polícia por acaso. Teria sido mesmo por acaso? Os policiais não são às vezes orientadores de destinos?”

Era quem eu queria ser também, é claro. Mas como, se é mera ficção, uma mentira no fim das contas? Ainda assim, deu-me algum norte, ainda que no início apenas como consolo. Aos poucos, com outras tantas leituras, filmes, personagens, modelos, conhecendo-me melhor, fui me tornando verossímil a meus próprios olhos, até que um dia eu simplesmente já fazia, já era, o que antes parecia impossível e até ridículo querer ser e fazer: um orientador de destinos, seja através de cursos, aulas particulares, conduzindo grupos de leitura, dando palestras, conversando na mesa de bar, nos inbox da vida, em textos como este.

Mas ser orientador de destinos nos dias que vivemos não significa mais do que ser um salva-vidas acima do peso na beira da praia caindo na água para resgatar outros afogados pela vida. Daí retornar ao posto para ajudar outros, um por um.

Enfim, chega de merchan. Quer se achar na vida? Pergunte-me como.