Pelo menos desde 1959, data em que Antonio Candido (foto) publica o seu idolatrado livro Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, os escritores mais influenciados pelo que poderíamos chamar de cosmovisão cristã vêm sendo tratados pelos críticos e historiadores da Literatura Brasileira como “cães tolerados pela gerência”, caso queiramos fazer uma alusão ao famoso verso de Álvaro de Campos. Tal postura é bastante nítida, por exemplo, quando verificamos o boicote a poetas do nível de Jorge de Lima, escritor cuja prodigiosa imaginação criadora pode ser comparada à de um Arthur Rimbaud ou mesmo à de William Blake.

Esse boicote à Literatura Cristã é, por certo, bastante influenciado tanto pelo Iluminismo e a Revolução Francesa quanto pelas diversas correntes anti- espiritualistas do séc. 19, que serviram de inspiração ao Manifesto do Partido Comunista de 1948, por exemplo. Não foi à toa, portanto, que o crítico e historiador da literatura Antonio Candido – comunista de velha cepa – tenha, em seu volumoso Formação da literatura brasileira, se recusado a estudar o Barroco – que, certamente, é o mais cristão dos estilos de época pós-medievais. Tentando se esquivar do escandaloso boicote, Candido, que até hoje é tido como o estudioso da literatura mais influente do Brasil, alegou que suprimira o Barroco porque pretendia estudar a Literatura como sistema, isto é “considerada aqui um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes denominadores são, além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contato entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade. Quando a atividade dos escritores de um dado período se integra em tal sistema, ocorre outro elemento decisivo: a formação da continuidade literária, – espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo. É uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens, é o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há Literatura, como fenômeno de tradição” (CANDIDO, 2000, p. 23).

O argumento utilizado por Candido, embora bastante engenhoso, é uma falácia, visto que a idéia de “continuidade literária” não é essencial para a formação de uma Literatura Nacional – basta que lembremos dos Metaphysical Poets ingleses do séc. XVII, que só passaram a exercer influência decisiva na Literatura da Inglaterra após 1921, data em que T. S. Eliot publica o famoso ensaio “The Metaphysical Poets”. Neste sentido, é importante observar que nem mesmo um crítico da magnitude de Samuel Johnson conseguiu fazer com que Donne, Cowley e Dryden fossem devidamente valorizados. Outro exemplo dessa descontinuidade é a obra poética de Ezra Pound, muito mais influenciada pelo chinês Li Po, pelo grego Homero, pelo latino Propércio e pelo provençal Arnaut Daniel do que pelos simbolistas e parnasianos que o precederam.

Outro ponto interessante é o seguinte: tanto no Padre António Vieira – a quem Fernando Pessoa considerava o “imperador da Língua Portuguesa” –, e em cujos sermões encontramos a primeira tentativa séria de interpretar graves problemas nacionais, tais como a escravidão (que desde o princípio condenou), como em Gregório de Matos Guerra – bardo que já detecta em sua obra vários componentes da alma brasileira, como a malandragem, a irreverência e a picardia –, já podemos observar, se não um instinto de nacionalidade propriamente dito, caso queiramos fazer uso da famosa expressão de Machado de Assis, ao menos uma espécie de nativismo, percebido por Eduardo Portella até mesmo na obra de um escritor quinhentista como o Padre José de Anchieta.

O curioso é que até mesmo um crítico de tendência progressista, como Haroldo de Campos – em seu livro “O seqüestro do barroco na Formação da Literatura Brasileira”, que veio a lume em 1989 – condena veementemente esse desonesto estratagema utilizado por Candido.

Mas antes mesmo do seqüestro do Barroco por Antonio Candido, houve um seqüestro ainda mais descarado: o seqüestro do Simbolismo pela Geração de 1922, cujos intuitos foram muito bem explicados por Graciliano Ramos, em entrevista a Homero Senna:

“Homero Senna: E que impressão lhe ficou do modernismo?

Graciliano Ramos: Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti. (…) Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. (…)

Homero Senna: Quer dizer que não se considera modernista?

Graciliano Ramos: Que idéia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.”

 

Eis que o Velho Graça –  sem papas na língua, como sempre – põe os pingos nos is.

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REFERÊNCIAS

ANCHIETA, José de. José de Anchieta: poesia. 3 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977.

DE CAMPOS, Haroldo. O  do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Mattos. Salvador: Fundação “Casa de Jorge Amado”, 1989.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 9ª ed. Belo Horizonte-Rio de Janeiro: Editora Itatiaia, 2000.

“The Metaphysical Poets”.In: T. S. Eliot: Selected Essays. New York: Harcourt, Brace and Company, s/d. p. 241-251.

SENNA, Homero. “Entrevista a Graciliano Ramos”. República das Letras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.